A história de um caos

Devemos caminhar felizes rumo ao inevitável apagão viário?
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Geraldo Simões
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Se hoje a mobilidade urbana virou um inferno, isso tem a ver com o desenvolvimento. O feriado de Páscoa em 2011 teve uma feliz coincidência com o de Tiradentes. Começou na quinta-feira, dia 21 de abril e foi até domingo, dia 24. Difícil repetir essa proeza e isso levou o Brasil a se movimentar pelas estradas. O resultado foi congestionamentos enormes e a velha discussão sobre mobilidade urbana.

Um dos infernos do paulista é chegar ao litoral, mais especificamente à Baixada Santista. Por mais acessos que se criem sempre será insuficiente para os dois milhões de veículos que se deslocam. Uma viagem de 70 km que duraria pouco mais de uma hora chega a levar quatro, seis ou impensáveis 10 horas, a uma média horária menor do que uma pessoa a pé!

E não há, em pleno século 21, um meio de transporte alternativo para esse percurso que não seja rodoviário. O Brasil, com uma geografia abençoada, não se utiliza de transporte ferroviário nem nas regiões de planície. Como chegamos a este ponto de tamanha dependência de transportes rodoviários?

Eu era criança nos anos 60, mas lembro de ter usado muito trem e bonde. E adorava viajar sobre trilhos. Quando foi a última vez que você, leitora pegou um trem no Brasil? Ou melhor, quando foi a última vez que viajou sem ser por meio rodoviário?

Nem sempre foi assim. Nos anos 50 o Brasil caminhava para ser um país de crescimento moderado, mas planejado. Foi quando começaram a chegar as primeiras fábricas de automóveis já de olho no potencial de crescimento econômico. Durante o governo JK as primeiras multinacionais se instalaram aqui com a promessa de gerar muito emprego e proporcionar a entrada no mundo industrializado.

Mas, sem perceber, estavam dando um tiro no pé. Para compensar a chegada da indústria automobilística o Estado precisou dar garantias de que as fábricas venderiam muito e o que se viu daí em diante foi a falência proposital dos meios de transporte ferroviário e hidroviário para incentivar, estimular e glamorizar o automóvel.

Nosso crescimento foi todo baseado no loteamento do nosso mercado às fábricas de carros, ônibus, caminhões e seus componentes como pneus, óleo, gasolina etc, etc. Como resultado, o transporte público foi ficando de lado – intencionalmente, claro – como forma de compensar os investimentos estrangeiros feitos em nossa terra.

Soma-se a isso o total descaso com o investimento na infraestrutura, como se cada gestão fosse responsável por apenas quatro anos de história, e o resultado foi o atual caos na mobilidade urbana.

Moto se move

Conforme as grandes cidades foram parando pelo excesso de veículo e falta de malha viária a solução veio por meio das motos. Já a partir de 1992 o mercado de motos no Brasil passou a crescer exponencialmente saindo das 80.000 motos vendidas ao ano até os atuais quase dois milhões.

E o que era para ser solução, em pouco tempo, tornou-se o problema. Se 20 anos atrás usávamos motos para driblar os congestionamentos, hoje são as motos uma das maiores causadoras de trânsito. É fácil entender: cada motociclista que se acidenta pára a via, tanto pela natural curiosidade mórbida por sangue, quanto pela necessidade de perícia. O trânsito para, os carros param e aí só as motos se movimentam.

Um acidente com motociclista nos corredores de trânsito para o fluxo por algumas horas. Aí temos a equação que não fecha: para fugir do trânsito e do transporte público cada vez pior os moradores das grandes cidades optaram pelas motos. Porém, despreparados, são vítimas fáceis de acidentes que param as cidades. É o moto perpétuo da imobilidade urbana!

Enquanto isso, na administração pública, os anos de atraso gerencial pesam como uma bigorna na cabeça de cada especialista. Existe um misterioso fenômeno lingüístico que produz uma inversão de significantes. Sempre que se fala em MELHORAR o transporte público, os administradores interpretam como AUMENTAR o número de ônibus. Essa disfunção interpretativa joga mais veículos no trânsito, muitas vezes em ruas incapazes de receber mais um patinete e a média horária dos ônibus só faz cair cada vez mais, chegando bem perto da média de uma carroça de burro!

Não consigo vislumbrar a menor possibilidade de reverter esta situação. Sempre que ouço na rádio “trânsito congestionado por excesso de veículos” tenho vontade de ligar lá e corrigir: não, meu caro, o trânsito está congestionado por falta de planejamento! O crescimento das vendas de veículos já estava nos planos desde os anos 50 quando chegaram as primeiras fábricas no Brasil. Se nestes 60 anos batemos seguidos recordes de venda é porque temos potencial comprador. Pena que o Estado não acompanhou com o potencial aumento e planejamento da malha viária.

Recentemente fui ao lançamento de dois caminhões superpesados e os discursos dos executivos foram tão otimistas que quase abri uma transportadora. Até eu encontrar um dono de transportadora que revelou um dado assustador: só 20% dos 1,7 milhão de km de estradas no Brasil são pavimentadas! E nossa produção é praticamente toda escoada sobre rodas com pneus! Ah, que saudades dos trens!

Agora vivemos um impasse: desenvolver meios de transporte coletivo e de carga eficientes, mas que podem arrefecer as vendas de veículos automotores, ou o Brasil continuar dependente economicamente da indústria automobilística e caminharmos felizes rumo ao inevitável apagão viário?

Entre as soluções já se fala em ampliar o rodízio de veículos em SP e implantar em outras cidades. Já que o Estado não conseguiu cuidar do assunto, basta transferir para o cidadão. Ah, mas lembre de não oferecer nada em troca: primeiro incentive a compra do carro, depois impeça os donos de usarem, mas continue cobrando as taxas de licenciamento, IPVA e DPVAT como se o carro circulasse 365 dias por ano. É realmente um Estado muito justo!

Também cansei de esperar por uma solução estatal. Está na hora até de a população das grandes cidades se envolver nesta batalha. O paulistano já descobriu há muito tempo que uma das grandes bênçãos é trabalhar perto de casa ou morar perto do trabalho. Quanto menos se deslocar, melhor. Esta campanha deve ser abraçada também pelas empresas. Está na hora de os especialistas em recursos humanos começarem a olhar também para o endereço de seus candidatos. Não se justifica mover alguém de um lado para outro da cidade, obrigando a grande deslocamento, que implica em custos ambientais e sociais, só pelas qualificações profissionais.

Curioso que vejo empresas defenderem políticas xiitas de preservação ambiental, mas esquecem de olhar quanto a sua mão de obra representa na degradação do meio urbano. Para certos empresários, meio-ambiente é aquele espaço imaginário onde vivem micos leões dourados e jacarés de papo amarelo. A rua da casa dela não faz parte do meio ambiente. Talvez isso explique o fato de o gerente de RH de uma grande e ecologicamente correta empresa não se importar em passear aos finais de semana de sol com sua Harley Davidson desprovida de silenciador e catalisador!

Por isso, amigoa leitora, na próxima vez que estiver preso ao congestionamento pense que isso tudo teve começo, meio, mas estamos bem perto do fim!


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Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

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