Volta ao mundo em uma Kawasaki Ninja ZX-6R 2004

Moto rodou mais de 200 mil km, afundou no mar, foi resgatada, está em reforma e voltará à estrada. Conheça a história

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Roberto Dutra
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Imagine uma Kawasaki Ninja ZX-6R 636, ano 2004, que já atravessou 94 países, rodou  cerca de 200 mil quilômetros, afundou no mar, foi resgatada e agora está em restauração para voltar à estrada. Essa moto, que foi batizada de "Débora", existe e pertence ao espanhol Toni Moles Salvador, de 30 anos. É uma história e tanto, e o caro leitor vai conhecê-la agora.

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    Nascido em Benicarló, na Espanha, Toni começou a se interessar por motos ainda durante a infância. Sempre que encontrava uma, parava para observar. Também frequentava os eventos relacionados ao motociclismo que estavam ao seu alcance e sonhava com o dia em que teria a própria moto.

    Os pneus para uso misto, com travas altas, não impediram que a moto atolasse algumas vezes
    Crédito: Toni Moles
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    A primeira foi uma Yamaha YZF-R125, que ele ainda conserva e com a qual percorreu mais de 15 países europeus. Aos 19 anos, depois de obter a habilitação necessária para pilotar motos de maior cilindrada, Toni realizou outro sonho de infância: comprou uma Kawasaki Ninja ZX-6R 636.

    "Era a moto de que eu gostava desde pequeno. Sempre me atraíram as motocicletas de estrada e, visualmente, a Ninja ZX-6R 636 me parecia preciosa. Quando tive a possibilidade de comprá-la, não pensei muito. Fui buscá-la", relembra.

    A Kawasaki Ninja ZX-6R 636 de Toni Moles descansa no deserto, ao lado de um local e seus camelos
    Crédito: Toni Moles
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    Na época, a escolha foi motivada pela paixão pelo modelo. Toni ainda não imaginava que aquela Kawasaki se transformaria em sua companheira de vida e seria levada a desertos, salares, parques nacionais, estradas africanas e regiões remotas de diferentes continentes

    Quando a Ninja se tornou Débora

    O nome Débora surgiu de "DeboraKilómetros", identidade utilizada por Toni para compartilhar suas viagens e aventuras. Como todas as suas motocicletas receberam nomes, a Ninja ZX-6R 636 também ganhou uma identidade própria. À medida que os quilômetros aumentavam, Débora deixou de ser apenas uma motocicleta.

    A moto não atolou apenas na lama, mas também nas areias do deserto
    Crédito: Toni Moles
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    "Com o passar dos anos, deixou de ser simplesmente uma Ninja ZX-6R 636. Tornou-se minha companheira de viagem. Hoje, é impossível separar a história de Débora da minha", afirma Toni.

    O projeto de percorrer o mundo também não nasceu de um planejamento fechado. Em cada viagem, Toni queria chegar um pouco mais longe, atravessar outra fronteira e conhecer um novo país. Aos poucos, percebeu que viajar de motocicleta havia se transformado em sua maneira de viver.

    Acima, um raro momento de descontração ao rodar por uma estrada asfaltada
    Crédito: Toni Moles
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    "Quanto mais viajava, mais queria conhecer e mais longe queria chegar. Assim, quase sem perceber, nasceu o projeto de percorrer o mundo com Débora".

    Embora uma moto esportiva não seja a escolha mais convencional para enfrentar longas expedições e diferentes tipos de terreno, Toni acredita que cada pessoa deve viajar com a moto que deseja ou com aquela que tem disponível.

    "Não é obrigatório viajar com uma trail simplesmente porque é o que todo mundo faz. Eu viajo com uma moto pela qual sou apaixonado. Mesmo quando o caminho é difícil, desço, olho para trás e continuo encantado por ela", explica ele.

    O Ushuaia foi um dos lugares onde o espanhol Toni Moles chegou com a Ninja ZX-6R 636 ano 2004
    Crédito: Toni Moles
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    Para Toni, essa escolha também tornou os registros da jornada ainda mais especiais, ao reunir duas grandes paixões: sua Kawasaki e as paisagens do mundo.

    Um naufrágio no caminho para o Panamá

    O maior desafio vivido pelos dois aconteceu em 15 de janeiro de 2025, durante uma travessia da Colômbia em direção ao Panamá. Toni decidiu não transportar a moto por avião porque acreditava que parte da experiência da viagem seria perdida. A alternativa encontrada foi uma embarcação, que fazia o trajeto pelas ilhas do Darién e do Caribe.

