Como é vender um chinês usado de 100 mil km?

Desvalorização e desconfiança podem transformar um bom produto em mico na hora da revenda
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Iago Garcia
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Um carro chinês sofre com uma série de preconceitos e estigmas. Basta uma conversa no bar com amigos para a discussão vir à tona. São confiáveis? E a manutenção, é cara? O acabamento é simples? E, por aí, vai. No entanto, elas seguem no nosso mercado e já se consolidaram inclusive com fábricas próprias no país.

A JAC, foi por um bom tempo a chinesa mais forte no Brasil. Hoje, com pouco mais de quatro mil unidades vendida no acumulado de 2015 segundo a Fenabrave, ela é a segunda, atrás da Chery. O pico de sucesso veio em 2011 quando a marca chegou a emplacar 24 mil unidades no ano, graças ao IPI reduzido para modelos importados.

Muito desses mitos foram quebrados e a JAC disponibilizou para teste da imprensa especializada um J3 com 100 mil quilometros. Esse modelo nos fez questionar outro ponto que algumas vezes passou pelo possível comprador. Como o mercado de revenda recebe um chinês e ainda mais com 100 mil km rodados?

O CARRO

O modelo testado é um J3 ano/modelo 2013. Na época, ele custava R$ 34.990 em versão única. Equipado com motor quatro cilindros de 1.4 L que roda apenas com gasolina, ele tem 108 cv disponíveis às 6.000 rpm e 14,1 kgf.m de torque às 4.500 rpm.

Como equipamento de série ele oferece o básico: freios ABS, airbag duplo, rádio MP3, ar condicionado, direção hidráulica, rodas de liga leve de 15 polegadas, faróis de neblina e retrovisores elétricos e sensor de estacionamento traseiro.

As principais falhas ficam pelo acabamento e qualidade de construção, já que rodando o J3 não faz feio. Não é nada acima da média, mas também não vai fazer você querer atear fogo nele depois da primeira semana de uso. Com 100 mil km, alguns problemas aparecem. Mesmo com toda a atenção da marca para manter o carro no melhor estado possível para a avaliação dos jornalistas, a direção trepida muito com o carro parado e, rodando, fica puxando para a direita.

A carroceria não ostentava nenhuma fenda entre as portas, para-choques e para-lamas. Tudo alinhado e em bom estado. A exceção fica por conta dos faróis dianteiros, amarelados e descascando a película protetora, característica observada em outros J3 mais rodados.

O motor manteve o bom fôlego e o consumo foi bem regular, com 10 km/l em ciclo misto. Um problema porém apareceu nos últimos dias com o carro: ironicamente, ao chegarmos na primeira concessionária para ver quanto o “nosso” carro realmente valia, a luz da injeção acendeu e o motor não deu mais partida. Depois de algum tempo, ele voltou a ligar, mas continuou com a luz do painel acesa. Mais tarde, a luz apagou e o carro não deu a partida de novo. E assim prosseguimos até o final do empréstimo.

A REVENDA

Mas, como já falamos, o que importa aqui é a revenda. Consultamos três concessionárias JAC, duas multimarcas e anunciamos o exemplar na WebMotors para ver como ele seria recebido pelo mercado.

A Tabela FIPE avalia o modelo em R$ 25.765. Calculando pelo preço do J3 0km em 2013, R$ 34.990, a desvalorização é de 26,4%, número bem alto para dois anos de uso. Saímos na esperança de conseguir algo próximo disso, mas não foi bem isso que vimos.

Nas concessionárias da JAC, curiosamente, o carro foi avaliado pelo mesmo preço: R$ 23 mil. Porém com um detalhe. O valor era apenas na troca por um J3 S 1.5 0 km, tabelado em R$ 46.990 na época da cotação (agosto). Na primeira concessionária, onde o carro começou a dar problemas na ignição, uma avaliação mais minuciosa foi feita pelo vendedor. “O carro está novinho, até os pneus são novos, muito bom”, destacou ignorando o fato de que, nesse momento, o carro não dava partida. Nas outras duas, uma simples olhada de longe dos vendedores bastou para dar o preço. Nem quando alertados sobre a quilometragem do carro eles cogitaram baixar o valor.

Nas multimarcas, porém, a história mudou. O preço mais alto conseguido foi de R$ 19 mil, com o mais baixo sendo R$ 18 mil. A justificativa foi principalmente a quilometragem e o preço praticado em modelos mais recentes. Em uma das lojas, por exemplo, havia um J3 1.4 2014 com pouco mais de 40 mil km rodados à venda por R$ 21 mil. Além da quilometragem menor, o modelo 2014 já recebeu o facelift que mudou toda a dianteira do carro. Ou seja, pagando R$ 18 mil no nosso carro, ele seria revendido por cerca de R$ 20 mil, com desenho antigo e quilometragem muito maior. Sendo mais claro, não é bom negócio nem aqui nem na China.

ANUNCIADO NA WEBMOTORS

Depois de sair as ruas para negociar, anunciamos o nosso carro na WebMotors, o maior site de classificados automotivo do Brasil. Começamos com R$ 25 mil, dentro do que a tabela FIPE e o preço médio do modelo no nosso site avaliava o modelo.  Apesar da boa exposição, com 60 visualizações no anúncio em uma semana, apenas quatro visualizaram o telefone e nenhum deles resultou em proposta.

Na semana seguinte, baixamos para R$ 23 mil, impactados pelo fraco desempenho do carro na primeira semana. Os número continuaram fracos, com apenas 34 cliques no anúncio e mais duas no telefone. No, entanto, nenhuma proposta havia chego ainda. Próxima semana, R$ 22 mil e após mais 63 visualizações chegaram as primeiras propostas. Quatro, para ser mais exato. Duas de consultores da JAC, chamando para uma conversa na concessionária, uma troca por um Citroën C3 2009 e outra de uma multimarcas.

Na semana seguinte, R$ 20 mil na etiqueta e com 283 visualizações o nosso carro finalmente entra no radar do mercado. Mais cinco propostas chegam. Uma delas oferece um Kia Sportage 2009 na troca. Outra oferece R$ 16 mil à vista, de um comprador pessoa física.

Na última, baixamos para R$ 19 mil, preço que seria o pago pelas multimarcas consultadas. Mais quatro propostas chegam, fechando 13 em cinco semanas, e com mais 265 visualizações fica claro que esta é a faixa de preço de um carro como o nosso J3, muito abaixo do esperado aliás. Umas das propostas, de multimarcas, oferece R$ 18 mil pela compra, confirmando o que vimos na nossa ronda. Mais algumas trocas são oferecidas: teve de Toyota Rav4 2007 a Chevrolet Celta 2012.

CONCLUSÃO

A desvalorização calculada a partir da Tabela FIPE foi de R$ 26,4%. Na prática, ela chega a 48,6% com o carro avaliado em R$ 18 mil reais, quase metade do que seria pago dois anos atrás. A JAC parece saber disso e paga bem nos seus modelos usados. A fraqueza virou arma para fidelizar o cliente na marca. E isso não é necessariamente um problema. Ou seja, se não quer perder – muito – dinheiro com um JAC, continue com um JAC.

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