Tem havido certa confusão entre os termos exatos, por desinformação ou esperteza de marketing. A correta definição mercadológica incorpora uma série de características específicas, que diferenciam os modelos premium dos outros. E isso não se deve somente ao preço ou tecnologia a bordo.
Deve-se levar em conta a imagem de exclusividade e tradição, seu pioneirismo em inovação tecnológica, desempenho superior, dirigibilidade, comportamento em curvas, estabilidade direcional, estilo cativante, acabamento requintado e distinguido conforto.
Tudo isso se reflete em maior valor agregado e, consequentemente, prestígio. Algumas marcas alemãs conseguiram consolidar trajetórias construídas ao longo do tempo - em ordem alfabética, Audi, BMW e Mercedes-Benz. Estas investiram em propostas diferenciadas para conquistar espaço no mercado internacional, procurando compensar os custos de produção mais elevados no seu país de origem.
Com a experiência vitoriosa nas competições automobilísticas nos anos 1950, a Mercedes-Benz já se distinguia da concorrência pela inovação tecnológica e robustez, além da preocupação com a segurança através de aspectos como a carroceria deformável, mas
o estilo ainda era antiquado.
Foi quando a equipe liderada pelo chefe do departamento de estilo, Karl Wilfert, com a colaboração de Friedrich Geiger, do francês Paul Bracq e do jovem italiano Bruno Sacco, desenvolveu a carroceria que ganhou o apelido heckflosse (cauda barbatana), para os modelos W110, W111 e W112.
Com discreta elegância e concepção técnica avançada para a época, os sedãs conquistaram um importante nicho nos EUA, mesmo com preço mais elevado do que os então exuberantes modelos fabricados, a partir de década de 1950, pelas marcas americanas, a exemplo de Cadillac, Lincoln e Imperial.
Pode-se afirmar que foi aí que surgiu o segmento premium, definição só ampliada bem depois. O sucesso da Mercedes chamou a atenção de outros fabricantes, que também estavam de olho no pujante mercado americano.
Um deles foi a Fiat, que no fim dos anos 1960 desenvolveu o topo de linha 130, com um discreto sedã de quatro portas e um elegante cupê duas portas, este com desenho de Pininfarina. O objetivo também era crescer nos EUA.
Contudo, a fabricante italiana não conseguiu se impor no segmento de prestígio por ser uma marca generalista e de carros de altos volumes de vendas. Na mesma época, outro fabricante alemã também mirava o nicho descoberto pela Mercedes.
A BMW, que na década de 1950 sofria as consequências da II Guerra Mundial, lançou o minicarro italiano Isetta, que tinha motor derivado do usado em suas motos. Quase chegou a ser vendida para a Mercedes, porém decidiu seguir em frente.
Já na década posterior a marca bávara ampliou sua linha de automóveis com uma concepção moderna e tecnológica, mas nada indicava que poderia se tornar um concorrente direto da Mercedes no nicho de modelos exclusivos, ou premium.
Isso começou a mudar quando a BMW convenceu Paul Bracq a trocar Stuttgart por Munique. O arquiteto francês, que virou designer de automóveis por mero acaso, teve carta branca para mudar o estilo. Isso foi alcançado com a primeira geração da Série 6, em meados da década de 1970, que cativou o universo automobilístico. A consolidação como premium se reforçou com o lançamento do sedã Série 7, em 1986.
Ainda nos anos 1970, outra marca alemã passou a focar no nicho disputado por Mercedes e BMW. Era a Audi, que foi adquirida da Daimler-Benz pela Volkswagen, na década de 1960. Ao contrário das duas concorrentes, tinha tração dianteira, tradição que vinha desde os tempos da Auto Union-DKW, entre 1920 e 1950.
Apesar de fabricar automóveis semelhantes em tecnologia aos da VW, se diferenciava por detalhes no acabamento e estilo, mas que não podiam ser definidos como premium. Foi quando o engenheiro Ferdinand Piëch, um dos netos de Ferdinand Porsche, após carreira bem sucedida na empresa da família, passou a atuar no Grupo Volkswagen.
Ele assumiu a direção da Audi e implantou uma visão ousada em tecnologia e criatividade como o motor de cinco cilindros em linha com seu ronco característico e cativante. Esse motor tinha turbocompressor e o engenhoso sistema de tração integral denominado “quattro”. Isso possibilitou à Audi dominar as competições de rali na década de 1980.
A linha Audi enfrentava os desafios das pistas lisas e escorregadias com grande desenvoltura. Ajudou a criar, nos consumidores, a percepção de marca diferenciada e alçada ao nível premium.
Piëch tentou replicar a aposta vencedora vinte anos depois, no começo deste século, quando já era presidente do Grupo Volkswagen. Lançou o Phaeton, com todos os atributos de um premium, como o potente e exclusivo motor W12, tração integral, acabamento requintado e muito espaço na cabine confortável, que nada ficava devendo aos dos Mercedes, BMW e Audi. Mas havia um pormenor: na grade dianteira estava fixado o emblema VW - e nunca decolou.
Há exemplos de marcas que conquistaram este status por seu histórico e especificações técnicas, acumulados ao longo de décadas. Em ordem alfabética e entre as mais conhecidas, Alfa Romeo, Aston Martin, Bentley, Bugatti, Ferrari, Lamborghini, Maserati, Maybach, McLaren, Pagani, Porsche, Range Rover, Rolls-Royce e Volvo.
Alguns fabricantes japoneses certamente se inspiraram no chamado "trio de ferro alemão" e criaram suas marcas premium: Acura (Honda), em 1986; Infiniti (Nissan), em 1989 e Lexus (Toyota), também em 1989. A sul-coreana Hyundai, fundada apenas em 1967, tem a Genesis desde 2015.
No caso das chinesas, há marcas de luxo muito competitivas, especificações de ponta e preços imbatíveis, mas sem o histórico necessário para enquadrar-se no conceito premium.
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