Condenado a comprar carro velho

Montadoras lançam modelo novo, mas mantêm o velho em linha. O Focus vai se unir às versões antigas do Corsa, Palio, 206 e Gol
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– Parece uma punição para o consumidor com menor poder aquisitivo, ou que não quer investir muito num carro zero. Se não é essa a intenção de algumas montadoras, o resultado é exatamente esse: só quem está no segundo degrau do consumo pode comprar um carro moderno. Os menos afortunados têm que comprar o modelo velho.

Quando apresentam “o seu mais novo produto” as montadoras fazem um estardalhaço, destacam as melhorias em relação à versão antiga, valorizam as mudanças tecnológicas, mas condena o seu fiel consumidor a continuar comprado o modelo velho, que a própria fábrica considera defasado caso contrário, não teria lançado o modelo novo.

Em todos os casos existentes hoje no mercado – Corsa, Palio, 206 e Gol – as fábricas não dispõem de uma versão de entrada do modelo novo, por isso, quem quiser um carro sem equipamentos, mais barato, terá que engolir a carroceria velha. E a maioria se submete a isso, por uma questão de preço. Tanto Corsa Classic, quanto Palio e Siena Fire são mais vendidos do que as versões novas correspondentes: Corsa sedã, o Palio e o Siena ELX. A Peugeot lançou o 207 em maio, mas deixou em linha o 206 básico e a Volks manteve uma versão com a carroceria do Gol velho depois de lançar a Gol novo em junho.

Quem começou essa história foi a Fiat, quando, em 2000, lançou o Palio novo, mas deixou a versão com carroceria velha no mercado, que passou a ser chamado Fire. A estratégia funcionou desde o inicio: com o preço mais competitivo, o Palio velho continuou fazendo sucesso e chegou a ter 75% das vendas total do modelo velho + novo.

A mesma estratégia chegou ao sedã Siena no final de 2003; a montadora mudou o desenho do carro, mas manteve o velho em produção, com o nome de Siena Fire. E em 2005 foi a vez da Strada que manteve a versão velha.

Segundo a montadora, essa estratégia tem como objetivo oferecer uma gama maior de oferta. A estratégia da Fiat é adotada para aqueles modelos que têm grande volume de vendas e onde há muita concorrência.

O segmento de hatch pequenos tem 60% do mercado, então, quanto maior a oferta, maior a possibilidade de faturamento da empresa. O mesmo vale para o caso do Siena.

No caso da Strada, o modelo velho é destinado principalmente ao uso para o trabalho, onde não há tanta exigência em relação à atualidade do veículo, mas uma pequena diferença de preço é importante fator de decisão de compra. A Strada nova mais barata custa R$ 36 mil, enquanto a versão velha sai por R$ 32,3 mil.

Seguindo os passos da Fiat, a Ford “lançou” uma versão velha do Fiesta, a Street, em 2002, quando chegou o Fiesta com nova carroceria. Tanto o hatch quanto o sedã tinham uma versão com carroceria velha. A versão hatch permaneceu em linha até 2006, e o sedã ficou até 2004.

O Classic é o caso mais curioso de carro velho no mercado. Para disfarçar junto ao consumidor, a GM deu um nome novo ao carro velho. Tirou o nome “Corsa” e o modelo velho passou a ser chamar simplesmente Classic. Mesmo defasado, o carro é sucesso de vendas, está sempre entre os cinco primeiros do ranking e recebe um cuidado da montadora, que a cada ano faz pequenas mudanças no acabamento.

A Volks já usou a estratégia em 1999, quando lançou a Geração 3 do Gol e manteve a versão velha, com o nome de Gol Special G2. O carro durou até 2005. Depois disso, o Special mudou a carroceria e manteve o interior velho.

Agora, com o lançamento do Gol novo, o NF, a situação se repete. O Gol velho continua em linha, com o codinome de Gol City, na versão duas portas, custando R$ 27,1 mil, enquanto o Gol novo mais barato tem quatro portas e custa R$ 28,9 mil.

A Ford vai fazer o mesmo com o Focus, que muda no mês que vem: o modelo velho vai continuar em linha com uma versão básica com motor 1.6

A estratégia de manter carro velho em linha não é exclusiva do mercado brasileiro. Há casos semelhantes na Itália, França e em outros países. Mas aqui as montadoras exageram na dose. Virou rotina: quando chega um carro novo na categoria dos pequenos, o consumidor é bombardeado com uma campanha publicitária anunciando as novidades, as linhas mais modernas, os novos equipamentos, a tecnologia de ponta. Mas na hora de comprar, leva pra casa o carro velho.


Participação nas vendas : novo x velho

Modelo novo
Palio – 31%
Siena – 42%
Strada – 42%
Corsa sedã – 21%

Modelo velho
Palio – 69%
Siena – 58%
Strada – 58%
Corsa sedã – 79%


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Joel Leite joelleite@autoinforme.com.br é diretor da agência de notícias especializada no setor automotivo AutoInforme. Produz e apresenta o quadro sobre automóveis no programa Shop Tour e fornece informações para vários veículos de comunicação. É especialista no mercado de automóveis desde 1984, quando começou no Jornal do Carro do Jornal da Tarde. Joel é formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduado em Comunicação e Semiótica.


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