Cuidados com a frenagem de motos

Tema é o que mais provoca dúvidas entre motociclistas
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Geraldo Simões
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Recentemente uma leitora enviou uma carta com uma dúvida sobre frenagem. Ela explicou que tinha recebido duas orientações diferentes, totalmente contrárias, sobre a melhor forma de parar a moto. Isso é compreensível, porque a maioria absoluta das motos tem sistemas de freio separados em dianteiro e traseiro, enquanto no automóvel o único pedal de freio comanda as quatro rodas ao mesmo tempo.

A frenagem é o tema que mais provoca dúvidas entre motociclistas novos e até experientes justamente em função dos comandos separados e também pela delicadeza de equilíbrio no momento da frenagem. A área de contado dos pneus com o solo é muito menor nas motos em comparação com os quatro pneus dos carros. Pra complicar, quando está em linha reta, a área dos pneus em contato com asfalto é menor do quando a moto está inclinada. Em outras palavras, o momento da frenagem é o mais crítico da estabilidade de qualquer moto. Daí a preocupação mais do que justificada.

Quer mais um fator agravante? A moto se inclina em relação ao eixo vertical, enquanto os carros sem mantêm sempre paralelos em relação ao solo. Ao frear com a moto inclinada o equilíbrio fica ainda mais comprometido e exige uma delicadeza de movimento que nem todo mundo consegue alcançar.

Esses detalhes dão a dimensão do quanto é mais complexa a frenagem em motos e justifica tanta dúvida, erros e preconceitos. Por isso, no curso SpeedMaster de pilotagem de motos, eu repito várias vezes que a pilotagem de moto se faz nos detalhes, mas diferenças sutis de comportamento dos veículos de duas e quatro rodas.

Já se sabe há muito tempo que é preciso acionar sempre os dois freios da moto: dianteiro e traseiro. Mas o quanto de força e a ordem que será aplicado é um dado que varia conforme a situação.

Por partes

Não é novidade que a frenagem é uma aceleração negativa e que provoca o deslocamento de massa para a dianteira. Na verdade a massa não se desloca, é o veículo que acelera para trás. Mas para facilitar o entendimento, vamos imaginar que durante a frenagem a moto ficasse mais “pesada” na parte dianteira. Por isso o freio dianteiro é maior do que o traseiro, por ser o maior responsável em parar a moto.

Só que as motos têm suspensões dianteira e traseira, com molas e amortecedores. No momento da frenagem a tendência natural é a frente afundar, comprimindo a suspensão dianteira. Como conseqüência, a traseira “levanta” expandindo a suspensão. Nessa posição é como se a frente estivesse mais “pesada” e a traseira mais “leve”. Atenção professores de Física, essa terminologia popular é para não transformar esse artigo em uma tese de mestrado de 20.000 caracteres!.

Com a suspensão dianteira comprimida e a traseira expandida, o pneu traseiro estará quase sem contato com o asfalto e qualquer leve de toque no freio traseiro provocará o travamento da roda. Tudo isso porque o excesso de força no freio dianteiro pressionou demais a frente da moto.

Graças a essa facilidade em travar a roda traseira, muita gente prefere desprezar o freio traseiro e usar apenas o dianteiro, para desespero dos engenheiros e projetistas que gastaram semanas desenvolvendo um sistema de freio para a roda traseira.

Mas existe um jeito de evitar esse travamento. Basta COMEÇAR a frenagem pela roda traseira! Se o motociclista acionar primeiro o freio traseiro aquela transferência de peso para a dianteira será menor. A frente afunda menos e a traseira fica mais estável, “presa” ao solo. Aí basta acionar o dianteiro e o resultado é uma frenagem equilibrada, suave e sem travamento. Mas cuidado: é para começar pela roda traseira e uma fração de microssegundo depois acionar o dianteiro! Pense assim: traseiro-dianteiro!

Uma dica importante: se a roda traseira começar a travar durante a frenagem, solte imediatamente o pedal de freio e continue a frenagem apenas com o dianteiro.

Frenagem programada

Mas não foi isso que a leitora perguntou. Ela queria saber se durante a frenagem programada, aquela que a gente já sabe que vai parar – no semáforo, por exemplo – ela deveria reduzir as marchas enquanto freava ou puxava a embreagem e só reduzir depois de parar.

Em primeiro lugar é preciso identificar qual sistema de alimentação da moto. Na época dos motores a carburador recomendava-se puxar a embreagem e deixar a moto rodar em marcha lenta até parar como forma de economizar gasolina. Hoje em dia, com a injeção eletrônica é melhor deixar o motor em rotação, reduzindo as marchas porque ao cortar o acelerador o sistema bloqueia o envio de gasolina e economiza mais do que em marcha-lenta.

Mas existe outro motivo para frear reduzindo: por serem veículos que se equilibram pela ação do movimento das rodas, as motos têm características muito diferentes das dos carros. Quando o motor entra em marcha-lenta a roda motriz traseira fica mais “solta” girando livremente. Já com a marcha engata, mesmo em redução, a rotação do motor atua na roda traseira mantendo-a mais “presa” ao solo.

Em suma, é melhor frear reduzindo as marchas delicadamente até cerca de 60 km/h e só depois acionar a embreagem de vez até parar.

Mas ATENÇÃO: muita gente confunde esse tipo de frenagem com freio-motor. Não é isso! Em uma frenagem de emergência, aquela que o motociclista precisa parar no menor espaço possível, é preciso “matar” o motor, acionando a embreagem, e carregar toda frenagem nos freios traseiro e dianteiro nesta ordem. Tentar reduzir durante uma frenagem de emergência aumenta os espaços de frenagem porque facilita o travamento da roda traseira! Quem não acreditar está convidado a fazer o teste lá na pista de Piracicaba!

Portanto é preciso dividir as frenagens em dois tipos: a programada, aquela que você sabe onde precisa parar, e a de emergência, aquela que você foi pego de surpresa. São situações diferentes que exigem posturas diferentes.

E quem usa moto com freio ABS combinado nem precisa se preocupar com essas pequenas diferenças, porque o sistema age por meio de microprocessadores capazes de medir a velocidade das rodas dianteira e traseira e equilibrar a distribuição de forças. Fica a dica: se for comprar uma moto nova e tiver opção de freio com ou sem ABS escolha com, porque na hora da frenagem você vai recuperar cada centavo a mais que pagou por ela!

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Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

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