A Jeep teve muita sorte no mercado brasileiro. Se no exterior, a marca de SUVs da Stellantis é apenas mais uma generalista - ainda que aventureira -, por aqui, ela tem uma aura aspiracional que faz com que seja vista pelo público quase como uma premium.
Herança dos tempos em que jogadores de futebol desfilavam com os seus Grand Cherokee e que ajuda a explicar como o Renegade e o Compass - que não fizeram lá muito sucesso no lá fora - por aqui se tornaram objetos de desejo acessíveis ao oferecerem essa aura de exclusividade em uma faixa de preço inferior a dos Jeep importados.
E com o Avenger, o objetivo da Jeep é claro: tentar repetir o sucesso do Renegade na década passada em uma nova faixa de preço. Agora, na base da pirâmide do mercado brasileiro de SUVs.
Com 4,08 m de comprimento, 1,77 m de largura, 1,58 m de altura e 2,55 m de entre-eixos, o Jeep Avenger ocupa praticamente o mesmo espaço de um hatch compacto na vaga de estacionamento.
Algo que os seus concorrentes diretos Fiat Pulse, Volkswagen Tera e Renault Kardian também fazem. Mas enquanto esses seus concorrentes tiveram que criar linhas robustas "do nada" para projetar robustez, o Avenger usou o trunfo de ser um produto de uma marca de automóveis para jogar na lama.
Da icônica grade dianteira às lanternas traseira - passando pelas laterais que a marca jura que foram inspiradas pelo Willys MB lá da Segunda Guerra Mundial -, esse SUV compacto se parece com um típico membro da família Jeep.
Ainda que o Avenger esteja mais para aquele moleque baixinho que mal saiu das fraldas, mas já se inspira nas histórias dos irmãos mais velhos. Afinal, não tem tração 4x4. Mas os 22 cm do assoalho até o chão fazem esse Jeep ter um vão livre superior ao de carros mais aventureiros.
Se por fora, o Avenger tem a cara de um típico Jeep, por dentro as coisas são um pouco diferentes.
A Jeep até se esforçou bastante. Mas basta prestar atenção a detalhes como os botões no painel, os comandos no volante e - principalmente - o grafismo no painel digital e na tela da central multimídia para que você se sinta mais próximo dos Peugeot e Citroën que de um Jeep "puro".
E a razão para isso é simples: o Avenger é baseado na plataforma modular CMP, que é a mesma usada nos argentinos Peugeot 208 e 2008 e nos brasileiros Citroën C3, Basalt e Aircross.
Isso, particularmente, não me incomodou. Tanto a multimídia é fácil de usar quanto as informações na tela de instrumentos de 10,25 polegadas - que equipa a versão de topo de linhas Limited - são exibidas de maneira bem clara. A questão é que a interface é diferente dos seus irmãos maiores.
Já o acabamento da cabine é bem satisfatório para um SUV de entrada: plásticos rígidos em boa parte das superfícies, alguma variação de texturas e apliques em material macio ao toque no painel e no topo dos painéis de porta.
O porta-malas, por sua vez, tem 321 litros de capacidade. Menor que o dos concorrentes Tera, Kardian e Pulse. Mas não chega a ser minúsculo e atenderia bem às necessidades cotidianas de transporte minhas, da minha esposa e do meu filho de quatro anos. Não me incomodou.
O que me incomodou mesmo foi o espaço interno para os passageiros. Tenho 1,65 m de altura e me acomodo bem em boa parte dos automóveis. Mas me senti meio claustrofóbico no posto de pilotagem.
Se por uma lado, todos os comandos estavam próximos do alcance da minhas mãos, a impressão é de que outro adulto da minha altura viajaria apertado no assento traseiro. E o meu temor se confirmou.
