Se alguém foi viver em um universo paralelo e ficou sem acompanhar o mercado automotivo do Brasil ali perto 2008 - e voltou só agora, 18 anos depois (2008 foi o ano em que este repórter passou a trabalhar no setor automotivo) -, provavelmente essa pessoa terá a impressão de estar diante de uma indústria automobilística completamente diferente.
Não só pelos carros que vemos diariamente nas ruas, mas também pela forma como eles são vendidos, pelas marcas inéditas que chegam a cada mês para disputar espaço, por alguns tipos de tecnologias que viraram indispensáveis - e, principalmente, pelo perfil do consumidor. O Brasil mudou em 18 anos. Os carros, também.
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O Brasil é outro. E os carros melhoraram
Naquela época, a receita para fazer sucesso era relativamente simples: bastava oferecer um carro compacto, de motor pequeno, manutenção barata e preço competitivo.
Foi assim que Volkswagen Gol, Fiat Uno e Palio, Chevrolet Celta e tantos outros hatches dominaram as ruas por décadas. O conceito do carro popular fazia sentido porque atendia ao que a maior parte dos brasileiros queria: um automóvel acessível, econômico e capaz de transportar a família sem grandes pretensões.
Hoje, essa lógica praticamente desapareceu.
O carro mais vendido do Brasil há cinco anos é uma picape. O preferido dos clientes que compram diretamente na concessionária é um subcompacto elétrico chinês. Além disso, hoje os SUVs ocupam praticamente todos os segmentos importantes do mercado.
Tem mais: o câmbio automático virou preferência nacional. E o esquema de venda direta hoje representa uma parcela tão grande dos emplacamentos que, em muitos casos, o ranking geral já não reflete necessariamente a preferência do cliente brasileiro que entra em uma loja disposto a comprar um carro - como eu, quando jovem, que adorava ir a feirões e lojas multimarcas para namorar todas as ofertas.
Nenhuma dessas mudanças aconteceu da noite para o dia. São resultado de uma série de transformações econômicas, tecnológicas e culturais que, somadas, mudaram completamente o mercado brasileiro. Talvez o exemplo mais simbólico disso seja justamente a Fiat Strada.
Durante boa parte da história da indústria nacional, o topo do ranking pertenceu quase que exclusivamente a compactos. O Volkswagen Gol liderou o mercado brasileiro durante 27 anos seguidos. Antes, o Chevrolet Monza ficou no topo por três anos, mas esse triênio veio logo após um ano de Chevette e outros 24 de Fusca, que são outros dois carros compactos.
Depois do fim da liderança do Volkswagen Gol, Fiat Palio e Chevrolet Onix ocuparam esse espaço. Reparou que todos têm algo em comum? Carros pensados para atender ao maior número possível de consumidores.
A Fiat Strada rompeu essa lógica
Quando foi lançada, no fim da década de 1990, a Fiat Strada era vista só como ferramenta de trabalho. E era um tanque de guerra que não quebrava. Sua missão era atender a pequenos comerciantes, produtores rurais e profissionais autônomos que precisavam de caçamba, porém mantendo a dirigibilidade de um automóvel de passeio. E compacto.
O que ninguém imaginava, talvez nem a própria Fiat, era que, anos depois, a Strada se transformaria no carro mais emplacado do país.
A segunda geração, lançada em 2020, ampliou o tipo de público da picape. Ganhou cabine mais moderna, equipamentos de conforto, novos recursos de segurança e passou a "conversar" também com famílias e outros tipos de consumidores, mais urbanos e do lazer, do que exclusivamente com trabalhadores.
Hoje, boa parte das Fiat Strada vendidas sequer transporta carga. Isso é um dos reflexos do novo comprador de automóveis, que passou a enxergar vantagens em um veículo mais altinho, robusto, versátil e capaz de fazer praticamente tudo.
E o curioso está em perceber como esse movimento acompanha uma mudança maior no comportamento do cliente brasileiro. Durante muito tempo, o principal argumento de compra era... Preço. Talvez o único. O cliente muitas vezes aceitava abrir mão de conforto e tecnologia para conseguir colocar um carro zero-quilômetro na garagem.
Acredite, as fabricantes trabalhavam com essa lógica.
