IA que prevê o imprevisível: Chery cria tecnologia para enfrentar desafios do trânsito
Na China, WM1 conheceu os avanços em IA, chips e robótica que revelam a ambição da marca de se tornar uma gigante global de tecnologia
O que inteligência artificial, robôs e chips semicondutores têm a ver com uma fabricante de automóveis? Hoje, quase tudo. Há alguns anos, acompanhar os lançamentos da indústria significava descobrir novos modelos, motores mais eficientes, tecnologias inéditas e soluções de engenharia. Tudo isso continua. Inclusive na Chery, marca sobre a qual falaremos a seguir.

Só que, hoje, acompanhar uma montadora é, em muitos aspectos, quase como acompanhar uma gigante de tecnologia, como a Apple e Huawei. Queremos saber quais são os avanços em inteligência artificial, o que há de novo em software, como os sistemas evoluem e como tudo isso vai transformar nossa experiência com os produtos e com a experiência de dirigir.
E não é apenas uma mudança na forma como olhamos para os carros. É uma transformação nas próprias empresas que os fabricam. Foi isso que ficou evidente durante o International User Summit 2026, realizado em Wuhu, na China.
Em uma apresentação acompanhada pelo WM1 no User Summit a convite da Omoda & Jaecoo Brasil, a Chery dedicou boa parte do evento a temas como inteligência artificial (IA) generativa, semicondutores, processamento de dados e robótica.
A ambição foi resumida pelo próprio presidente do grupo, Yin Tongyue, que definiu a Chery como uma empresa de inteligência artificial que veste a roupa de fabricante de automóveis.

A declaração é provocativa, mas ajuda a compreender a estratégia da companhia. A Chery quer deixar de ser vista exclusivamente como uma montadora e se consolidar como uma empresa global de tecnologia, com atuação em diferentes áreas.
E a marca já estabeleceu um horizonte para essa transformação. Com a estratégia “Yaoguang 2035”, o grupo pretende se consolidar como uma empresa global de tecnologia impulsionada por inteligência artificial. Com isso, quer expandir sua atuação para áreas como mobilidade, energia, alimentação e qualidade de vida.
A visão também inclui a “2050 Future Academy”, iniciativa de pesquisa e formação de talentos desenvolvida em parceria com a Universidade de Ciência e Tecnologia da China.
O WM1 acompanhou essa apresentação diretamente da China. E, mais do que conhecer os projetos da fabricante, tivemos uma interessante oportunidade de observar como a própria indústria automotiva tem mudado e o que essa transformação pode significar para os carros que vamos dirigir nos próximos anos.
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Inteligência artificial da Chery quer saber o imprevisível
Entre os anúncios apresentados está o All World Engine (AWE), uma arquitetura de inteligência artificial desenvolvida para integrar diferentes sistemas de percepção, interpretação e tomada de decisões na condução.
O objetivo é resolver um problema extremamente complexo para as fabricantes de carro: fazer com que sistemas inteligentes consigam compreender situações de trânsito em diferentes partes do mundo.
Pense em como é diferente dirigir em uma avenida de Xangai, em uma estrada europeia ou em uma rua movimentada de qualquer capital brasileira. Mudam as condições e a sinalização, muda o comportamento dos motoristas e até a maneira como pedestres e motociclistas dividem o espaço – e como eles se comportam no trânsito.
E os próprios veículos apresentam diferenças importantes. Câmeras, radares, chips e capacidades de processamento variam de um modelo para outro.
Durante a apresentação, o pesquisador Hu Weilong explicou que essa diversidade representa um dos principais desafios para desenvolver sistemas de condução inteligente em escala global.
“Diferentes capacidades de processamento, chips, sensores e modelos de veículos precisam atender a diferentes situações de trânsito ao redor do mundo”, disse. É justamente aí que entra a proposta do AWE: criar uma base tecnológica compartilhada, capaz de integrar diferentes informações e adaptar seu funcionamento a veículos e mercados distintos.
