Legítima defesa

Há um período do ano em que não compensa usar álcool. Isso todos sabem ou deveriam saber
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Fernando Calmon
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- Este mês, precisamente dia 24, completam-se três anos do carro com motor flexível no uso de combustível. O lançamento decorreu de ousadia e senso de oportunidade. A Ford tinha sido a primeira a apresentar, em maio de 2002, um Fiesta protótipo capaz de utilizar álcool ou gasolina. Mas a Volkswagen aproveitou as comemorações de seu cinqüentenário para exibir o Gol Total Flex, já como modelo de série, só 10 meses depois. De lá para cá a aceleração foi fulminante com nada menos de 1,5 milhão de unidades vendidas. Em fevereiro último, a participação no mercado de novos passou de 80% flex contra gasolina. Entre os seminovos, os flex também valem mais do que os veículos só a gasolina.

Esse crescimento impressionante trouxe problemas mais do que previsíveis. O álcool é um combustível vegetal que depende da agricultura e tem produção sazonal. Ao contrário do petróleo, produto finito, mas de fluxo constante e formação de preço sob constante conflito internacional. Os brasileiros viram a chegada do flex como meio de economizar utilizando apenas álcool. Logo perceberam que mais importante que o consumo do motor é o custo por quilômetro rodado. Por outro lado, há um período do ano em que não compensa usar álcool, quando começa a entressafra, e isso todos sabem ou deveriam saber.

A atual situação, com a rápida subida do preço do álcool, não é nova. Mesmo na era do flex já ocorreu. Em 2004 a diferença de preço entre meados e o final do ano superou os 40%. Na passagem de 2005 para 2006 houve, realmente, uma desordem: o álcool está custando até 70% mais que o seu menor preço. A principal razão é o crescimento incontrolável da demanda, reflexo do seu próprio sucesso. Há causas associadas internas e externas, como a valorização do açúcar e do álcool, este influenciado pelo estouro dos preços do petróleo e preocupações ambientais. Só no ano passado o Brasil exportou 2,5 bilhões de litros de álcool e, agora, faz falta.

Internamente houve uma pequena quebra na safra e o fim da oferta de combustível barato decorrente de fraude fiscal e técnica com o chamado álcool molhado. O governo também foi omisso por demorar a diminuir de 25% para 20% a adição de álcool à gasolina e não financiar estoques no início da safra. Quando o álcool cai para 50% ou menos do preço da gasolina, está contratada a explosão dos preços seis meses depois. Proprietários de carros a gasolina começam a misturar álcool por contra própria na hora de abastecer, além de atiçar conversões clandestinas para flex com grande desperdício do combustível verde. Álcool barato demais é ilusório. Na média do ano, porém, ainda traz ganho financeiro para cerca de dois terços da frota brasileira de automóveis.

Uma usina nova demora de dois a três anos para entrar em operação. Portanto, nenhuma poderia compensar o aumento de consumo em tão pouco tempo. A boa notícia é que há 90 delas em construção. São 350.000 novos empregos e US$ 10,5 bilhões de investimentos privados que, ainda bem, independem de governo e de importação. E graças ao flex será possível encurtar esse período de desarranjo. Se a grande maioria passar a consumir gasolina, o álcool cai de preço logo. Questão de legítima defesa.

RODA VIVA

MERCADO interno continua forte no primeiro bimestre do ano, comparado a 2005. Média diária de vendas subiu 15%. Estoques totais passaram de 30 para 35 dias, de janeiro a fevereiro: garante folga para as promoções. Projeções, se nada de diferente ocorrer na economia, indicam crescimento mínimo de 10%, bem além da média mundial.

RITMO das exportações arrefeceu sem atingir da mesma forma todos os fabricantes. A Honda, por exemplo, aumentará em 40% as exportações do Fit, em especial ao México. Apesar, neste caso, da base comparativa baixa, valorização do real frente ao dólar ainda está longe de causar estragos generalizados. Além disso, mercado interno forte ajuda nas escalas de produção.

LOGAN Steppe, apresentado como conceito agora no Salão de Genebra, estilo meio utilitário, meio station, tem tudo para ser produzido aqui. Primeiro a chegar é o sedã, em 2007. E se anda faltando inspiração à Toyota, o utilitário compacto conceitual, Urban Cruiser, também exposto em Genebra, seria ótima escolha para o mercado brasileiro. Tem porte e linhas ideais.

ATÉ o final do mês, é possível a DaimlerChrysler anunciar o destino da fábrica de Juiz de Fora, MG, onde se produzia o Classe A. Apostas continuam em torno da volta da pickup média Dakota, mas não será só ela. Talvez a DC aguarde mais um pouco para divulgar o modelo de volume, provavelmente um dos derivados do recém-lançado compacto Dodge Caliber.

ODILON Aires, deputado distrital, comunica que desde julho de 2005 existe lei, em Brasília, proibindo a venda de pneus usados importados. No Estado do Rio de Janeiro, acrescenta a coluna, há lei semelhante. Como se trata de regulamentação fcaptional, não impede a indústria de liminares. Solução definitiva só com projeto de lei em discussão na Câmara dos Deputados.
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E-mail: fernandocalmon@usa.net

Fernando Calmon é jornalista especializado desde 1967, engenheiro e consultor técnico, de comunicação e de mercado. Sua coluna Alta Roda, na WebMotors e na Gazeta Mercantil, está também em uma rede nacional de 26 jornais e 6 revistas. É, ainda, correspondente para a América do Sul do site americano The Car Connection.

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