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Lewis Hamilton e a luta contra o racismo na F1

O britânico já pode ser considerado o maior de todos os tempos. Mas há uma má vontade velada contra ele…

Marcus Celestino
Marcus Celestino

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Lewis Hamilton é o maior piloto de Fórmula 1 de todos os tempos. Isso deveria ser incontestável. Deveria, mas não é. Muitos dos fãs de automobilismo replicam o padrão da sociedade, e se recusam a admitir que um negro reina absoluto na categoria. Por isso, inventam as maiores balelas com a finalidade de diminuir os feitos do britânico.

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Lewis Hamilton
Lewis Hamilton pede justiça por jovem negra assassinada na própria casa, nos Estados UnidosCrédito: Reprodução/ Twitter

Atribuem à “sorte” o sucesso do recordista de vitórias na Fórmula 1. Dizem que já ingressou na categoria pilotando um carro vitorioso. É claro que o McLaren MP4-22 era um projeto muito bem engendrado. O que os detratores de Hamilton se esquecem é que o primeiro piloto do time de Woking à época era o espanhol Fernando Alonso.

A essa altura, 2007, Alonso já era bicampeão mundial. Com um bom carro nas mãos e um calouro como companheiro de equipe, o terceiro título era praticamente certo. Era. Lewis Hamilton fez a melhor temporada de um estreante na história, venceu quatro corridas no ano e dilacerou os sonhos do Príncipe das Astúrias. Não fosse um problema na oitava volta do GP do Brasil, teria tirado o campeonato das mãos de Kimi Räikkönnen.

A grandiosidade de Lewis Hamilton pode ser muito bem mensurada pela capacidade de seus rivais. Dos cinco companheiros de equipe que o britânico teve na Fórmula 1, três foram campeões mundiais. Além disso, apenas Jenson Button, em 2011, e Nico Rosberg, em 2016, conseguiram fechar o ano à frente de Hamilton.

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Lewis Hamilton
Lewis Hamilton e Fernando Alonso travaram intenso duelo em 2007Crédito: F1 Fanatic

Vale também frisar que Lewis, ao contrário do que seus detratores dizem por aí, nunca teve carro superior ao de seus companheiros de equipe. Sua velocidade e consistência na pista usualmente o deixam em posição favorável, fazendo com que as estratégias desenhadas para ele sejam menos arriscadas que as de seus rivais diretos.

Importante ressaltar que, ao contrário de times como a Ferrari, a Mercedes sempre dá prioridade aos carros que estão na frente. Por estar com certa constância em melhor posição de pista que seus companheiros, Lewis acaba beneficiado. Episódio como o do GP de Singapura de 2019, quando o time pediu para que Valtteri Bottas tirasse o pé, também teria acontecido se o finlandês fosse o beneficiário.

A vontade mesquinha de querer diminuir as conquistas de Lewis Hamilton, porém, não se restringe aos fãs. A imprensa britânica, por exemplo, volta e meia rasga elogios aos outros pilotos do circo que correm pela Rainha. Já para Lewis, porém, o carinho vem com mais parcimônia.

O mau exemplo vem de cima

Até mesmo a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) parece não compartilhar dos esforços de Lewis Hamilton por igualdade racial. Além disso, também parece trabalhar para reduzir o brilho de sua maior estrela.

Ao escolher Vitaly Petrov para ser comissário do GP de Portimão, a federação praticamente deu de ombros para a luta. O russo condenou o fato de Lewis Hamilton ter usado camiseta em que pedia justiça por Breonna Taylor, mulher negra, morta dentro de sua própria casa pela polícia de Louisville. O ex-piloto também criticou o ato de se ajoelhar em prol do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

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Lewis Hamilton
Lewis Hamilton pede justiça por jovem negra assassinada na própria casa, nos Estados UnidosCrédito: Reprodução/ Twitter

Por um triste problema familiar, Petrov não pode participar do GP de Portugal. Ainda assim, o convite ao russo é uma afronta aos que defendem a igualdade racial. Com a escolha, a FIA pareceu ignorar seu slogan: “We race as one” que, em português, significa “corremos como um só”.

Mas não fica só aí. Não é de hoje que FIA e Fórmula 1 tendem a fazer vista grossa para o racismo. Velado ou não. Em 2008, durante os testes da pré-temporada, na Espanha, Lewis Hamilton foi alvo de vaias e de injúrias raciais por parte dos “fãs”. À época, federação e circo espernearam, mas nada fizeram contra os espectadores.

Bernie Ecclestone, chefão da Fórmula 1 por quase quatro décadas, disse que, geralmente, “negros são mais racistas que brancos”. Comentou também que achava Lewis Hamilton “muito talentoso” e que “a campanha que Lewis estava fazendo ‘para’ os negros era maravilhosa”. Numa análise mais aprofundada, dá para inferir que Ecclestone já considere Hamilton como seu “amigo negro”.

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Bernie Ecclestone Lewis Hamilton
Bernie Ecclestone, ex-chefão da Fórmula 1, no GP do Barein de 2012Crédito: Commons/ Wikimedia

De acordo com o doutor Harry Edwards, PhD pela Universidade de Cornell, o branco “comprime” a identidade negra, bem como o espaço de vida do negro. É uma espécie de controle editorial, ao qual Edwards atribui como “sintomático dos tempos em que vivemos”.

“Mesmo aqueles brancos que estavam dispostos a trabalhar em colaboração com os negros geralmente o faziam com presunções, às vezes sutis e às vezes descaradas, de superioridade branca – superioridade na informação, na percepção, no julgamento e, certamente, no controle e poder”, escreveu Edwards em A revolta do atleta negro, livro de 1968.

A obra de Edwards mostra o despertar do atleta negro para a sua capacidade como influenciador. O professor emérito da Universidade da Califórnia (UC Berkeley) destaca, porém, que esse despertar não é visto como uma surpresa, mas sim como inevitável. Lewis Hamilton sabe disso muito bem.

Ao lutar pela igualdade racial, o primeiro piloto negro da história da Fórmula 1 usa seu poder da melhor maneira. Ademais, ao defender outras pautas relevantes, como sustentabilidade e respeito aos direitos dos animais, Lewis Hamilton foge da figura romantizada, do que conhecemos como “o piloto de F1”. E isso é ótimo. Ele vai de encontro ao status quo.

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Roscoe
Fugindo do estereótipo: Roscoe, buldogue de Lewis Hamilton, segue a mesma dieta vegana do donoCrédito: Reprodução/ Instagram

Status quo que produziu campeões mundiais como Jackie Stewart e Mario Andretti, que minimizaram o racismo na Fórmula 1. Andretti ainda foi além, e disse que Hamilton não precisava ser “tão militante”. Não à toa esse mesmo discurso é replicado, com menos rebusque, por boa parte dos fãs.

Lewis Hamilton pode não ser o melhor piloto da história da Fórmula 1. Até porque, melhor é subjetivo. O melhor pertence a cada sujeito. Já maior, principalmente num universo regido por métricas, não. O maior é definido por estatísticas, por números que evidenciam a genialidade do indivíduo ou do grupo.

Lewis Hamilton é o maior piloto de Fórmula 1 de todos os tempos. Isso deve ser incontestável.

“Em primeiro lugar, populações e sociedades às vezes escolhem – por medo, raiva, convenção cultural e tradição, ou sob a influência da demagogia – ignorar as lições da história.” – Harry Edwards

Toda a última quarta-feira do mês a coluna Chicane traz reflexões e histórias do mundo do automobilismo, em especial a Fórmula 1, com Marcus Celestino.

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Escrito por Marcus Celestino

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