São Paulo, SP - O Brasil, durante muitos anos, esteve fora do circuito internacional de grandes shows. Sempre que algum artista importante resolvia vir para essas bandas, a disputa de ingressos era inevitável. Isso vem mudando de uns tempos para cá, com um número cada vez mais expressivo de artistas de renome em território nacional. O mesmo vem acontecendo no mundo automotivo. Diversas marcas só apareciam por aqui com importação independente, como artistas de férias, mas isso vem mudando. Além de Lotus e Pagani, trazidas pela Platinuss, acaba de chegar ao Brasil a smart e seu simpático carrinho, o fortwo.
O novo urbaninho será vendido a R$ 57,9 mil na versão coupé e a R$ 64,9 mil na versão cabrio, como dissemos na semana passada. Apesar de a aparência do veículo poder dar a impressão de um modelo frágil, de brinquedo, mesmo, não se engane. Ele é seguro como um modelo grande e divertido como poucos veículos que tenhamos dirigido nos últimos tempos.
Como bem diz a Mercedes-Benz, que o importa oficialmente, ele é um carro para duas pessoas, o que não quer dizer que seja apertado ou pequeno para essa aplicação. Ele é, a bem da verdade, muito mais confortável do que a maioria dos veículos pequenos brasileiros. Um motorista de 1,85 m encontra muito espaço para as pernas e para a cabeça. É a estreiteza da carroceria que atrapalha um pouco o conforto. Para namorados e casais apaixonados, isso há de ser uma vantagem.
O interior moderno traz um acabamento caprichado, com tecido até no painel, que é todo revestido na mesma cor dos bancos. Como todo carro de caráter forte, ele tem aspectos únicos, que não se encontram em nenhum outro automóvel. O contato, por exemplo, fica atrás da alavanca de câmbio, no console central do carro. É ali que se insere a chave para dar partida no urbaninho.
A área envidraçada é grande, o que permite uma visão privilegiada de tudo que acontece acima, já que o teto é de policarbonato e ajuda a enxergar melhor os semáforos, e em volta. Não só em uma mão, diga-se. Estar em um smart fortwo é como estar dentro de um aquário. Por sorte, não para ser o peixe-palhaço, mas sim um mais respeitado, ornamental, mesmo, como o peixe-leão. Isso pode desviar o foco do que o carro realmente é.
De início, o fortwo certamente será transformado em um objeto para chamar a atenção devido a sua raridade, como aconteceu com Chrysler PT Cruiser e VW New Beetle. Quando ele se tornar mais comum nas ruas, aí sim suas reais qualidades falarão por ele.
A primeira é a racionalidade. Como já dissemos por aqui, não faz o menor sentido ter um carro de cinco lugares se você mora sozinho ou só com uma pessoa. O peso extra só serve para ocupar espaço e para gastar combustível.
Fazendo uma conta nada científica, imaginemos que um congestionamento de 200 km em São Paulo tenha carros com a média de 4 m de comprimento. Isso daria 50 mil carros engarrafados. Se os mesmos 50 mil carros fossem fortwo, o congestionamento teria 134,5 km.
A segunda é a esportividade. Ainda que gente muito boa já tenha dito que o carrinho é anestesiado, não foi o que sentimos. Os 84 cv em um carro de no máximo 800 kg na versão cabrio fazem milagres pelo desempenho, sobre o qual falaremos mais adiante. Para ter ideia, a relação peso/potência do fortwo é 9,17 kg/cv. A do novo Chevrolet Vectra, que nos impressionou positivamente em desempenho, é 9,06 kg/cv.
Ao volante
A proposta da Mercedes-Benz para os jornalistas avaliarem o fortwo foi de um trecho rodoviário curto, só para sentir como ele se comporta nesse ambiente, e bastante tempo no trânsito pesado de São Paulo, a metrópole escolhida para ele começar a ser vendido. Não por acaso, evidentemente. A maior cidade do Brasil é a que tem o trânsito mais complicado, ambiente no qual o fortwo se sente em casa.
Nosso primeiro contato com ele, já descrito parcialmente acima, tem mais algumas observações importantes. Assim como os primeiros Ford Ka, o fortwo não tem porta-luvas, só um nicho, relativamente espaçoso, onde podem ser guardados alguns objetos. Se forem de algum valor, não é muito recomendável deixá-los no carro.
Não há regulagem de altura do banco nem de volante em nenhum sentido. Isso, em um veículo de R$ 60 mil, é quase imperdoável. O que salva o fortwo é que o bom desenho do interior permite que o motorista ache uma posição confortável para guiar o carro. A melhor seria obtida com as tais regulagens.
