- Depois que o smart fortwo foi lançado no Brasil e vendeu uma enormidade tudo que estava previsto para este ano já foi embora, lógico seria acreditar que ele se tornaria um veículo que atrairia menos a atenção das pessoas. Ledo engano. Em medida menor, mas ainda assim algo incômoda, o menor urbaninho à venda no país continua a fazer quem quer que o dirija se sentir em um filme de Hitchcock. Parece que sempre tem alguém à espreita, mesmo que sem intenções hostis. Parece, não: tem mesmo. Observando e tirando fotos.
Atrair a atenção pode até ser o motivo de compra de alguns dos novos donos do fortwo, mas o que o carrinho faz mesmo é divertir seu motorista e permitir a ele coisas inimagináveis, como achar vaga para estacionar em uma rua lotada no Dia dos Pais. Sempre há um canto onde carro nenhum cabe. Só o smart.
Com entreeixos bem curto 1,87 m e pouco comprimento 2,69 m, o fortwo é facílimo de manobrar, já que seu diâmetro de giro é proporcionalmente pequeno. Isso permite a ele virar completamente em ruas estreitas. Não há nada melhor do que isso para fugir de engarrafamentos e outras situações de trânsito parado, como um carro que quebra de repente à sua frente. Vagas de garagem apertadas, então, se tornam latifúndios. Tanto nas ruas, que já citamos, quanto em condomínios ou estacionamentos de shopping.
A fonte de uma das maiores vantagens do carro é também a responsável por um de seus maiores pecados: a suspensão muito dura e de curso curto. Em defesa dela, pode-se dizer que carro nenhum com entreeixos de 1,87 m poderia ter uma suspensão mais alta, a não ser para aqueles que quisessem repetir a sensação infantil de andar no carrinho de compras do supermercado. Só que fazendo curvas a 100 km/h ou mais...
Com isso em mente, ou seja, considerando que a suspensão não poderia ser mais alta sob hipótese nenhuma, com sérios riscos à segurança de motorista e passageiro, o smart fortwo sofre, e muito, no Brasil. Só ao andar nele é que pode ter noção de como nosso asfalto é vagabundo e de como nossas ruas se assemelham a campos de guerra. E não nos referimos ao estado de ânimo dos motoristas, que anda complicado, mas sim às trincheiras que se encontra pelo caminho.
Qualquer ondulação ou desnível, dependendo da velocidade, pode se transformar numa pancada que dói até na alma. A sensação é que será preciso encostar o smart e rezar pela sua recuperação, mas o carrinho é surpreendentemente forte. Com o tempo, porém, é quase certo que seus amortecedores exigirão trocas freqüentes. Pode ser que eles sejam mais resistentes do que imaginamos, ou que seus donos rodem por pistas melhores do que as que encontramos no caminho, mas nenhuma destas duas possibilidades parece verossímil. Não no Brasil.
Ligeirinho
Queira você apelidar o carro de Formiga Atômica ou de Ligeirinho, o smart fortwo vai aceitar de bom grado e corresponder ao apelido. Um carro de 770 kg e 121 Nm de torque nem poderia agir diferente. Oficialmente, ele vai de 0 a 100 km/h em 11 s. Dirigindo o carro, a impressão é que essa velocidade chega em muito menos tempo.
É aí que mora o perigo. Lembra que dissemos que qualquer ondulação na pista se torna uma cratera com o fortwo, especialmente em velocidades mais altas? Pois a rapidez com que ele ganha velocidade sem que se note, inclusive torna esses solavancos bastante comuns. Pelo menos no início. Basta algum convívio com o carro para aprender a desviar das tais ondulações ou para diminuir a velocidade. Em termos.
O smart fortwo não é um carro fácil de dirigir devagar. Na estrada, a 100 km/h, ele chega a ser chato. Em estradas que permitem 120 km/h, ele já fica mais interessante, mas o motor, se exigido, permite acelerar sem muito esforço. Ultrapassagens, portanto, são mais do que tranqüilas.
Na cidade, onde a prudência e as leis recomendam velocidades não superiores a 70 km/h com exceção de algumas vias expressas, quem não ficar atento ao velocímetro vai ganhar uma coleção de multas e perder a carteira. Não há carros que acompanhem o fortwo em saídas de semáforo. Mesmo motos podem ficar para trás em uma aceleração mais vigorosa.
