Tamanho é documento

Mais uma vez a administração pública tenta ensinar pela ignorância
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Geraldo Simões
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Em pleno século 21 ainda em gente que acredita na surra como forma de pedagogia infantil. Ainda existem pessoas - inclusive esclarecidas - que defendem as "palmadas" como forma de adestrar um pequeno ser humano de meio metro de altura.

 

Se para você isso soa como Idade Média saiba que é dessa forma que estão legislando sobre todos os temas ligados ao trânsito. Já que nenhum ser vivente que atua nos departamentos de trânsito quer seguir pelo caminho mais difícil, que é a educação social, adotam como forma de adestramento o caminho mais fácil: a proibição. Criar proibições traz uma série de benefícios ao Estado:

 

1) É mais barato.

2) Gera receita por meio de multas.

3) Cria maquiagem para o verdadeiro problema, que é a falta de educação social.

4) Funciona bem nas estatísticas.

5) Como o trânsito é uma competência política e não técnica, projetos ganham destaque na mídia e, consequentemente, gera publicidade gratuita aos autores.

6) Facilita a fiscalização, enquanto regulamentar gera necessidade de mais fiscais e mais investimento em treinamento.

 

Por isso, sempre que as autoridades estão diante de alguma estatística desagradável usam a caneta como forma de resolver o problema de uma maneira fácil, indolor e rentável na qual a ÚNICO prejudicado é o cidadão.

 

Um recente projeto de lei (6041/09) que me recuso a citar o autor, pretende elevar de 7 para 11 anos a idade mínima para levar uma criança na garupa de motos. É claro que não passou pela cabeça do autor que o Brasil não se resume a Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro e que a moto não é um luxo de amaldiçoados jovens classe-média. Hoje a moto é o meio de transporte de milhões de brasileiros porque enquanto cretinos da grandeza desse autor perdem tempo em criar projetos de leis, eles não melhoraram o transporte público desde o século retrasado.

 

Recente pesquisa da Organização Mundial de Saúde apontou duas cidades brasileiras como as piores no quesito deslocamento casa-trabalho-casa: São Paulo e Rio de Janeiro. Rio de Janeiro foi considerada a pior cidade do mundo em termos de mobilidade no trânsito. Os cariocas gastam, em média, mais de duas horas no deslocamento. São duas horas por dia dedicados ao árduo caminho de ida e volta do trabalho. Mas isso não faz parte da pauta de responsabilidades da categoria política, porque político não usa ônibus. Essa pesquisa coincide com uma realizada em 2013 pelo Plano Diretor de Transportes Urbanos que mostrou um dado preocupante no Rio: caiu cerca de 5% o número de pessoas que usam transporte coletivo nos últimos 10 anos.

 

Trânsito é técnica e não política!

Voltando ao caso da alteração da idade para rodar na garupa, essa é uma medida claramente elitista de quem vive enfiado dentro de um gabinete e bem longe da realidade. Nas cidades pequenas do Nordeste a moto é o único meio de transporte possível. E tem nada a ver com paixão, como no Sudeste, mas com a necessidade. Claro que o sonho de toda família era ter um carro, mas quem consegue comprar um carro com R$ 50,00 por mês?

 

Da mesma forma é preciso conter a cruel estatística que mostrou um crescimento de mais de 500% de casos de crianças vítimas de acidente com moto nos últimos 10 anos só no Estado do Rio Grande do Norte. Mas é preciso olhar para esse dado com mais técnica e menos politicagem.

 

Logo de cara temos uma dificuldade extra de gerenciar o trânsito na medida que os cargos são nomeação política e acabam servindo de cabide de emprego ou manifestando interesses partidários. Já vi entrevista de prefeitos que fazem vista grossa à fiscalização para não ficar mal com seu curral eleitoral.

 

Se tem crianças menores de 7 anos andando na garupa o único culpado é o Estado em sua omissão e incompetência ao fiscalizar. Se uma criança de dois anos se acidenta de moto o responsável sofre punições e multa, mas o Estado sai ileso, embora seu papel de tutor também tenha falhado.

 

Aí entra em cena outra área que sofre as conseqüências desses acidentes, mas são igualmente ignorantes do ponto de vista técnico, que são os médicos da saúde pública. Imagino o desespero de um médico ao atender uma criança de dois ou três anos, vítima de acidente de moto. Por isso sou solidário e concordo que deve existir uma limitação e um rigor militar na fiscalização. Mas desde que seja feita da maneira correta.

 

O melhor critério é pela estatura. Uma criança que seja capaz de alcançar os pés nas pedaleiras já tem capacidade de se manter na garupa de uma moto. Antes disso existe até o perigo de os pés entrarem na roda traseira, acidente comum de acontecer com bicicletas. Mas a Abramet - Associação Brasileira de Medicina de Trânsito - chegou a cogitar como 16 anos a idade mínima, algo que beira o ridículo em termos técnicos, porque nessa idade, em muitos países, os jovens já podem pilotar!

 

Aliás, uma das consequências adversas da limitação em 11 anos é acabar empurrando essas crianças para o guidão de motos de 50cc, que lá no Nordeste não são devidamente fiscalizadas. Aí teremos crianças de 11 anos levando outras de 5 anos na garupa!

 

Outra declaração absurda no texto do projeto de lei baseia-se no fato de que não existem equipamentos de segurança adequados às crianças ou são muito caros. Duas afirmações que beiram a debilidade mental do autor, porque existem sim equipamentos específicos e eles são mais baratos do que os de adultos.

 

Portanto estamos em vias de termos as nossas vidas complicadas por projetos de leis criados por radicais xiitas desinformados e preguiçosos, incapazes de enxergar a verdade mais óbvia estampada na cara de todo mundo com mais de uma dúzia de neurônios: a melhor forma de acabar com as vítimas de trânsito é acabar com os ACIDENTES!!!

 

Usando a mesma lógica debilóide de quem criou o slogan "país rico é um país sem pobreza" eu digo com todas as letras: país sem acidente de trânsito é um país sem vítima! Portanto, semi-alfabetizados que passam seus dias cutucando o nariz e criando leis ridículas, trabalhem naquilo que efetivamente funciona para reduzir as vítimas de acidentes de trânsito: na educação social! 

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