A arquitetura reúne tecnologias como o Chery Vision Language Navigation, que combina percepção visual e compreensão de linguagem; e o Chery Driver Agent, voltado para a tomada de decisões dos sistemas de condução.
Na prática, a ideia é desenvolver uma inteligência artificial que não só identifique obstáculos, mas que também interprete o contexto em que eles aparecem para agir com precisão.
Mais de 700 mil situações para ensinar uma máquina a dirigir
Uma das partes mais interessantes da apresentação foi a explicação de como a Chery treina esses sistemas. A fabricante apresentou o Chery World Corpus, plataforma que usa ambientes virtuais para criar e reproduzir diferentes situações de trânsito.
Segundo a empresa, já são mais de 700 mil cenários simulados, incluindo 300 mil situações classificadas como de alto risco e 20 mil cenários extremos. É uma espécie de escola virtual de direção, só que em uma escala difícil de reproduzir nas ruas.
Imagine um carro circulando à noite, sob chuva intensa. Um pedestre surge inesperadamente entre dois veículos estacionados… Ou uma situação em que vários obstáculos aparecem ao mesmo tempo, exigindo decisões em frações de segundo. Esses são exemplos dos desafios que uma IA precisa aprender a interpretar.
E, conforme a marca explicou, a vantagem das simulações é permitir que os sistemas sejam expostos repetidamente a situações complexas, inclusive aquelas que seriam perigosas ou raras de encontrar durante testes convencionais.
Isso não elimina a necessidade de validação no mundo real. E os números apresentados pela Chery, por si só, não comprovam que seus sistemas sejam mais seguros que os dos concorrentes. Mas revelam o grande desafio atual: desenvolver um carro inteligente envolve uma quantidade enorme de dados, capacidade computacional e conhecimento que vai além da “engenharia clássica”.
Como funciona o All World Engine?
Tentando simplificar, o All Word Engine é uma espécie de cérebro digital desenvolvido para os sistemas de condução inteligente. O AWE reúne três componentes principais, que trabalham de maneira integrada:
Chery World Corpus: a inteligência artificial aprende. É uma espécie de escola virtual de direção. A Chery usa ambientes simulados para treinar e avaliar seus sistemas diante de situações variadas de trânsito, incluindo cenários de alto risco e condições extremas.
Chery Vision Language Navigation: a inteligência artificial compreende. O sistema combina percepção visual, informações de sensores e recursos de compreensão de linguagem para interpretar o ambiente ao redor do veículo. A ideia é ir além do simples reconhecimento de objetos, identificando também o contexto das situações de trânsito.
Chery Driver Agent: a inteligência artificial decide. É a camada responsável por planejar respostas a partir das informações interpretadas. O objetivo é desenvolver sistemas capazes de antecipar situações de risco e orientar decisões de condução, dentro das capacidades e limitações da tecnologia.

Bilhões investidos em pesquisa de tecnologia
A Chery não busca só fornecedores de tecnologia para equipar seus veículos. A fabricante apresentou uma estratégia de desenvolvimento que inclui pesquisa em inteligência artificial, de sistemas eletrônicos e de semicondutores.
Durante o evento, o grupo destacou o desenvolvimento de chips de potência de carbeto de silício, conhecidos pela sigla SiC, usados em aplicações de alta eficiência energética.
Segundo a empresa, uma primeira geração desses componentes, voltada para sistemas elétricos de 800 Volts, já chegou à produção em série e à aplicação em veículos.
A relevância dessa estratégia é muito importante para entender o contexto do enorme desafio que se coloca diante das montadoras e como o domínio tecnológico tem se tornado uma parte cada vez mais estratégica do negócio. Afinal, desenvolver tecnologias próprias pode permitir às fabricantes maior integração entre hardware e software, mais controle sobre características dos produtos e menor dependência de determinadas soluções externas.
