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Afinal, o que é um automóvel premium de verdade?

Nem todo automóvel caro ou superequipado pode ser enquadrado na classificação de modelos premium. Entenda por que

por Fernando Calmon

Tem havido certa confusão entre os termos exatos, por desinformação ou esperteza de marketing. A correta definição mercadológica incorpora uma série de características específicas, que diferenciam os modelos premium dos outros. E isso não se deve somente ao preço ou tecnologia a bordo.
Deve-se levar em conta a imagem de exclusividade e tradição, seu pioneirismo em inovação tecnológica, desempenho superior, dirigibilidade, comportamento em curvas, estabilidade direcional, estilo cativante, acabamento requintado e distinguido conforto.
Tudo isso se reflete em maior valor agregado e, consequentemente, prestígio. Algumas marcas alemãs conseguiram consolidar trajetórias construídas ao longo do tempo - em ordem alfabética, Audi, BMW e Mercedes-Benz. Estas investiram em propostas diferenciadas para conquistar espaço no mercado internacional, procurando compensar os custos de produção mais elevados no seu país de origem.

Raízes históricas são importantes, mas não somente

Com a experiência vitoriosa nas competições automobilísticas nos anos 1950, a Mercedes-Benz já se distinguia da concorrência pela inovação tecnológica e robustez, além da preocupação com a segurança através de aspectos como a carroceria deformável, mas o estilo ainda era antiquado.
Foi quando a equipe liderada pelo chefe do departamento de estilo, Karl Wilfert, com a colaboração de Friedrich Geiger, do francês Paul Bracq e do jovem italiano Bruno Sacco, desenvolveu a carroceria que ganhou o apelido heckflosse (cauda barbatana), para os modelos W110, W111 e W112.

Com discreta elegância e concepção técnica avançada para a época, os sedãs conquistaram um importante nicho nos EUA, mesmo com preço mais elevado do que os então exuberantes modelos fabricados, a partir de década de 1950, pelas marcas americanas, a exemplo de Cadillac, Lincoln e Imperial.
Pode-se afirmar que foi aí que surgiu o segmento premium, definição só ampliada bem depois. O sucesso da Mercedes chamou a atenção de outros fabricantes, que também estavam de olho no pujante mercado americano.

Um deles foi a Fiat, que no fim dos anos 1960 desenvolveu o topo de linha 130, com um discreto sedã de quatro portas e um elegante cupê duas portas, este com desenho de Pininfarina. O objetivo também era crescer nos EUA.
Contudo, a fabricante italiana não conseguiu se impor no segmento de prestígio por ser uma marca generalista e de carros de altos volumes de vendas. Na mesma época, outro fabricante alemã também mirava o nicho descoberto pela Mercedes.
A BMW, que na década de 1950 sofria as consequências da II Guerra Mundial, lançou o minicarro italiano Isetta, que tinha motor derivado do usado em suas motos. Quase chegou a ser vendida para a Mercedes, porém decidiu seguir em frente.

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Já na década posterior a marca bávara ampliou sua linha de automóveis com uma concepção moderna e tecnológica, mas nada indicava que poderia se tornar um concorrente direto da Mercedes no nicho de modelos exclusivos, ou premium.
Isso começou a mudar quando a BMW convenceu Paul Bracq a trocar Stuttgart por Munique. O arquiteto francês, que virou designer de automóveis por mero acaso, teve carta branca para mudar o estilo. Isso foi alcançado com a primeira geração da Série 6, em meados da década de 1970, que cativou o universo automobilístico. A consolidação como premium se reforçou com o lançamento do sedã Série 7, em 1986.

Ainda nos anos 1970, outra marca alemã passou a focar no nicho disputado por Mercedes e BMW. Era a Audi, que foi adquirida da Daimler-Benz pela Volkswagen, na década de 1960. Ao contrário das duas concorrentes, tinha tração dianteira, tradição que vinha desde os tempos da Auto Union-DKW, entre 1920 e 1950.
Apesar de fabricar automóveis semelhantes em tecnologia aos da VW, se diferenciava por detalhes no acabamento e estilo, mas que não podiam ser definidos como premium. Foi quando o engenheiro Ferdinand Piëch, um dos netos de Ferdinand Porsche, após carreira bem sucedida na empresa da família, passou a atuar no Grupo Volkswagen.
Ele assumiu a direção da Audi e implantou uma visão ousada em tecnologia e criatividade como o motor de cinco cilindros em linha com seu ronco característico e cativante. Esse motor tinha turbocompressor e o engenhoso sistema de tração integral denominado “quattro”. Isso possibilitou à Audi dominar as competições de rali na década de 1980.

A linha Audi enfrentava os desafios das pistas lisas e escorregadias com grande desenvoltura. Ajudou a criar, nos consumidores, a percepção de marca diferenciada e alçada ao nível premium.
Piëch tentou replicar a aposta vencedora vinte anos depois, no começo deste século, quando já era presidente do Grupo Volkswagen. Lançou o Phaeton, com todos os atributos de um premium, como o potente e exclusivo motor W12, tração integral, acabamento requintado e muito espaço na cabine confortável, que nada ficava devendo aos dos Mercedes, BMW e Audi. Mas havia um pormenor: na grade dianteira estava fixado o emblema VW - e nunca decolou.

Outros fabricantes também estão no mercado premium

Há exemplos de marcas que conquistaram este status por seu histórico e especificações técnicas, acumulados ao longo de décadas. Em ordem alfabética e entre as mais conhecidas, Alfa Romeo, Aston Martin, Bentley, Bugatti, Ferrari, Lamborghini, Maserati, Maybach, McLaren, Pagani, Porsche, Range Rover, Rolls-Royce e Volvo.

Alguns fabricantes japoneses certamente se inspiraram no chamado "trio de ferro alemão" e criaram suas marcas premium: Acura (Honda), em 1986; Infiniti (Nissan), em 1989 e Lexus (Toyota), também em 1989. A sul-coreana Hyundai, fundada apenas em 1967, tem a Genesis desde 2015.
No caso das chinesas, há marcas de luxo muito competitivas, especificações de ponta e preços imbatíveis, mas sem o histórico necessário para enquadrar-se no conceito premium.

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