Como só tem motor a gasolina de três cilindros com turbo e 84 cv, instalado na parte traseira do carro, o smart pode atingir excelentes médias de consumo, tanto na estrada como na cidade, mas não tivemos essa preocupação com ele. Desfrutamos o que ele tem de melhor, a vivacidade, e, mesmo assim, fizemos uma média de consumo bastante razoável consideramos o quanto o aceleramos.
Na cidade, o carrinho fez 7 km/l. Isso com ar-condicionado ligado e nenhuma preocupação em economizar. Na estrada, também exigindo tudo que o carro permitia, a média subiu para 14,2 km/l. Em ciclo misto, chegamos a 10,2 km/l. Todas essas médias, como dissemos, podem ser bem melhores com quem não goste muito de acelerar. Difícil vai ser encontrar quem não se sinta instigado a isso no fortwo.
Para quem olha para o carro e sente receio de pegar estrada, vale contar o que se passou em nossa avaliação, um delicioso trecho de curvas na Fernão Dias, no caminho de ida e de volta entre as cidades de São Paulo e Atibaia. Mesmo nas curvas mais fechadas ele se comportou de maneira exemplar. O controle de tração, que avisa quando entra em operação por meio de um triângulo no centro do painel, não foi acionado nem sequer uma vez.
Em suma, o fortwo é divertido tanto na cidade quanto na estrada. Talvez até mais na rodovia, onde donos de carros bem maiores se surpreendiam ao ver a disposição daquele nanico chegando perto pelo retrovisor. E passando por eles.
Conforto
O fato de a unidade que testamos custar R$ 64,9 mil era o que dizia a nota fiscal que a Mercedes-Benz nos cedeu para a avaliação do carro deve fazer muitos pensarem: tudo isso por um carro com apenas dois lugares? Sim. E vale, considerando o preço absurdo cobrado pelos automóveis no Brasil.
Primeiro, porque não há outro carro por aqui que ofereça a mesma praticidade e o mesmo pacote de segurança por este valor. São quatro airbags dianteiros e laterais, ABS freios que não travam, EBD controle de frenagem, ESP controle de estabilidade e controle antiderrapagem, importante em um carrinho tão pequeno e com tração traseira, uma combinação que poderia ser bem traiçoeira.
Segundo, porque os dois lugares são amplos, há espaço no porta-malas para as bagagens destas duas pessoas e o interior do carro é muito bom. Há tecidos no painel, os plásticos são de excelente qualidade e mesmo com o teto de policarbonato, simpático, mas propenso a deixar o interior muito quente, o sistema de ar-condicionado mantém a temperatura bem agradável.
Outro problema que o carro poderia ter é a falta de regulagens de altura e distância do volante, bem como ausência de regulagem de altura do banco, mas, surpreendentemente, isso não nos impediu de encontrar uma boa posição de dirigir. Poderia ser melhor, mas nem de longe é ruim.
Na unidade que avaliamos, algum mau contato no sistema de som fazia o fortwo, desligado e estacionado, vez por outra emitir estalos e pancadas na porta, como se alguém tivesse sido esquecido trancado lá dentro. Não era, evidentemente, o caso. Mais fácil seria alguém ter entrado no fortwo e esmurrado a porta ao perceber que ele estava sem a chave. Com razão, porque o carro é, além de tudo, uma delícia de guiar. Sorte de quem pode pagar por ele.
FICHA TÉCNICA – smart fortwo
| MOTOR | Quatro tempos, três cilindros em linha, transversal traseiro, quatro válvulas por cilindro, refrigeração a água, turbinado, 999 cm³ |
| POTÊNCIA | 84 cv a rotação não informada |
| TORQUE | 121 Nm a rotação não informada |
| CÂMBIO | Manual automatizado de cinco velocidades |
| TRAÇÃO | Traseira |
| DIREÇÃO | Elétrica, por pinhão e cremalheira |
| RODAS | Dianteiras e traseiras em aro 15”, em liga-leve |
| PNEUS | Dianteiros 155/60 R15 e traseiros 175/55 R15 |
| COMPRIMENTO | 2,69 m |
| ALTURA | 1,54 m |
| LARGURA | 1,56 m |
| ENTREEIXOS | 1,87 m |
| PORTA-MALAS | 220 l até a capa do porta-malas e 340 l até o teto |
| PESO em ordem de marcha | 770 kg |
| TANQUE | 33 l e 5 l de reserva |
| SUSPENSÃO | Dianteira independente, do tipo McPherson; traseira com eixo DeDion |
| FREIOS | Dianteiros com discos e traseiros com tambores |
| CORES | Não divulgadas |
| PREÇO | R$ 64,9 mil conforme avaliado |
