A primeira foi uma Yamaha YZF-R125, que ele ainda conserva e com a qual percorreu mais de 15 países europeus. Aos 19 anos, depois de obter a habilitação necessária para pilotar motos de maior cilindrada, Toni realizou outro sonho de infância: comprou uma Kawasaki Ninja ZX-6R 636.
"Era a moto de que eu gostava desde pequeno. Sempre me atraíram as motocicletas de estrada e, visualmente, a Ninja ZX-6R 636 me parecia preciosa. Quando tive a possibilidade de comprá-la, não pensei muito. Fui buscá-la", relembra.
Na época, a escolha foi motivada pela paixão pelo modelo. Toni ainda não imaginava que aquela Kawasaki se transformaria em sua companheira de vida e seria levada a desertos, salares, parques nacionais, estradas africanas e regiões remotas de diferentes continentes
Quando a Ninja se tornou Débora
O nome Débora surgiu de "DeboraKilómetros", identidade utilizada por Toni para compartilhar suas viagens e aventuras. Como todas as suas motocicletas receberam nomes, a Ninja ZX-6R 636 também ganhou uma identidade própria. À medida que os quilômetros aumentavam, Débora deixou de ser apenas uma motocicleta."Com o passar dos anos, deixou de ser simplesmente uma Ninja ZX-6R 636. Tornou-se minha companheira de viagem. Hoje, é impossível separar a história de Débora da minha", afirma Toni.
O projeto de percorrer o mundo também não nasceu de um planejamento fechado. Em cada viagem, Toni queria chegar um pouco mais longe, atravessar outra fronteira e conhecer um novo país. Aos poucos, percebeu que viajar de motocicleta havia se transformado em sua maneira de viver.
"Quanto mais viajava, mais queria conhecer e mais longe queria chegar. Assim, quase sem perceber, nasceu o projeto de percorrer o mundo com Débora".
Embora uma moto esportiva não seja a escolha mais convencional para enfrentar longas expedições e diferentes tipos de terreno, Toni acredita que cada pessoa deve viajar com a moto que deseja ou com aquela que tem disponível.
"Não é obrigatório viajar com uma trail simplesmente porque é o que todo mundo faz. Eu viajo com uma moto pela qual sou apaixonado. Mesmo quando o caminho é difícil, desço, olho para trás e continuo encantado por ela", explica ele.
Para Toni, essa escolha também tornou os registros da jornada ainda mais especiais, ao reunir duas grandes paixões: sua Kawasaki e as paisagens do mundo.
Um naufrágio no caminho para o Panamá
O maior desafio vivido pelos dois aconteceu em 15 de janeiro de 2025, durante uma travessia da Colômbia em direção ao Panamá. Toni decidiu não transportar a moto por avião porque acreditava que parte da experiência da viagem seria perdida. A alternativa encontrada foi uma embarcação, que fazia o trajeto pelas ilhas do Darién e do Caribe.O mar estava agitado e, segundo ele, as condições do barco também não eram as melhores. Fortes ondas acabaram levando ao naufrágio no Tapón del Darién, uma das regiões mais remotas e desafiadoras do mundo. E Débora desapareceu no mar.
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Toni sempre planejou guardar Débora em sua casa depois de completar a volta ao mundo. Cada marca e cada adesivo presente na moto representavam uma viagem, um país ou uma experiência vivida. Por isso, deixar a Colômbia sem recuperá-la nunca foi uma alternativa.
Com o apoio de sua companheira, Louisiane, Toni procurou mergulhadores experientes em Capurganá. A operação ainda enfrentaria a falta de coordenadas precisas e a necessidade de negociações locais para que a equipe pudesse acessar a embarcação.
"Eu tinha certeza de que, se fosse necessário, procuraríamos os melhores mergulhadores do mundo. Não iríamos embora da Colômbia sem ela", relata.
Após dois dias submersa a aproximadamente 36 metros de profundidade, a Ninja Zx-6R 636 foi localizada e retirada do fundo do Mar do Caribe. O resgate, entretanto, representava apenas o começo de uma nova missão.
A restauração de Débora
A permanência em água salgada provocou danos severos. Praticamente toda a moto precisou ser revisada, reparada ou substituída. Entre os componentes originais preservados restaram o chassi, as carenagens, as rodas e a balança traseira.O hodômetro também foi danificado. Por esse motivo, Toni estima que a Kawasaki tenha percorrido aproximadamente 200 mil quilômetros, mas não consegue confirmar a quilometragem exata.
Débora já está novamente na Espanha, onde passa por um cuidadoso processo de restauração. O motor ainda não voltou a funcionar, e a expectativa de Toni é devolvê-la às estradas no próximo mês de outubro.
"Ter Débora novamente em casa e saber que estamos trabalhando para devolvê-la à estrada faz com que eu espere muito por esse momento. Quando ela voltar a rugir, será algo muito difícil de explicar", afirma.
Débora nunca deixou Toni na mão
Mais do que os números alcançados ou o próprio naufrágio, Toni destaca a confiança construída ao longo dos anos. Segundo ele, a Kawasaki nunca o deixou na mão, mesmo em parques nacionais africanos, regiões com animais selvagens e áreas remotas nas quais um problema mecânico poderia se transformar em uma situação delicada."Débora e eu estamos conectados para sempre. Vivemos tantas coisas juntos que nossa relação vai muito além de uma moto. Ela sempre esteve lá. Por isso, tenho certeza de que chegaremos juntos até o fim do mundo".
Novos caminhos pela África
Depois da restauração, o próximo objetivo de Toni é retornar à África e percorrer os países localizados ao longo da costa atlântica do continente.A nova etapa também terá a participação de Louisiane, que passou a acompanhar Toni nas viagens e agora faz parte da história construída ao lado de Débora. Posteriormente, existe a possibilidade de a moto ser enviada novamente para a Ásia, embora esse roteiro ainda não esteja definido.
Enquanto aguarda o reencontro com as estradas, Toni deixa uma mensagem aos motociclistas, viajantes e aventureiros brasileiros: "Vão atrás dos seus sonhos. Não importa qual moto você tenha, quais recursos estejam disponíveis ou qual seja a sua situação. Quando você realmente deseja alguma coisa, sobe na moto, dá a partida e começa a viagem. A partir daí, tudo começa a fluir".
A restauração ainda não terminou, mas a promessa permanece intacta: Toni e Débora seguirão juntos até o fim do mundo.
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