Até a metade da década passada era possível comprar carros sem direção assistida, com vidros traseiros com alavancas para comandos manuais, sem central multimídia e com lista de equipamentos super enxuta. Em alguns casos, nem mesmo o ar-condicionado fazia parte da configuração de entrada.
Hoje, esse tipo de produto praticamente não existe. Com isso, passou a ser comum ouvir reclamações de que "o carro popular acabou" ou que "os carros ficaram caros demais". As duas afirmações são verdadeiras, mas contam apenas parte da história.
Em outras palavras, sim, os carros realmente ficaram mais caros. Só que também ficaram incomparavelmente melhores. É só colocar o Fiat Mobi de hoje lado a lado com o que foi lançado 10 anos atrás, em 2016. A ficha técnica do atual tem páginas a mais.
Uma parcela importante dessa evolução veio da própria legislação brasileira. Ao longo dos últimos anos, itens como freios com ABS, airbags, controle eletrônico de estabilidade, assistente de partida em rampa e estruturas mais resistentes passaram a ser obrigatórios. Paralelamente, os programas de controle de emissões exigiram motores mais eficientes, eletrônica mais sofisticada e novos sistemas de gerenciamento.
Tudo isso aumentou o custo de desenvolvimento e produção dos veículos. Ao mesmo tempo, o cliente passou a exigir equipamentos que nunca foram impostos por lei. Temos fontes que trabalham em concessionárias, amigos, colegas. Mas basta entrar em uma loja e ouvir as perguntas dos interessados para perceber isso.
Há quinze anos, ali perto de 2011 ou 2012, uma central multimídia era praticamente exclusividade de modelos premium. Hoje, virou item obrigatório para a maioria dos compradores. Já itens como Android Auto, CarPlay, câmera de ré, painel digital, carregador de celular por indução, entradas USB e iluminação em LED deixaram de ser diferenciais para se tornar requisitos mínimos em diversas categorias.
Cá entre nós: hoje em dia os preços entre carros concorrentes são praticamente tabelados, quase sempre sem diferenças. Me diz, você prefere comprar aquele modelo só um pouco mais barato que não tenha esses itens ou faz questão de ter esses equipamentos pagando só um pouquinho a mais?
Foi mais uma mudança notada no consumidor nessa mudança de tempo: a tecnologia embarcada passou a influenciar tanto a decisão de compra quanto potência, consumo ou o espaço interno. A briga entre as marcas passou a ser muito mais no que o produto oferece por valor "X" do que meramente em nome ou status, como acontecia.
Câmbio automático: ex-artigo de luxo
Essa transformação fica mais evidente quando se observa outro componente que mudou completamente de status: o câmbio automático. Até uns 10 anos atrás, era tratado como um equipamento destinado apenas a carros caros. Além do preço elevado, carregava a fama de consumir mais combustível e de ter desempenho inferior ao das transmissões manuais.
O tempo tratou de derrubar quase todos esses argumentos. As caixas automáticas evoluíram rapidamente, ganharam mais marchas (e continuam ganhando mais), passaram a "conversar" melhor com os motores e ainda reduziram significativamente as perdas de eficiência.
Ao mesmo tempo, o trânsito cada vez mais congestionado das grandes cidades fez com que conforto deixasse de ser luxo e passasse a virar necessidade. Esse mesmo pensamento vale para o sistema de ar-condicionado: experimente sair em dias de chuva e muita umidade sem o equipamento para ver.
A era chinesa
Mas talvez a mudança mais impressionante do mercado brasileiro (e mundial, na verdade) nos últimos anos tenha atravessado o oceano.
Há poucos anos, falar em carro chinês ainda despertava desconfiança - e, às vezes, até piadas. Havia muitas dúvidas sobre qualidade, segurança, pós-venda e até sobre a permanência dessas marcas no Brasil.
Era um preconceito compreensível, construído a partir das primeiras experiências de marcas que chegaram ao país oferecendo produtos baratos, mas ainda distantes dos padrões das marcas tradicionais. A própria Geely, que retornou ao Brasil nos últimos meses, fez uma tentativa por aqui na metade da década passada que não deu certo.
Esse cenário mudou de forma radical. Hoje, por exemplo, a marca chinesa que citamos é dona de parte da Renault do Brasil, vai produzir seus modelos por aqui e aparece cada vez mais com produtos surpreendentes. Veja, para ter uma ideia, nossas impressões a bordo do Geely EX5.
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