Elétricos e Híbridos 8 min. de leitura

Baterias de carros elétricos: o que acontece após o uso?

Entenda por que as baterias de carros elétricos e híbridos podem ganhar uma segunda vida e como funciona a reciclagem

Nicole Santana
Nicole Santana

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Muito se fala sobre os benefícios ambientais de carros elétricos e híbridos, especialmente quando o assunto é a redução das emissões de poluentes.

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As baterias dos carros elétricos e híbridos podem ser reaproveitadas mesmo após deixarem de ser utilizadas nos veículos.
Carros da BYD são os maiores responsáveis pela recuperação da AbeifaCrédito: Ricardo Rollo/Webmotors

Mas existe uma questão que ainda gera discussões entre defensores e críticos da eletrificação: afinal, o que acontece com as baterias desses veículos quando chegam ao fim da vida útil?

Uma das críticas mais comuns é que, apesar das vantagens ambientais durante a utilização, as baterias representam um problema por causa dos materiais empregados em sua fabricação e das dificuldades de descarte.

Essa preocupação tem fundamento, afinal, falamos de componentes que exigem cuidados específicos e podem causar impactos ambientais quando destinados de maneira inadequada.

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Baterias de carros elétricos
O fim da vida útil de uma bateria automotiva não significa que ela precisa ser descartadaCrédito: Divulgação

O que muita gente não sabe é que essas baterias de carros elétricos e híbridos podem ser recuperadas, reaproveitadas e até recicladas, com a possibilidade de retorno de parte de suas matérias-primas à indústria.

Isso não significa que o processo seja simples ou livre de impactos ambientais.

A reciclagem exige tecnologia, infraestrutura e procedimentos de segurança. Ainda assim, a ideia de que uma bateria necessariamente se transforma em lixo após deixar o veículo não corresponde às possibilidades técnicas existentes.

Baterias de carro elétricos têm prazo de validade?

Antes de entender o destino das baterias, é importante esclarecer que esses componentes não deixam de funcionar repentinamente depois de determinado número de anos.

As baterias utilizadas em carros elétricos e híbridos são desenvolvidas para suportar milhares de ciclos de carga e descarga. Com o passar do tempo, porém, sofrem degradação gradual, que reduz sua capacidade de armazenar energia.

Na prática, isso pode significar diminuição da autonomia do veículo, mas não necessariamente a inutilização da bateria.

Segundo Carlos Roma, diretor técnico da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), a perda de desempenho precisa ser avaliada antes de qualquer decisão sobre substituição ou descarte.

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A reciclagem das baterias permite recuperar matérias-primas que podem voltar à cadeia produtiva
A reciclagem das baterias permite recuperar matérias-primas que podem voltar à cadeia produtivaCrédito: Divulgação

“A bateria de um veículo eletrificado não chega a determinado momento e simplesmente para de funcionar. Existe uma degradação gradual. Mesmo quando deixa de atender aos requisitos de desempenho para aquela aplicação automotiva, ainda precisamos avaliar seu estado de saúde e entender qual o melhor destino para aquele equipamento”, explica.

Para isso, especialistas analisam o chamado estado de saúde da bateria, conhecido pela sigla SOH (State of Health). Essa avaliação permite identificar a condição do componente e verificar se ele ainda pode continuar em operação.

Em determinadas situações, o reparo de módulos ou componentes específicos pode ser suficiente para prolongar sua utilização, sem a necessidade de substituir todo o conjunto.

Baterias usadas podem ganhar segunda vida

Uma das possibilidades mais interessantes está no reaproveitamento das baterias que já não atendem às exigências de desempenho de um automóvel.

Isso porque uma bateria que perdeu parte de sua capacidade de armazenamento ainda pode ter utilidade em aplicações que não exigem as mesmas características de potência, peso e autonomia.

Este é o chamado conceito de “segunda vida”.

Um exemplo é a utilização dessas baterias em sistemas estacionários de armazenamento de energia, associados à geração solar ou eólica. Nesse tipo de aplicação, elas podem armazenar eletricidade nos períodos de maior produção e disponibilizá-la posteriormente, quando houver necessidade.

Diferentemente do que acontece em um automóvel, o peso e o volume do conjunto deixam de representar limitações tão importantes.

“É importante entender que o fim da vida automotiva e o fim da vida útil da bateria não são necessariamente a mesma coisa. Uma bateria que já não apresenta o desempenho desejado para um automóvel pode, dependendo das suas condições, continuar armazenando energia em aplicações menos exigentes”, explica Roma.