E a Chery tem investido pesadíssimo nisso. O grupo informou ter direcionado mais de 110 bilhões de yuans em pesquisa e desenvolvimento nos últimos cinco anos, além de ter mais de 30 mil profissionais dedicados à área em sua estrutura global.
Por que uma fabricante de carros está interessada em robôs?
Durante o evento na China, a Chery também apresentou robôs humanoides desenvolvidos pela AiMOGA, sua divisão de robótica. Entre eles está a Mornine, uma robô que poderá atuar no atendimento das concessionárias da Omoda & Jaecoo no Brasil – ela poderá receber visitantes, apresentar veículos e responder às perguntas dos consumidores.
Mas o que uma robô de atendimento tem a ver com a fabricação de automóveis? Muito mais do que parece.
Robôs e carros inteligentes compartilham desafios tecnológicos importantes: precisam reconhecer o ambiente, interpretar informações de sensores e tomar decisões a partir desses dados. Por isso, avanços em inteligência artificial, processamento e percepção podem encontrar aplicações nos dois setores.
Para a Chery, investir em robótica também significa ampliar o uso de tecnologias desenvolvidas para seus veículos. E é mais um exemplo de como o grupo pretende expandir sua atuação para além da indústria automotiva.

E o que tudo isso muda para quem compra?
Essa é a pergunta que precisa acompanhar qualquer grande anúncio tecnológico da indústria. Porque, no fim das contas, o cliente não compra algoritmos, capacidade de processamento ou milhares de cenários simulados. Compra um carro. E espera que ele seja seguro, confortável, eficiente, confiável e fácil de usar.
A inteligência artificial parece poder contribuir para tudo isso. Sistemas de assistência à condução mais sofisticados, interfaces capazes de compreender melhor os comandos dos ocupantes, gerenciamento inteligente de energia e atualizações de software são algumas das aplicações que já começam a transformar a experiência a bordo.
Na prática, isso pode significar um carro capaz de identificar um motociclista se aproximando pelo ponto cego e alertar o motorista antes de uma mudança de faixa, antecipar uma situação de risco no trânsito ou ajustar o consumo de energia de acordo com o percurso.
Dentro da cabine, a inteligência artificial também pode tornar a interação mais natural. Imagine pedir ao carro, em uma conversa, que encontre um restaurante no trajeto, ajuste a temperatura e procure uma estação de recarga próxima, sem precisar navegar por diferentes menus?
Mas essas tecnologias ainda estão em desenvolvimento. Além de comprovar sua segurança, os sistemas mais avançados de direção automatizada precisam atender às legislações no mundo inteiro. Isso inclui a homologação dos veículos e, no caso de tecnologias que permitem dirigir sem a supervisão humana, uma regulamentação específica para seu uso nas ruas.
Ou seja, ainda há um caminho entre o que vimos na China e o que o consumidor brasileiro poderá utilizar.
O futuro da indústria vai muito além da linha de montagem
A apresentação da Chery em Wuhu foi uma oportunidade de observar uma transformação que não acontece apenas dentro do grupo chinês, mas em toda a indústria automotiva.
Fabricantes tradicionais, novas marcas de veículos elétricos e empresas de tecnologia disputam conhecimentos, profissionais e soluções que deverão influenciar a próxima geração de carros.
A Chery é um exemplo concreto desse movimento. E os projetos apresentados agora na China mostram a dimensão das apostas que estão sendo feitas.
Ainda será necessário acompanhar quais dessas tecnologias chegarão aos carros de produção. Mas uma coisa já está clara: a inteligência artificial tem mudado não só a forma como os carros são desenvolvidos, mas também a nossa experiência ao volante.
E se durante décadas escolhemos um automóvel por motor, desempenho, consumo e conforto, agora o software e os sistemas inteligentes começam a ganhar espaço nessa decisão.
Para entender o futuro da indústria, já não basta olhar para os carros que as marcas apresentam. É preciso olhar também para a tecnologia que elas desenvolvem.