    O mar estava agitado e, segundo ele, as condições do barco também não eram as melhores. Fortes ondas acabaram levando ao naufrágio no Tapón del Darién, uma das regiões mais remotas e desafiadoras do mundo. E Débora desapareceu no mar.

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      "Foi um momento muito duro. Senti muita culpa. Pensar que, depois de tantos milhares de quilômetros e tantas aventuras, eu poderia perdê-la no fundo do mar era como perder algo muito mais valioso do que uma moto"”, conta.

      Toni sempre planejou guardar Débora em sua casa depois de completar a volta ao mundo. Cada marca e cada adesivo presente na moto representavam uma viagem, um país ou uma experiência vivida. Por isso, deixar a Colômbia sem recuperá-la nunca foi uma alternativa.

      Com o apoio de sua companheira, Louisiane, Toni procurou mergulhadores experientes em Capurganá. A operação ainda enfrentaria a falta de coordenadas precisas e a necessidade de negociações locais para que a equipe pudesse acessar a embarcação.

      O piloto e sua moto atravessam uma daquelas pontes que parecem existir apenas nos filmes
      Crédito: Toni Moles
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      "Eu tinha certeza de que, se fosse necessário, procuraríamos os melhores mergulhadores do mundo. Não iríamos embora da Colômbia sem ela", relata.

      Após dois dias submersa a aproximadamente 36 metros de profundidade, a Ninja Zx-6R 636 foi localizada e retirada do fundo do Mar do Caribe. O resgate, entretanto, representava apenas o começo de uma nova missão.

      A restauração de Débora

      A permanência em água salgada provocou danos severos. Praticamente toda a moto precisou ser revisada, reparada ou substituída. Entre os componentes originais preservados restaram o chassi, as carenagens, as rodas e a balança traseira.

      O hodômetro também foi danificado. Por esse motivo, Toni estima que a Kawasaki tenha percorrido aproximadamente 200 mil quilômetros, mas não consegue confirmar a quilometragem exata.

      Não é todo dia que alguém pilota uma Kawasaki Ninja ZX-6R 636 com este cenário ao fundo
      Crédito: Toni Moles
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      Débora já está novamente na Espanha, onde passa por um cuidadoso processo de restauração. O motor ainda não voltou a funcionar, e a expectativa de Toni é devolvê-la às estradas no próximo mês de outubro.

      "Ter Débora novamente em casa e saber que estamos trabalhando para devolvê-la à estrada faz com que eu espere muito por esse momento. Quando ela voltar a rugir, será algo muito difícil de explicar", afirma.

      Débora nunca deixou Toni na mão

      Mais do que os números alcançados ou o próprio naufrágio, Toni destaca a confiança construída ao longo dos anos. Segundo ele, a Kawasaki nunca o deixou na mão, mesmo em parques nacionais africanos, regiões com animais selvagens e áreas remotas nas quais um problema mecânico poderia se transformar em uma situação delicada.

      "Débora e eu estamos conectados para sempre. Vivemos tantas coisas juntos que nossa relação vai muito além de uma moto. Ela sempre esteve lá. Por isso, tenho certeza de que chegaremos juntos até o fim do mundo".

      Novos caminhos pela África

      Depois da restauração, o próximo objetivo de Toni é retornar à África e percorrer os países localizados ao longo da costa atlântica do continente.

      A nova etapa também terá a participação de Louisiane, que passou a acompanhar Toni nas viagens e agora faz parte da história construída ao lado de Débora. Posteriormente, existe a possibilidade de a moto ser enviada novamente para a Ásia, embora esse roteiro ainda não esteja definido.

      Toni Moles e "Débora", a Kawasaki Ninja ZX-6R 636 ano 2004 - aqui, ainda antes do naufrágio
      Crédito: Toni Moles
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      Enquanto aguarda o reencontro com as estradas, Toni deixa uma mensagem aos motociclistas, viajantes e aventureiros brasileiros: "Vão atrás dos seus sonhos. Não importa qual moto você tenha, quais recursos estejam disponíveis ou qual seja a sua situação. Quando você realmente deseja alguma coisa, sobe na moto, dá a partida e começa a viagem. A partir daí, tudo começa a fluir".

      A restauração ainda não terminou, mas a promessa permanece intacta: Toni e Débora seguirão juntos até o fim do mundo.

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