Conversão gasolina - álcool

Prática já é bastante popularizada, mas será que funciona?
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Cesvi Brasil
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- Os veículos flexíveis em combustível surgiram no mercado brasileiro em 2003, com o VW Gol Total Flex. Mas antes disso muita gente apelava para a prática do “rabo de galo” como tentativa de gastar menos para rodar. Recurso simples e arriscado: abastecer veículo movido a gasolina com álcool, em variadas proporções – dependendo de quanto se queria “economizar”. Essa opção pode resultar em mau e desagradável funcionamento do motor e eventualmente trazer danos ao veículo e causar um prejuízo considerável.

Mas após a chegada dos carros “flex” e da crescente demanda por eles no mercado – impulsionada pela igualmente crescente oferta de modelos – ressurgiu no mercado, com toda força, uma nova e tentadora opção: a conversão mediante alteração do controle eletrônico de injeção e ignição.

Por preços que variam de R$ 300,00 a R$ 1.000,00, é possível transformar veículos a gasolina em “flex”, aptos a ser abastecidos também com álcool puro ou qualquer mistura de ambos. Basta apenas substituir ou reprogramar o chip que controla os parâmetros de injeção de combustível e a ignição do motor. Mas vale a pena?

A Associação Brasileira de Engenharia Automotiva AEA divulgou nota condenando a transformação de veículos “monocombustível” em flexíveis. Segundo a entidade, a conversão por meio de intervenção na injeção eletrônica, além de ser ilegal lesa os consumidores e prejudica o meio ambiente.

Aí está um ponto de discórdia, pois a prática em si não é ilegal. No site do Departamento de Trânsito de São Paulo www.detran.sp.gov.br há uma seção para alterações de características do veículo, inclusive uma área dedicada exclusivamente àquelas feitas no combustível do carro. No entanto, embora não seja ilegal ou não seja proibida por lei, qualquer alteração no veículo que envolver a substituição de componentes de segurança ou modificação da estrutura do veículo além das especificações do fabricante requerem obtenção de certificado de segurança veicular CSV, em que constarão as modificações e novas características do veículo – e essa regra serve para os carros convertidos.

A inspeção deve ser feita por órgão credenciado pelo Inmetro, como explica o engenheiro da Divisão de Credenciamento de Organismos da entidade, Edmundo Barbastefano. “Quando uma alteração é feita no veículo, como no caso a conversão de combustível, é preciso passar por uma inspeção veicular que verifica todos os componentes quanto às questões de segurança e emissões”. Juciara Soares, Diretora de Marketing da AGE Intelligent Technology, empresa que desenvolveu um kit de conversão Flextek, lembra que “a certificação é para o veículo e não para o aparelho, que não possui normas e especificações de entidade no país”.

Se o veículo for aprovado o proprietário poder requerer junto ao Detran de sua cidade o Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo Documento CRLV para legalizar o veículo.

Porém, infelizmente essa fiscalização inexiste. Deveria ser implantada com a inspeção veicular, que ainda está por entrar em vigor. Assim, as empresas se utilizam dessa “brecha” para operar sem restrições e os carros convertidos podem circular livremente, independente de como foi feita a conversão.

“Buscamos oferecer o máximo de informações sobre nosso produto, tanto as vantagens quanto desvantagens”, afirma Domenico Luppi, da Millenium Eletrônica, que produz o aparelho AlcoFlex. “Até hoje, após um ano e meio com o produto não tivemos queixa ou reclamação, o que nos leva a crer que ele foi inspecionado e legalizado – ou simplesmente o proprietário não realizou a inspeção veicular e está com a documentação irregular, uma vez que não há fiscalização quanto a isso”, relata Luppi.O diretor da AEA Geraldo Rangel, no entanto, acha difícil uma conversão que atenda às normas de emissões vigentes e que não acarrete perda de desempenho e aumento de consumo. Outro aspecto muito desfavorável é a taxa de compressão do motor a gasolina – exceção feita ao Celta 1.0 VHC, com taxa de 12,6;1 –, que não aproveitará plenamente as características antidetonantes do álcool, resultando num motor que consome muito e possivelmente anulará a vantagem do combustível alternativo de menor preço por litro.

Rangel explica que o motor e sua injeção eletrônica são desenvolvidos em conjunto. “Um ‘mapa eletrônico’ indica como a injeção deve atuar em função das variáveis que o motor enfrenta durante seu uso. Leva em consideração quais combustíveis e misturas gerenciar para garantir um desempenho adequado, eficiência no consumo e o nível de emissões”, esclarece o engenheiro.

Com a substituição do chip, o novo ‘mapa eletrônico’ do carro é incompatível com o restante da mecânica. “Os veículos flex saem de fábrica com sistemas desenvolvidos segundo critérios rigorosos, em que a parte mecânica trabalha em conjunto com toda a eletrônica do carro”, explica Geraldo Rangel. Nos convertidos o desempenho do veículo pode sofrer significativas alterações e o motor passar a consumir mais, carbonizar intensamente, até mesmo “bater pino” – denominação popular para o fenômeno da pré-combustão ou detonação.

Essa opinião é compartilhada pelo engenheiro mecânico e professor de Engenharia Automotiva da FEI Celso Argachoy, que desaconselha com veemência a conversão sem critérios técnicos. “Após a conversão, não são redefinidos padrões técnicos. A troca do chip simplesmente altera a quantidade de combustível com que o motor trabalha e o avanço da ignição do motor. Sem contar que não são realizados testes nem medições adequadas, é praticamente um processo intuitivo”, alerta Argachoy.

Nos veículos flexíveis em combustível a sonda lamba localizada no escapamento verifica a quantidade de oxigênio presente nos gases, assim adaptando os parâmetros de injeção e ignição do motor – a sonda está presente e cumpre essa função mesmo nos motores “monocombustíveis”. A conversão requer extenso trabalho de calibração dos dados lidos pela sonda para “entender” álcool e gasolina e não se pode ter certeza de que seja bem feita.

“É preciso que fique claro que nenhum aparelho faz milagres, eles são produzidos para atender à maioria dos veículos nacionais. Não se recomenda a instalação quando a luz do painel acende, pois é uma indicação de falhas na central eletrônica do veículo, o que acontece em alguns veículos importados”, afirma Domenico Luppi.

Há também o problema da bomba de combustível, que precisa ser trocada por uma para álcool, de maneira a resistir ao ataque químico do combustível vegetal. Se não for substituída durará no máximo três meses e deixará de funcionar subitamente e sem aviso.

O carro convertido também pode deixar o motorista na mão numa manhã fria temperatura igual ou inferior a 15° C , caso ele esteja utilizando somente álcool ou uma grande quantidade deste – carros a gasolina não precisam de sistema adicional para partida a frio, ao contrário dos flexíveis e a álcool, um item imprescindível.A diretora de Marketing da AGE Intelligent Technology, fabricante do kit Flextek, Juciara Soares, pactua com a preocupação da AEA quando se fala em conversões irregulares. “Hoje em dia encontramos chips de conversão por até R$ 150,00. Fica claro que esse tipo produto não é desenvolvido por pessoal competente. Muitas vezes são fabricados no fundo da própria oficina, e os parâmetros do software são modificados quase que aleatoriamente causando danos ao veículo, sistema de injeção, emissões e afins. Isso prejudica o consumidor e os profissionais da área automotiva que não conseguem competir nesse mercado tão prostituído”, afirma Soares. Ainda segundo a diretora de Marketing, a AGE já localizou mais de 20 marcas e tipos de kits diferentes só no Estado de São Paulo, todos “absolutamente irregulares”.

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