Carona Solidária precisa de empurrão

Presente em muitos países, ação engatinha no Brasil
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Adriana Bernardino
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Mulheres bonitas trafegam pela vida de Laird, um dentista galã envolvido num complicado divórcio. Entre os companheiros de carona, ele se gaba de estar livre para viver seus desejos, mas lá no fundo ainda se ressente com o fim do casamento.

Essa é uma das tramas do sitcom americano “Carpoolers”, em que quatro homens dividem seus conflitos e alegrias no trajeto de casa ao trabalho. A ficção é inspirada no que já é realidade nos Estados Unidos, Canadá e vários países da União Européia: a carona solidária. Nesses países, faixas exclusivas são destinadas a veículos que tenham um passageiro ou mais.

No Brasil, o incentivo dos órgãos públicos ainda se limita a disponibilizar sites que possibilitem o encontro de quem quer dar ou receber carona. Mas se depender da disposição da maioria dos brasileiros para abrir as portas do carro a estranhos, a iniciativa vai demorar um pouco para engrenar.

Atualmente, 64% dos automóveis da cidade de São Paulo andam apenas com seus motoristas, de acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego.

Redução das emissões de CO2, menos trânsito, menos doenças pulmonares, mais economia e possibilidade de fazer amigos. Se há tantas boas razões para dar carona, por que a prática ainda engatinha no Brasil?

Obstáculos culturais

Para a psicóloga Neuza Corassa, pesquisadora do comportamento humano no trânsito e autora do livro “Seu Carro Sua Casa Sobre Rodas”, “as pessoas saem de casa e entram no carro como se não tivessem despertado para o espaço coletivo”, avalia Corassa.

O fato de estar em sua terceira ou quarta geração de motoristas, segundo a psicóloga, dificulta o engajamento do brasileiro nessas ações. “A discussão sobre trânsito no Brasil é muito recente, coisa de cinco anos. Quando comecei minha pesquisa, 1996, praticamente não se falava sobre o tema, que entrou em pauta há apenas cinco anos”.

Projetar no carro outras necessidades além da locomoção – como desejo de status e de segurança, virilidade e poder – também representa empecilho à carona solidária. “Ao levar a casa para dentro do carro, o brasileiro pode não se sentir à vontade para compartilhar sua privacidade”, diz Corassa.

“Na pesquisa que deu origem ao livro, constatamos que vários ambientes de uma casa padrão são levados para o carro, como o escritório: há papéis, caneta e anotações espalhados pelos compartimentos; o quarto: motorista que usam o carro para tirar um cochilo; a cozinha: há lanche, barra de cereais e outros alimentos para consumir durante o percurso; o banheiro: mulheres que se maquiam e até trocam fraldas das crianças. Isso para citar apenas alguns dos ambientes”.

Eles estão fazendo

A imagem do sujeito pedindo carona na beira da estrada foi substituída por uma programação muito bem organizada na internet. Vários sites facilitam o encontro de quem tem carro com quem precisa de carona, de quem quer, nesse revezamento, rachar o combustível e melhorar a qualidade de vida no planeta.

Exemplo de iniciativa bem-sucedida é o Caronas Unicamp www.caronasunicamp.com, organizado por estudantes, e que conta com quase três mil usuários.

Além desse, há outros sites interessantes para quem quer levar uma vida mais sustentável: www.ecarona.com.br, www.caroneiros.com, www.atitudeverde.com.br, além de iniciativas públicas de alguns estados, como a do Governo do Estado de São Paulo, “Mutirão da Corona” www.ambiente.sp.gov.br/mutiraodacarona, que incentiva a racionalização do uso de veículos.

Em todos eles, é preencher a origem e o destino para localizar internautas que percorram itinerários semelhantes.

Abaixo a resistência

Para reduzir a resistência em dar ou receber caronas, a psicóloga Neuza Corassa aconselha: “antes de pegar o volante do carro, é preciso repensar o volante da vida. O que você quer para sua vida? Onde espera chegar com tanta correria? Será que não é hora de fazer escolhas, de dizer ‘não’ para alguns compromissos?”

Para a psicóloga, fazer uma dessas perguntas uma vez ao dia pode ajudar a fazer uma escolha consciente do que vale ou não a pena viver.

Para quem cedo ou tarde vai se engajar na Carona Solidária, vale checar os dados do companheiro de percurso, e garantir uma viagem segura.

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