Aruanda, o pioneiro ítalo-brasileiro - parte II

Um dos primeiros monovolumes com frente em cunha do mundo, o modelo histórico brasileiro desaparece por mais de duas décadas. Saiba mais sobre ele!
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Gustavo Ruffo
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- No estúdio de Fissore, a plataforma de um Fiat Cinquecento Giardinera serviu de base à carroceria do Aruanda, toda feita em chapa de aço. Era uma solução para ganhar tempo e cumprir a meta de mostrar o “urbanino” no Salão de Turim, também em 1965. O esforço permitiu montar o protótipo em dois meses. Para reforçar as laterais contra impactos, ele era dotado de uma cintura de aço em torno do carro inteiro, com pintura emborrachada, que o tornava semelhante aos carrinhos de bate-bate de parques de diversão.

A pressa cobrou seu preço em funcionalidade. O Aruanda não tinha sistema elétrico nem motor. Para dar a Rocha o gosto de guiar seu automóvel e fazer algumas das fotos que ilustram esta reportagem, Fissore adaptou nele um motor de MV Agusta, de dois cilindros em V a 45º e 380 cm³. Se fosse efetivamente utilizado, esse propulsor poderia tornar o carrinho, além de prático, muito divertido. De batente a batente, o volante girava apenas 1,5 volta, o que tornava a condução extremamente direta. As rodas foram especialmente confeccionadas para o “urbanino”. Eram quase as mesmas do Mini Cooper, de aro 10”, mas com os cubos do Fiat Cinquecento.

O desenho monovolume, com uma roda em cada canto, obedeceu ao que Rocha acredita ser o ideal para um automóvel. “Eu quis um desenho sem massas suspensas, para privilegiar o bom comportamento dinâmico”. Além de arquiteto, designer e professor, Rocha foi piloto.

O reconhecimento foi instantâneo. O Aruanda foi premiado em Turim como o carro de proposta mais inovadora e Rocha ganhou acesso ao círculo dos carrozzieri italianos, tendo conhecido pessoalmente Bertone e Pininfarina, entre outros, e participado de um jantar com Enzo Ferrari. Quando ganhou a capa da revista “Il Carrozziere Italiano”, chegou a receber um telefonema de Nuccio Bertone, que lhe disse, em tom de brincadeira, que a revista deveria passar a se chamar “Il Carrozziere Brasiliano”. Nem todos tiveram uma reação tão amistosa. Rocha chegou a ouvir que brasileiros deveriam ser jogadores de futebol, não designers de automóveis. Inveja pura, diga-se.

No Brasil

Depois de colher elogios internacionais, figurar entre os 500 carros mais fantásticos do mundo e chegar a receber propostas de produção em série que não chegaram a se concretizar, estava na hora de trazer o protótipo do Aruanda ao país onde ele foi concebido. As autoridades aduaneiras, entretanto, impediram que o carrinho viesse sob a alegação de que era proibido importar veículos. O problema foi habilmente resolvido por Caio de Alcântara Machado, organizador do Salão do Automóvel de São Paulo, entre outros eventos importantes. Sob a alegação de que o Aruanda não era um carro, já que não tinha motor, mas sim um objeto de exposição, o protótipo pôde ser trazido ao Brasil.

Aqui ele foi exposto em diversos eventos até que, em 1968, sendo transportado para a Bienal Internacional de Desenho Industrial, no Rio de Janeiro, foi amassado. A rotina de eventos o maltratou ainda mais até que, em 1978, ele foi encaminhado para restauração em uma oficina em São Paulo. Pena é que ela ficava perto demais de um trecho que alagava e que a água, naquele mesmo ano, tenha invadido o local, levando embora diversos carros, entre eles o Aruanda, em uma enxurrada.

Ari Antonio da Rocha não voltou a ter notícias do carro até cerca de dois anos atrás, quando sua esposa recebeu um telefonema de um fã do Aruanda. Como ele queria falar pessoalmente com o designer, ficou de ligar depois. Quando Rocha o atendeu, foi questionado se era o criador do minicarro urbano. Confirmou e se surpreendeu com a resposta que veio do outro lado da linha:

- O Aruanda está aqui comigo.

Ainda duvidando, Rocha pediu para visitar seu interlocutor, Oswaldo Petroni Júnior, tão logo isso fosse possível. Segundo Petroni, ele havia comprado as máquinas de uma oficina e o Aruanda estava no meio da sucata que acompanhou o pacote. Como ele era um apreciador de automóveis, identificou o protótipo e tentou localizar Rocha.

Assim que teve a oportunidade de visitar o interior paulista, o professor foi ao encontro do suposto Aruanda. Apesar de muito maltratado pelo tempo, com marcas de ferrugem, e de manter praticamente apenas sua carroceria de aço, Rocha confirmou a identidade do veículo. Era ele, o mesmo protótipo que ele havia construído em Turim. O designer tentou barganhar com Petroni.

- Quero comprá-lo de volta.

- Ele não está à venda...

Rocha já se preparava para argumentar, dizendo que o carro era de estimação, que tinha um valor pessoal, quando Petroni completou o raciocínio:

- ... o carro é seu. Você pode levá-lo para casa quando quiser.

O Aruanda ainda está em Itatinga, sob os cuidados de Petroni, aguardando o momento de sair para ser reformado. Entidades italianas e brasileiras disputam o privilégio de ficar com o protótipo, mas os detalhes estão sendo mantidos em sigilo para acelerar a reconstrução do veículo, que deverá ser mostrado aqui, na WebMotors, tão logo ela seja concluída. Por ora, ficam os nossos votos de uma pronta recuperação desse pedaço da memória automobilística nacional.

Confira a primeira parte desta saga brasileira.
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