Sentei no banco do passageiro da frente, ajustei o assento quase sem deixar espaço para a abertura do porta-luvas, e chequei o espaço para os joelhos que restou na traseira. Fiquei com a impressão de que o assento de elevação do João, meu filho, caberia no espaço disponível com certo aperto.
A Jeep se defende dizendo que o Avenger tem uma proposta menos família que a de boa parte dos seus produtos. É pensado para o jovem (endinheirado?) em busca do seu primeiro automóvel, para um casal sem filhos ou para aquele senhor e senhora de meia idade cujos filhos cresceram e já não estão mais sob as asas dos pais.
E, de fato, se você não vai usar o espaço do banco traseiro para levar adultos com certa regularidade, o Avenger pode até se encaixar na sua rotina. Pois mesmo compacto por dentro, o SUV de entrada da Jeep é bem bacana para se guiar.
Rodei com o novato em um percurso entre São Paulo (SP) e a Parque Caminhos do Mar, em São Bernardo do Campo (SP). Um percurso ida e volta de quase 90 quilômetros.
Diferentemente da pegada mais confortável dos Jeep, o Avenger é mais voltado para quem curte a experiência de dirigir. Direção bem progressiva - leve em manobras e pesada na estrada - e suspensão bem equilibrada, tendendo para firme. Me lembrou muito o (belo) acerto dinâmico do hatch compacto Peugeot 208.
E o Avenger ainda tem bom isolamento acústico, já que em velocidade de cruzeiro quase não se ouve o motor e nem o ruído dos pneus no asfalto. O motor 1.0 turbo, com sistema híbrido leve de 12 volts tem calibragem específica e despeja 116 cv de potência e 20,4 kgfm de torque. O câmbio é um automático CVT, com sete marchas simuladas.
São 14 cv a menos que no Fiat Pulse com a mesma motorização. E a diferença, na prática, é que o modo Sport de direção - que nem faz falta na calibração mais potente do propulsor Firefly 1.0 turbo - precisa ser ativado no Avenger sempre que você quiser respostas mais rápidas do acelerador.
Mas não dá para reclamar. Mesmo menos esperto, esse conjunto mecânico ainda agrada bastante pelo equilíbrio entre desempenho e suavidade no funcionamento.
E como é padrão nesses Stellantis com conjunto motriz híbrido leve de 12 volts, os números de consumo são bons, mas não tão brilhantes assim. Na cidade, registra médias de 8,8 km/l (etanol) e 12,7 km/l (gasolina), enquanto na estrada esse SUV faz 9,6 km/l (etanol) e 13,5 km/l (gasolina).
O maior benefício é o fato de o Avenger ser um híbrido de documento. O que habilita o SUV a receber descontos ou isenção do IPVA (dependendo do estado), além de deixar o motorista livre de cumprir o rodízio de veículos na capital paulista.
O Avenger estreia no mercado brasileiro com preços de tabela entre R$ 119.990 e R$ 145.990, embora a Stellantis tenha reservado um desconto de lançamento de R$ 5.000 para a configuração de entrada Altitude.
Mas mesmo no carro que eu testei - a versão de topo de linha Limited, de R$ 145.990 - o pacote ainda é bastante atraente frente aos concorrentes diretos. Bate de frente com os também topo de linha Volkswagen Tera High (R$ 146.190) e Renault Kardian Iconic (R$ 146.590), mas combinando o conjunto motriz híbrido leve - que nenhum dos adversários diretos tem - com uma lista bem completa de equipamentos, que você pode conferir aqui neste link.
Entre os destaques da lista de equipamentos do Avenger mais caro estão o pacote ADAS com assistentes de manutenção e centralização em faixa, controlador adaptativo de velocidade, frenagem autônoma e os faróis adaptativos do tipo LED Matrix.
Além de bem equipado - e bonito -, o Jeep Avenger ainda agrada como um automóvel ágil e bom de guiar. Mas para isso, é preciso abrir mão de uma cabine espaçosa para os passageiros. É uma troca que funciona para você?
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