Recentemente você viu aqui no WM1 o conceito do futuro Civic. Porém, ao contrário das fases anteriores, nenhum veículo de imprensa cravou a produção dessa próxima geração do sedã aqui. A filial brasileira da marca japonesa estaria ainda em dúvida sobre a viabilidade do produto para um segmento que encolhe.

A dúvida é mais que justificável, como abordarei nesta coluna, como também o debate sobre o futuro desta categoria em um mercado cada vez mais obcecado por SUVs. Os sedãs médios serão as próximas vítimas dos utilitários esportivos?
Em coletiva online recente para fazer um balanço do ano, o presidente da Volkswagen, Pablo Di Si, vaticinou que hatches e sedãs serão as carrocerias que mais sentirão o crescimento inevitável de SUVs no Brasil.
Não custa lembrar que a predileção por SUVs já dizimou segmentos tradicionais - e legais. Os hatches médios evaporaram, e as station wagons e minivans foram preteridas pelas famílias, que elegeram os jipinhos urbanos como opção de carro versátil e espaçoso - embora essa funcionalidade seja muito relativa.
E a encruzilhada na qual a Honda se vê é justamente essa: investir no Civic em um mercado com poucas chances de expansão, ou focar em SUVs.
E o fabricante asiático se debruça em números. Em 2014, no acumulado entre janeiro e novembro - para termos um recorte o mais fiel possível -, os dados da Fenabrave (associação das concessionárias) apontavam que os sedãs médios representavam 8,3% das vendas totais de automóveis de passeio, enquanto os SUVs figuravam com 10,3%.
De 2015 para cá, o que se assistiu foi uma verdadeira invasão de SUVs compactos e médio-compactos no país.
A própria Honda começou a produzir o HR-V, teve ainda Jeep Renegade, Nissan Kicks, Hyundai Creta e as linhas Chery Tiggo, sem falar nos crossovers, como Peugeot 2008, Citroën C4 Cactus e novamente a Honda com o WR-V. Mais recentemente, a Volkswagen finalmente despertou para esta categoria com o T-Cross e o Nivus.
Os estrategistas dos fabricantes logo detectaram uma migração de outros clientes para os SUVs: o de sedãs médios. E mais uma vez os números da Fenabrave estão aí para confirmar.
Enquanto a categoria de utilitários já passa dos 33% de participação nos emplacamentos de veículos leves no acumulado deste ano, o segmento do Civic está lá com seus 5,3%.
Tudo bem que nunca foi um segmento que representasse volume considerável de vendas, mas trata-se de uma queda significativa para quem precisa direcionar investimentos.
E se o mercado de sedãs médios nunca foi volumoso, sempre foi mais rentável. As margens de lucro são bem mais folgadas nesta categoria do que no andar de baixo, quando falamos de hatches e sedãs compactos.
Também têm até mais gordura que o de SUVs compactos. E esse é um dos dilemas da Honda.
Em conversas informais com fontes de dentro e fora da montadora, e com consultores de mercado, a marca pensa fortemente em ampliar sua gama de utilitários.
Já se sabe que a nova geração do HR-V virá maior justamente para namorar o nicho de SUVs médios, do qual o CR-V se distanciou por preço, e em que atuam fortemente - aqui no Brasil - Jeep Compass e, futuramente, o VW Taos e Toyota Corolla Cross.
A não produção do Civic abriria espaço nas fábricas - e nos investimentos - para um novo SUV abaixo do HR-V. E ainda outro para substituir, a médio prazo, o WR-V.

Porém, abdicar do Civic seria entregar de bandeja vendas consideráveis para a arquirrival Toyota. Alguém duvida que a grande maioria dos clientes mais tradicionais do sedã da Honda partiria para o Corolla?
E mesmo sob o argumento de que o principal concorrente vende mais que o dobro (o Corolla passou dos 36 mil emplacamentos em 2020, enquanto o Civic registrou mais de 17 mil), são unidades preciosas.
Além disso, tem gente já de olho em um possível vácuo deixado pelo Civic. O mercado perdeu nos últimos anos representantes como Ford Focus Fastback, Citroën C4 Lounge e Peugeot 408 - e em breve deve se despedir do Chevrolet Cruze. O rescaldo pode render valiosas unidades - não se esqueça que as margens aqui são mais gordinhas.
A Nissan quebra a cabeça (e a calculadora) para importar o novo Sentra do México. Em outra ponta, tem o Grupo Caoa, que recentemente anunciou investimento de R$ 1,5 bilhão em sua fábrica de Anápolis (GO) para produção de novos modelos Chery e Hyundai.
A maioria, obviamente, será de SUVs, mas há um desejo antigo da empresa em fazer por aqui o Elantra, que teria preço mais competitivo se a produção fosse nacionalizada.
Façamos votos de que esse segmento se mantenha com o novo Civic 11 para honrar uma história de produção nacional que começou em 1997, em Sumaré (SP). E também para que o mercado não fique pasteurizado apenas com jipes urbanos.
Ou que, pelo menos, novos produtos, como Sentra e Elantra, possam pegar esses possíveis órfãos dos sedãs médios. A questão é se eles não serão adotados pelos SUVs...