Entenda como funcionam os grupos automotivos

Veja como nasceram e se formaram os grandes conglomerados fabricantes de veículos de hoje em dia

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Fernando Miragaya
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Imagine a situação. Um típico cidadão classe média do meio-oeste dos Estados Unidos desperta de um coma de 40 anos. Apaixonado por automóveis, ele vai tentar se interar das novidades do mundo automotivo. Porém, aos poucos, acha que ainda está em um pesadelo.

Chrysler nas mãos do Grupo Fiat? As francesas compraram a Opel? Renault e Nissan fazem carros iguais? Jaguar e Land Rover controladas por uma montadora da Índia? A Volvo sob tutela de uma empresa chinesa? E onde está Pontiac??? Pois é, será parecido com aquele personagem do Jô Soares que falava “Me tira o tubo!!!”, nos anos 1980.

Mas, calma. Vamos explicar ao nosso caro convalescente como as coisas funcionam no mundo das quatro rodas hoje. Os grupos automotivos que se formaram e alianças feitas, além da reestruturação pela qual passaram alguns tradicionais fabricantes para sobreviver - e as parcerias fundamentais para enxugar custos.

FCA - Fiat Chrysler Automóveis

Depois de passar pelas mãos da Daimler (dona da Mercedes-Benz) e atravessar a duras penas a crise de 2008, a Chrysler iniciou uma parceria com o Grupo Fiat no início dos anos 2010. O primeiro produto foi o Freemont, a versão da marca italiana do SUV Dodge Journey. Era só o prenúncio da FCA, um dos maiores conglomerados automotivos do mundo.

Na prática, a Fiat comprou o Grupo Chrysler depois de se reerguer na Europa, muito graças ao fim de um acordo com a General Motors. Assim, se formou uma empresa com 10 marcas: Fiat, Alfa Romeo, Maserati, Lancia, Abarth, Chrysler, Jeep, Ram, SRT e Dodge… ufa! Mas que vai aumentar…

Em 2019, FCA e PSA Peugeot Cirtroën, que ainda é dona das marcas DS, Opel e Vauxhall, assinaram um contrato de fusão que vai resultar em uma empresa com 15 marcas (só de automóveis) que vendem, juntas, 8,7 milhões de veículos por ano.

Renault-Nissan-Mitsubishi

Em 1999, Renault e Nissan juntaram as escovas de dentes em uma aliança que previa compartilhamento de plataformas e economia de escala. Em 2017, a família aumentou, depois que a japonesa assumiu o controle acionário da Mitsubishi.

Porém, os planos de uma possível fusão foram descartados recentemente e a ideia do grupo é manter o formato de aliança, com uso conjunto de plataformas, motores e tecnologias. Só que com cada marca no seu canto e com foco onde é mais forte: Nissan com SUVs, Renault com carros de passeio e Mit com veículos 4x4.

No Brasil, as marcas já chegaram a dividir a fábrica de São José dos Pinhais (originalmente Renault), que fazia a velha Frontier e a linha Livina. Hoje, atuam em separado por aqui, enquanto a Mitsubishi é representada pelo Grupo Souza Ramos, empresa independente e com licença para fabricar modelos da marca em Catalão (GO), como ASX, L200 e Eclipse Cross.

Porém, a fábrica da Nissan em Córdoba, na Argentina, produz a atual geração da Frontier, fruto de uma parceria com a Renault e a Daimler, de onde sairiam também a picape Alaskan (da francesa, ainda em estudos) e Mercedes Classe X, cuja produção já foi encerrada na Europa. A próxima geração da L200 também pode sair dessa plataforma conjunta.

Bom lembrar que a Nissan também é dona da Datsun e da Infiniti, esta uma divisão de luxo. E que a Renault é dona da romena Dacia, origem da maioria dos projetos vendidos no Brasil (Logan, Duster, Sandero...) e ainda detém 25% da russa AvtoVaz, fabricante da Lada. Ah, a francesa também namorou a Fiat para um acordo, antes do anúncio da fusão entre FCA e PSA.