Mas existe uma ressalva: nem toda bateria poderá ser reaproveitada. A decisão depende do estado de conservação, da composição química, das condições de segurança e, claro, da viabilidade econômica do processo.

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Baterias de carros elétricos podem ganhar uma segunda vida em sistemas de armazenamento de energiaCrédito: Divulgação

E quando a bateria realmente não pode mais ser utilizada?

Quando a bateria deixa de apresentar condições adequadas para continuar em operação, seja em um veículo ou em outra aplicação, entra em cena a reciclagem.

E aqui está um dos pontos mais importantes dessa discussão: uma bateria automotiva não deve ser descartada como lixo comum, mas encaminhada para a cadeia especializada de tratamento e recuperação de materiais.

O processo começa com a coleta, transporte e armazenamento adequados. Posteriormente, em instalações especializadas, elas passam por procedimentos de segurança e desmontagem.

Materiais como aço, alumínio, cobre e plásticos podem ser separados para recuperação. Já as células passam por tratamentos específicos, que variam conforme a tecnologia. Uma dessas etapas pode resultar na chamada massa negra (black mass), material específico que concentra componentes das células e pode ser processado para recuperar matérias-primas.

Entre os elementos que podem ser recuperados estão lítio, níquel, cobalto e manganês, sempre dependendo da composição da bateria. Esses materiais têm valor para a indústria e podem voltar a integrar processos produtivos, inclusive relacionados à fabricação de novas baterias.

Importante destacar que existem diferentes tecnologias de reciclagem, como os processos pirometalúrgicos, que utilizam altas temperaturas, e os hidrometalúrgicos, que empregam processos químicos para separar e recuperar componentes.

É importante dizer também que a recuperação não é necessariamente integral. A eficiência depende da composição da bateria, da tecnologia utilizada e das condições do processo.

Reciclar baterias também reduz a necessidade de extrair novos minerais?

Esse é justamente um dos principais objetivos da chamada “economia circular”.

A fabricação de baterias exige matérias-primas cuja extração envolve consumo de recursos naturais e impactos ambientais. Quando parte desses materiais pode ser recuperada de baterias usadas, surge a possibilidade de reduzir a dependência da mineração para abastecer a indústria.

Isso não elimina a necessidade de extrair novos minerais, especialmente em um cenário de crescimento da produção de veículos eletrificados, mas permite aproveitar recursos que já passaram pela cadeia industrial.

“A reciclagem é importante porque fecha o ciclo. O objetivo é que materiais presentes em uma bateria que já cumpriu sua função possam ser recuperados e reinseridos na cadeia produtiva. Quanto mais circular for essa cadeia, menor será a necessidade de depender exclusivamente da extração de novos recursos”, destaca o diretor técnico da ABVE.

Também é importante lembrar que nem todas as baterias têm a mesma composição. Entre as tecnologias utilizadas atualmente estão as baterias NMC, que empregam níquel, manganês e cobalto, e as LFP, de lítio-ferro-fosfato.

Essas diferenças influenciam os processos de recuperação e o valor econômico dos materiais reciclados, o que também interfere na viabilidade da operação.

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O descarte correto das baterias é um dos principais desafios para o avanço sustentável da eletrificação no Brasil
O descarte correto das baterias é um dos principais desafios para o avanço sustentável da eletrificação no Brasil

O Brasil está preparado para reciclar baterias de carros elétricos?

Essa talvez seja uma das questões mais importantes para o futuro da eletrificação no País.

Embora existam tecnologias capazes de recuperar materiais e prolongar o uso das baterias, isso não significa que toda a cadeia necessária esteja plenamente estruturada para atender a uma frota crescente.

O avanço dos veículos eletrificados exige investimentos em diagnóstico, reparação, logística, armazenamento, reaproveitamento e reciclagem.

A boa notícia é que existe um intervalo entre a venda dos automóveis e o momento em que suas baterias chegam ao fim da utilização. Como esses componentes são projetados para durar muitos anos, o crescimento das vendas não provoca imediatamente um volume equivalente de baterias destinadas à reciclagem.

Esse período representa uma oportunidade para o Brasil desenvolver infraestrutura e preparar profissionais e empresas para atender à demanda futura.

“O crescimento de carros elétricos e híbridos precisa ser acompanhado pelo desenvolvimento de todo o ecossistema da eletromobilidade. Isso inclui pensar desde a fabricação e utilização da bateria até seu diagnóstico, eventual segunda vida e reciclagem. O Brasil tem a oportunidade de desenvolver essa cadeia à medida que sua frota eletrificada cresce”, conclui Roma.


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Escrito por Nicole Santana

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