Nem sempre um carro de mais de 300 cv precisa ser um exercício de concessões. Durante um tempo, comprar um hatch esportivo significava aceitar suspensão dura, bancos desconfortáveis e um comportamento quase radical demais para quem pretendia usar o carro todos os dias. O novo BMW M 135i nos mostrou, no entanto, que ainda existe outro caminho.
Depois de rodar por alguns quilômetros com a quarta geração do hatch, ficou claro que seu principal mérito não é acelerar de zero a 100 km/h em 4,9 segundos. Isso o modelo faz - e muito bem. A surpresa aparece justamente quando a estrada deixa de ser um circuito imaginário e passa a incluir até lombadas, asfalto irregular, trânsito pesado e viagens mais longas. Acredite: a BMW encontrou um equilíbrio difícil de alcançar.

O M135 entrega o comportamento que se espera de um legítimo carro da divisão "M". Basta pressionar um pouco mais o acelerador para que o motor 2.0 turbo de 317 cv de potência responda quase sem atraso.
O câmbio automatizado de dupla embreagem troca as marchas com rapidez, enquanto a tração integral faz um trabalho quase invisível para colocar toda essa potência no chão. O resultado é um carro absurdamente eficiente, que transmite confiança mesmo quando o motorista decide explorar um pouco mais o conjunto.
E o interessante é que o emprego cada vez maior de tecnologia faz com que esse conjunto não exija isso o tempo todo.
Em velocidades "normais", o hatch muda de personalidade. A suspensão continua firme, como seria esperado em um carro esportivo, mas está longe de ser desconfortável: absorve imperfeições sem transmitir a sensação de que qualquer remendo no asfalto vai sacudir tudo lá dentro. É justamente esse comportamento que faz do M 135i um carro fácil de usar diariamente, algo que nem sempre acontece entre os rivais.
E aqui, como rivais, imagine Honda Civic TypeR, Toyota GR Corolla, os Mercedes-AMG A35 e A45 e até as safras limitadas do Volkswagen Golf GTI.
Em outras palavras, o BMW M 135i não tenta ser um carro de pista homologado para a rua, embora também não abra mão da esportividade para agradar quem busca só conforto. É um meio do caminho entre esses dois mundos de maneira bem natural.
Durante nossa rodagem, bastaram poucos minutos de convivência para ficar claro que ele foi desenvolvido para entregar desempenho quando solicitado, mas sem punir o motorista durante os outros 95% do tempo.
A posição de dirigir ajuda bastante nessa experiência. Os bancos são bem esportivos e oferecem excelentes apoios laterais, mas também sem exagerar na rigidez. Já o volante, que tem ótima empunhadura, passa exatamente o que acontece entre pneus e asfalto.
Como disse uma vez um amigo jornalista carioca, Jason Vogel (hoje no motor1.com), se o carro rolasse por cima de uma cédula do Real, nossa moeda brasileira, daria para saber o valor da nota por tamanha precisão.
Ou seja, o BMW M 135i é um daqueles carros que fazem o motorista querer procurar uma estrada cheia de curvas, mas que também não incomoda em um congestionamento.
O motor merece um capítulo à parte.
São só dois litros (2.0), mas a entrega de potência impressiona pela linearidade. Não há um comportamento explosivo típico de alguns motores turbo mais antigos: o hatch ganha velocidade de forma constante e quase sempre parece estar mais devagar do que realmente está.
A tração integral é o grande "carregador de piano" e faz o trabalho duro, embora alguns puristas ainda possam lamentar o fato de o Série 1 ter abandonado a arquitetura de tração traseira nas gerações mais recentes.
Mas, acredite: é difícil apontar alguma limitação dinâmica durante uma condução mais esportiva. Ao contrário: o sistema xDrive permite acelerar cedo em saídas de curvas e transmite uma segurança difícil de encontrar em hatches de tração dianteira com potência semelhante.
Não.
O visual provavelmente dividirá opiniões. Assim como outros lançamentos recentes da BMW, o hatch segue a linguagem de design que rompeu com o estilo mais clássico da marca. Há quem goste da dianteira mais agressiva e dos novos elementos luminosos, enquanto outros certamente preferem a geração anterior. É uma discussão que dificilmente terá consenso.
Outro ponto inevitável é o preço. Os quase R$ 460 mil cobrados o colocam em um território onde a compra deixa de ser puramente racional. Se for levar só por esse lado, há rivais igualmente rápidos e até esportivos maiores por valores próximos.
Ainda assim, são poucos que conseguem reunir tantas qualidades em um único pacote: o novo BMW M 135i é rápido quando precisa ser, confortável quando convém e competente em praticamente qualquer situação.
E o mais interessante é que não tenta impressionar só pela ficha técnica ou pelos números de aceleração. Seu maior mérito aparece justamente naquilo que não cabe em uma especificação: a facilidade com que faz o motorista esquecer que está ao volante de um hatch de 317 cv.
Talvez seja exatamente isso que torne o M 135i um legítimo BMW. Não por ser o mais extremo da categoria, mas porque consegue transformar qualquer trajeto, mesmo o mais comum, em algo um pouco mais interessante.
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