Rodoavenida insólita - Colunista Tite relata absurdos feitos por usuários na BR 101

Veja a lista de absurdos relatados pelo colunista durante uma viagem até o litoral paulista
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Geraldo Simões
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– Determinar uma política de segurança veicular é um dos desafios mais difíceis que teremos de passar nos próximos dez anos, sob risco de assistirmos a uma crise de transporte sem precedentes. Enquanto o Brasil investe fortunas, pessoal e tempo na organização de eventos esportivos, os brasileiros comuns estão morrendo e se mutilando nas estradas.

Recentemente fui chamado para ministrar algumas palestras para uma empresa sediada na Riviera São Lourenço, em Bertioga, litoral norte de São Paulo. Por coincidência, passei boa parte da minha infância nesta região na casa de um tio-avô. Para chegar a praia do Indaiá nos anos 60 levávamos horas intermináveis em estradas de terra, pontes feitas de troncos de árvores e desafiando a maré pela areia da praia. Uma jornada que demorava fácil seis horas da capital à casa, passando por duas balsas.

Na semana passada levei exatamente 75 minutos da porta da minha casa, até a Riviera, viajando de moto a uma velocidade máxima de 100 km/h. Fiquei tão surpreso que cheguei 45 minutos antes do previsto.

No entanto o que me deixou aterrorizado é a transformação que esta região sofreu no período de 40 anos. Aquele “fim de mundo” virou uma cidade organizada, com prédios e casas de luxo, ruas largas e com relativo respeito ao meio-ambiente.

O susto só não foi maior do que vi nas estradas. Primeiro, no trecho inicial da Cônego Domenico Rangoni, SP 055 a quantidade de caminhões é impressionante! Junto com ônibus de linha, carros e motos. O sufoco acaba na entrada do distrito industrial e depois fica sossegado. Mas vi muitos motociclistas rodando no “corredor” entre os caminhões, o que é totalmente inaceitável. Os caminhões são pesados e lentos, não conseguem frear nem desviar com agilidade. Se um motociclista pára ou cai na frente não tem chance!

Ao entrar na rodovia Rio-Santos BR-101 em direção a Bertioga o começo parece bem tranqüilo, sinalizado e fiscalizado por um posto da Policia Rodoviária. Mas à medida que se aproxima da entrada de Bertioga aquela rodovia se transforma em algo absolutamente aterrorizante que vai contra todos os princípios de segurança veicular.

Apesar de ser uma rodovia, as pessoas se comportam como se estivessem em uma avenida e pior: o DER Departamento de Estradas de Rodagem também contribui para a confusão ao usar elementos inaceitáveis em uma rodovia como as ilhas e faixas de pedestres! Não pode!!! É totalmente proibido parar em rodovias, deve-se parar no acostamento em caso de emergência! Estas faixas de pedestres devem ser substituídas por passarelas ou túneis e tirar qualquer elemento físico do meio da estrada postes de sinalização, tachões, guias, etc.

Como existe uma grande quantidade de motoristas paulistanos que recentemente aprenderam a parar antes das faixas de pedestre, essa estrada se tornou uma eficiente armadilha a favor de acidentes. Não pode parar em rodovias, nem para pedestre, deve-se reduzir a velocidade e ficar atento, não pode parar!

Mas não acabou aí! Nesta rodovia tem circulação de ônibus de linha, o que exige pontos de paradas. Estes pontos estão colocados no acostamento, o que é outra barbaridade, pois deveria ter uma área de recuo além do acostamento. O acostamento precisa ficar livre, ele existe para emergência e não para ponto de ônibus.

Para piorar os acostamentos são usados como calçada e ciclovia pela população. Mais um desvio de função, porque o correto é ter uma via separada fisicamente para pedestres e ciclistas. Como agravante vi muitos motociclistas trafegando pelo acostamento como se fosse uma extensão da rodovia.

Pensa que acabou? Perdi a conta de quantos veículos cruzaram a estrada à esquerda sem parar no acostamento. Pior: quando queriam entrar em uma via que coincidia com as ilhas de travessia de pedestres, os motoristas e motociclistas entravam na contra-mão por 10 a 15 metros e na maior naturalidade do mundo viravam à esquerda. Cheguei a ver um caminhão parado no meio da rodovia esperando para entrar á esquerda.

Sinceramente, não sei a estatística de acidentes nesta rodovia, mas pela preocupação a empresa que me contratou parece que só não é uma carnificina porque fora da temporada de férias o tráfego é bem menor.

Os “crimes” mais comuns que vi nos dois dias circulando pela BR-101 entre Bertioga e a Riviera São Lourenço foram:

- Desconhecimento das regras de trânsito, tanto por parte dos motoristas e motociclistas. Pouca gente sabe que as faixas duplas contínuas indicam não apenas proibida a ultrapassagem, mas também que é proibido cruzar a via. Nos pontos de cruzamento a faixa é tracejada ou interrompida.

- Poucos pontos de ultrapassagem. A quase totalidade da estrada é demarcada com a faixa dupla contínua. E os motoristas e motociclistas desconhecem que a linha branca que delimita a pista também tem trechos tracejados, o que significa que pode usar o acostamento para permitir a ultrapassagem. O resultado são filas de carros, “presos” por um veículo mais lento.

- Absoluta falta de fiscalização e controle. Curiosamente a única fiscalização presente é de uma equipe do DER que controla o excesso de carga dos caminhões. Ou seja, visa exclusivamente multar e não educar. Mesma função dos radares de velocidade, que são totalmente ineficazes para educar.

- Desvio de função: a rodovia adquiriu o papel de avenida e qualquer especialista em trânsito sabe que rodovias e avenidas não podem ser tratadas da mesma forma nem obedecer as mesmas leis!

- Visível falta de investimento. Este rodovia há muito tempo deveria ter passarelas, viadutos e túneis que evitassem o excesso de cruzamentos em nível e o trânsito de pedestres pelo chamado “leito carroçável”.

- Falta de ciclovia e calçada para ciclistas e pedestres. Usar o acostamento como via de trânsito de pedestres e ciclistas, em uma rodovia com limite de 80 km/h, é contribuir para o aumento dos acidentes.

Analisando a região mais atentamente percebe-se que o modal de transporte usado é um fator contribuinte para acidentes. Uma região plana, com muita área deveria ser servida por trem, ter ciclovias que visassem o transporte e não o lazer e um calçadão para pedestre.

Claro que isso vai bater de frente com os ambientalistas que exigirão relatórios de impacto ambiental para a construção de uma ferrovia, ciclovia ou passarelas. Só que um dado que a maioria dos ambientalistas esquecem – ou não se importam – é que o ser humano também faz parte do meio-ambiente. E estão morrendo e se mutilando em uma estrada que foi feita para causar acidentes.

Sorte dos animais silvestres que têm os ambientalistas para protegê-los, enquanto os homens precisam se defender como podem!

As opiniões expressas nesta matéria são de responsabilidade de seu autor e não refletem, necessariamente, a opinião do site WebMotors.
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Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

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