Com o motor ligado, o smart se põe em marcha com alguma hesitação. A bem da verdade, a hesitação é nossa, uma vez que ainda não conhecemos o carro tão bem. Não é preciso pisar de leve no acelerador. Aliás, como o câmbio é um manual automatizado, o certo é pisar com bastante vontade no pedal. Só vale ter cuidado. Se a vontade for muita, o fortwo responde à altura.
A relação peso/potência do carrinho e o motor em posição traseira criam situações instigantes. Como o entreeixos é curto e a maior parte do peso do carro está atrás, ele empina quando é acelerado com vontade. Não chega a tirar a roda do chão, mas o movimento da carroceria mostra bem que, com um pouco mais de potência, é exatamente isso que ele poderia fazer.
Na estrada, o fortwo ganha velocidade de uma maneira espantosa. A máxima, limitada eletronicamente a 145 km/h, está bem acima do que legalmente se pode atingir no Brasil até 120 km/h, e em apenas alguns lugares. Ele acelera de 0 a 100 km/h em 11 s, o que equivale a dizer que ele ultrapassa e acompanha o ritmo dos outros carros como gente grande. E não nos referimos a tamanho. Afinal de contas, tem muito carro maior que o smart que não consegue chegar nem perto de seu desempenho. Falamos de força.
Não há por que ter medo de acelerá-lo, nem de entrar rápido em curvas. A eletrônica atua de formas discretas ou nem tanto para corrigir eventuais desvios de rota. Ao contrário do primeiro Mercedes-Benz Classe A, a posição de dirigir não faz o motorista se sentir um joão-bobo, balançando ao sabor das curvas. A sensação de segurança é bem maior.
No trânsito das cidades, não se engane. Ser mais compacto e ágil só ajuda o fortwo a se livrar mais rápido de algum enrosco ou a passar por um espaço onde outros carros ficariam presos. Se o trânsito parar, você vai ficar ali como todo mundo. Por sorte, o ar-condicionado digital e o sistema de som de boa qualidade ajudam o tempo a passar com mais comodidade.
O pedal do freio do fortwo, além de pivotado no chão, o que torna seu acionamento mais pesado, também não é lá muito leve. Com algum tempo de pára-e-anda, a perna começa a doer, especialmente se você dirige carros automáticos com as duas. O smart fortwo só tem dois pedais: o do acelerador e o do freio. A suspensão de curso curto também o torna duro, o que agrada em curvas, mas afeta o conforto.
Em síntese, o smart fortwo tem um preço alto, mas o fato de não ter concorrentes diretos o coloca em uma posição muito confortável. Quem quiser o conceito que ele apresenta vai pagar o que a Mercedes-Benz pedir, se tiver como pagar. E já houve quem pedisse até R$ 150 mil por ele. Agora, pelo menos ele está mais acessível, como se diria de um show muito esperado. O ingresso pode ser caro, mas pelo menos o artista está no Brasil. E em breve chegarão outros, como o Mini. Agora, só falta o carro de passeio movido a diesel!
FICHA TÉCNICA – smart fortwo
| MOTOR | Quatro tempos, três cilindros em linha, transversal traseiro, quatro válvulas por cilindro, refrigeração a água, turbinado, 999 cm³ |
| POTÊNCIA | 84 cv a rotação não informada |
| TORQUE | 121 Nm a rotação não informada |
| CÂMBIO | Manual automatizado de cinco velocidades |
| TRAÇÃO | Traseira |
| DIREÇÃO | Elétrica, por pinhão e cremalheira |
| RODAS | Dianteiras e traseiras em aro 15”, em liga-leve |
| PNEUS | Dianteiros 155/60 R15 e traseiros 175/55 R15 |
| COMPRIMENTO | 2,69 m |
| ALTURA | 1,54 m |
| LARGURA | 1,56 m |
| ENTREEIXOS | 1,87 m |
| PORTA-MALAS | 220 l até a capa do porta-malas e 340 l até o teto |
| PESO em ordem de marcha | 770 kg coupé e 800 kg cabrio |
| TANQUE | 33 l e 5 l de reserva |
| SUSPENSÃO | Dianteira independente, do tipo McPherson; traseira com eixo DeDion |
| FREIOS | Dianteiros com discos e traseiros com tambores |
| CORES | Não divulgadas |
| PREÇOS | R$ 57,9 mil coupé e R$ 64,9 mil cabrio |