Corcel cor de mel

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Renato Bellote
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- “A questão social-industrial não permite que eu seja fiel, na vitrine um corcel cor de mel”, dizia a música de Marcos Valle, de 1969, refletindo um período conturbado da história brasileira, que embalava – mais do que nunca – na máxima do regime ditatorial, com o famoso “ame-o ou deixe-o”.

No ano anterior, a Ford apresentou aos consumidores no VI Salão do Automóvel um novo modelo, bem mais compacto e acessível do que o Galaxie. Com quatro portas e estilo familiar, o Corcel – com nome e inspiração no seu irmão de marca americano Mustang – chegava causando uma boa impressão.

Na verdade, o novo Ford foi uma “herança” da Willys-Overland brasileira, que produzia veículos Renault sob licença e se preparava para lançar um médio de origem européia – uma versão brasileira do novo Renault 12, cujo desenvolvimento estava praticamente finalizado. Como naquele ano a Ford assumiu o controle da Willys, resultou que bastou trocar o emblema do losango pelo do oval azul para, como que do nada, surgir um novo Ford no Brasil.

O espaço interno agradou às famílias brasileiras e o carro emplacou, vendendo mais de 45.000 unidades no primeiro ano de produção. Além desse atrativo, trazia algumas novidades como, por exemplo, a árvore de direção bipartida, importante item de segurança passiva.

Esse mesmo sistema de direção, porém, se tornou o calcanhar de Aquiles deste primeiro modelo, principalmente pelo fato de requerer um ajuste técnico muito preciso e gerar um desgaste acentuado e prematuro dos pneus. Em vista disso, a fábrica convocou mais de 60.000 proprietários – nos anos subseqüentes – para resolver o problema, realizando pequenos ajustes na altura da caixa de direção e fixando-a num ponto médio, simplificando a regulagem da convergência dianteira.

O desempenho nunca foi seu ponto forte. Com um motor de quatro cilindros e 1,3 litro, desenvolvia 68 cavalos de potência bruta, que se mostraram fracos para o peso do carro, ainda mais quando carregado.

Mas boas novidades estavam a caminho. No ano seguinte 1969, a Ford lançou a versão cupê, que conseguiu arrebatar os consumidores indecisos e marcar novos recordes de venda para o carro. A receita deu tão certo que, nos anos posteriores – como o leitor verá até o final do texto – a empresa deixou o modelo duas portas como única opção.

Em 1970 a seleção conquistou o tricampeonato mundial de futebol, gerando uma alegria incontida na população e trazendo, definitivamente, a taça Jules Rimet para o Brasil. O governo do general Médici exaltou a conquista e o país viveu a fase do “milagre econômico”. Nesse mesmo ano, a Belina chegou para conquistar seu espaço na garagem da classe média brasileira, com espaço de sobra e bons números de consumo.

Um “carro de briga”. Com esse slogan original, a versão GT foi lançada em 1971, buscando a juventude ávida por esportividade. Faixas laterais, faróis de longo alcance e painel completo chamavam a atenção nas ruas brasileiras, além da chamativa tomada de ar no capô em preto-fosco, no melhor estilo grã-turismo. O motor do GT passava para 1,4 litro e graças ao carburador de corpo duplo e uma série de modificações, a potência subia para 85 cv brutos.

Durante toda a década de 70, a família Corcel – com suas três opções de carroceria – evoluiu em conforto e acabamento, além de adotar motor de 1,4 litro em toda a linha e a versão mais luxuosa LDO. Pequenas mudanças também foram efetuadas na dianteira e traseira, com adoção de novos faróis.

A maior novidade, porém, chegaria no modelo 1978. Era o Corcel II, totalmente novo e trazendo melhorias consideráveis na segurança e estabilidade. A versão esportiva trazia carroceria em duas cores, e o motor mais potente – de 1,6 litro – chegaria um ano depois. A maior lembrança que ficou na mente dos proprietários talvez seja o peso das enormes portas.

Com a chegada dos anos 80, a Ford lançou a Belina com quinta marcha e a opção de versão a álcool para toda a linha. A época marca também a chegada da Pampa, uma picape que agradou seus consumidores e só foi substituída na década seguinte.

O último Corcel foi fabricado em 1986, marcando o fim de uma era bem-sucedida da empresa no mercado nacional, com mais de um milhão de unidades produzidas. Nesse período, a Ford se lançou no projeto da Autolatina, associando-se à Volkswagen, escrevendo um novo capítulo na história da indústria automobilística brasileira.

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Renato Bellote Gomes, 26 anos, é bacharel em Direito e assina quatro colunas sobre antigomobilismo na internet. O autor tem textos publicados em nove países de língua espanhola e é correspondente do site português Lusomotores

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