PSA Peugeot Citroën

Um dos mais tradicionais e antigos grupos automotivos, a holding francesa formada em 1976 tem dado passos mais ousados ultimamente. Em 2017, adquiriu a Opel, então divisão europeia da General Motors, por especulados 2,2 bilhões de euros. De quebra, levou a Vauxhall, a “Opel vendida no Reino Unido”.

Com o negócio, a PSA se tornou o segundo maior grupo automotivo em vendas na Europa, com as cinco marcas - também é dona da DS, que era uma divisão de luxo da Citroën e ganhou vida própria. Agora, com a intenção de fusão com a FCA, a PSA poderá fazer parte do quarto maior grupo automotivo do mundo em vendas.

Detalhe é que tradicionalmente a PSA é expert em fazer parcerias. Nos anos 2000, o subcompacto Toyota Yago originava Peugeot 107/1007 e Citroën C1. Já os primeiros SUVs das francesas, de 2004, Peugeot 4007 e Citroën C-Crosser, usavam a base do Mitsubishi Outlander. No Brasil, a fábrica da Iveco em Sete Lagoas (MG) fazia as vans Daily, Ducato (Fiat), Jumper (Citroën) e Boxer (Peugeot).

Entenda outros grupos automotivos

  • General Motors - Com a crise de 2008, a GM chegou a ser estatizada nos EUA. Para não quebrar, teve 60% de duas ações nas mãos do governo norte-americano. Até 2010, se desfez de suas marcas tradicionais, porém deficitárias, como Pontiac, Saturn e Hummer, além da sueca Saab. Sete anos depois passou a Opel à PSA. Hoje é dona de Buick, Cadillac, Chevrolet e GMC.
  • Ford - Especialistas dizem que a tradicional empresa americana deu uma sorte tremenda ao se capitalizar antes da crise de 2008. Afinal, a Ford vendeu vários fabricantes em menos de um ano e antes da hecatombe financeira: Aston Martin, Jaguar e Land Rover. Em 2010, ainda encerrou a marca Mercury e negociou a Volvo. Hoje, só tem a mais a Lincoln.
  • Jaguar Land Rover - Quem diria que as duas marcas britânicas iam responder a um grupo do país que foi colônia de Sua Majestade. Pois é, a Tata Motors comprou as duas de uma vez só em março de 2008.
  • Volvo Cars - Em 2010, a Geely - aquela mesma, do GC2, que parece um panda - comprou a marca sueca sinônimo de tecnologia e segurança. Em uma década, a empresa, sob gestão da chinesa, dobrou de tamanho, com mais de 705 mil veículos vendidos em todo o planeta.
  • Volkswagen - Outro grupo gigante, reúne marcas como Audi, Bentley, Bugatti, Lamborghini, Porsche, Seat, Skoda, sem falar na própria VW, no fabricante de motos Ducati e em montadoras de caminhões.
  • Hyundai-Kia - Na prática, a Hyundai é dona da Kia globalmente e as duas marcas compartilham plataformas e conjuntos mecânicos. No Brasil, a relação é inusitada. A empresa mãe produz aqui a linha de compactos HB20, HB20S e Creta, enquanto o Grupo Caoa, representante oficial da marca desde os anos 1990, tem licença para fabricar ix35 e New Tucson em Goiás e vender os importados. Já a Kia é controlada pelo Grupo Gandini.
  • Daimler - A Mercedes-Benz é a marca mais famosa, seja na divisão de carros, caminhões ou chassis de ônibus. Mas o grupo também é dono da Smart, que fabrica subcompactos na Europa, além da Mitsubishi Fuso, ex-divisão de caminhões e ônibus da japonesa. Já a subsidiária de super-luxo Maybach foi descontinuada em 2012.
  • BMW - O grupo bávaro é dono da marca que leva seu nome, além da britânica Mini. Também controla a empresa de alto luxo Rolls-Royce - a compra envolveu uma novela com a Volks.
  • Toyota - A japonesa é proprietária da Lexus, sua divisão de luxo, da Daihatsu, que já foi vendida no Brasil, além de marcas como Hino e Ranz. A empresa encerrou a Scion (que vendia K-Cars japoneses de olho no público jovem dos EUA, mas foi um fracasso) em 2016.
  • Honda - Com divisões de motos, náutica e agrícola, a Honda também tem a Acura, a marca de carros premium, dentro do grupo.
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