- Quanto maior a família, maior a cobrança. Meu avô sempre dizia isso na hora de me dar uma bronca, afinal, eram quatro filhos e oito netos. Fazia sentido, pois conforme todos os parentes iam se formando da faculdade, ganhando empregos e construindo uma família, maior era a pressão para que eu, o mais novo de todos, fizesse o mesmo.
Se o mesmo ocorresse na PSA Peugeot Citröen, quem ouviria a frase provavelmente de um Citroën DS seria o C4 hatch. Afinal, de toda a família de médios do grupo, só ele e o 307 Sedan não emplacaram no mercado – e com a aposentadoria do Peugeot, só sobrou ele para ouvir a reclamação do patriarca.
À sombra
A bronca faz sentido. Veja só: a entrada da família se deu pelo C4 VTR, duas-portas importado da França que logo fez sucesso entre os mais descolados e endinheirados graças à sua ousada traseira com o vidro dividido. Depois vieram os hatches 307 e C4, seguidos por suas versões sedã. O modelo da Peugeot ampliou ainda mais o catálogo, com as variantes importadas SW e Coupé Cabriolet.
Se nenhum deles alcançou a marca dos 10 mil vendidos por mês, todos se consolidaram no segmento, menos o 307 Sedan e o C4 hatch. Curiosamente, um dos motivos apontados por consumidores e leitores do WebMotors pelo insucesso é o mesmo em ambos os modelos – suas traseiras. Enquanto o Peugeot três volumes padecia de um desenho com mais personalidade, o C4 hatch optou por um desenho harmonioso e tradicional, justamente o oposto do que ocorria no VTR.
Sport com câmbio automático
Com o fim ainda distante – o novo modelo chegará ao Brasil em 2013 – o C4 terá uma vida dura pela frente. Além da aposentadoria iminente, o “primo” 307 será substituído antes, já em 2012. Para vender tanto ou mais do que o hatch da Peugeot, o C4 ganhou a nova versão Exclusive Sport.
Atual topo de linha do modelo, a versão agrega tudo o que a Exclusive já tinha mais faróis bixenônio direcionais, controle de estabilidade e novas rodas de 16 polegadas. Ah, e apesar do consumidor brasileiro já estar acostumado com isso, nunca é demais lembrar: de Sport ele só tem o nome, já que o motor 2,0 litros de até 151 cv e o câmbio automático de quatro marchas permanecem os mesmos.
Com preço sugerido de R$ 70 mil, o C4 é, parafraseando a Hyundai, “completíssimo”. Além do trivial para os itens de série ar-condicionado digital de duas zonas, direção eletrohidráulica, trio elétrico, ABS e airbag duplo, o modelo adiciona sensores de estacionamento inclusive dianteiro, faróis de xenônio direcionais, airbags laterais e de cortina e bancos de couro com regulagem elétrica. Caso você não goste de branco, pode escolher entre uma das cinco cores metálicas, único opcional, por R$ 1.000.
Com a mudança feita no pacote de itens de série, o C4 Sport tem preço superior ao de seus rivais equivalentes – e alguns itens, como os faróis de xenônio direcionais, são exclusivos do segmento. Porém o C4 ainda sofre com a fama da manutenção cara problema superado pelo 307 e de beberrão.
Tem até perfume
O que, de certa maneira, é uma injustiça. Os principais componentes de reposição são nacionais e tem preço equivalente ao de outros concorrentes tradicionais, como VW Golf. O consumo também não está fora do que outros médios fazem, com 8,0 km/l medidos pelo WebMotors com etanol na cidade.
Por dentro o carro tem espaço de sobra na frente e moderado atrás para dois adultos e uma criança. Os pontos fracos ficam por conta do entre-eixos de 2,61 metros e do teto baixo. Quem tem 1,75 m de altura ou mais fica com os joelhos desconfortavelmente próximos dos bancos dianteiros, enquanto a cabeça começa a encostar no teto.
Para compensar a sensação de classe econômica dos caronas, o C4 oferece difusor com ventilador próprio para a segunda fileira de bancos. Caso seus passageiros reclamem que o ar que sai por ali não é refrigerado, ligue o perfume embutido no difusor dianteiro para compensar.
Ao alcance das mãos
Felizmente os mimos do C4 não são restritos ao frasco de fragrância para o ar-condicionado. Além do já conhecido miolo fixo, o volante do C4 reúne os principais comandos do carro, do sistema de som ao controlador e limitador de velocidade. O recirculador de ar também pode ser acionado por ali útil na hora que o caminhão ao lado joga aquela inesperada nuvem cinza sobre você, assim como o sistema de iluminação do painel – este último sem utilidade prática justificada.
O painel digital central tem boa leitura para todos os passageiros, o que não é tão bom para quem quiser ver o lado “Sport” do C4 sem comentários a respeito de sua velocidade por parte dos caronas. Na coluna de direção há um mostrador digital que mostra as rotações do motor, mas esqueça-o, é melhor monitorar o fôlego do motor pelo som mesmo – o que não será muito fácil, já que o isolamento acústico da cabine é louvável. O acabamento segue a mesma linha, com materiais emborrachados e plásticos bem encaixados.
Contradição
Teto mais baixo e nome Sport – o C4 tinha tudo para ganhar as garagens dos mais apressados. O problema é que o modelo tem direção e suspensão mais macias do que o 307, que, por sua vez, tem o teto alto, incomum para modelos esportivos. Mas deixemos isso de lado: a dinâmica do modelo é adequada para as maiorias das ruas e estradas brasileiras. Se aquele primo corredor se gaba de fazer curvas mais rápido, o C4 pode se vangloriar de tratar melhor seus passageiros na hora de passar por buracos e outras intempéries asfálticas.
Bem, então qual é o problema do C4? Ele pode ser mais apertado do que o 307, mas é mais confortável e tem mais mimos exclusivos no segmento. O desenho pode estar longe de ser ousado, mas é palatável para a maioria dos paladares brasileiros. Não conseguimos chegar a uma conclusão, mas é bom o C4 encontrar uma – sua família inteira está esperando por uma boa justificativa para não emplacar nas vendas.
Citroën C4 Sport 2011