A incrível briga pela pole na Stock Car

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Rodolpho Siqueira
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- O Campeonato Brasileiro de Stock Car realmente vive dias impressionantes. Os treinos para a 5ª etapa, realizada no fim de semana passado, são uma boa prova disso. Na sexta-feira, o mais veloz naquela prática foi o carioca Cacá Bueno Mitsubishi Lancer, que cravou a marca de 1min17s548, à média de 145,999 km/h. Mais atrás, o gaúcho Juliano Moro, também de Lancer, registrou uma marca apenas 0s982 pior – ou seja, menos de um segundo. Entre eles, nada menos do que 28 carros. Moro, o 30º colocado, não podia se conformar. Havia acelerado para valer e completado o circuito com perfeição, e o tempo que assinalou até que foi bom. Mas, na Stock Car da atualidade, bom não é suficiente.

Nas tomadas de tempo para o grid, a história se repetiu. Do primeiro colocado, Thiago Camilo Chevrolet Astra, ao 29º, Christian Fittipaldi Lancer, a diferença foi de apenas 0s897. Esta sessão de treinos definiu os dez primeiros que participariam da super-classificação, quando a pole foi decidida em favor do carioca Cacá Bueno Lancer – que ficou com o lugar de honra após ser meros 0s026 mais veloz que o segundo colocado, o catarinese Mateus Greipel Astra. Para se ter uma idéia, o ato de se piscar os olhos demora cerca de 0s100 – ou quatro vezes a diferença do primeiro para o segundo colocados no grid da Stock. Ou seja, mantendo a diferença entre Greipel e Bueno, se você piscasse seus olhos na passagem do pole em Londrina, ao reabri-los seria possível que mais quatro carros tivessem cruzado a sua frente.

No calendário 2006, o traçado de Londrina é realmente pista que mais pode acirrar o nível de competitividade na Stock. Com uma extensão considerada relativamente pequena – 3.145 metros –, seu desenho travado propicia tempos mais próximos do que seria esperado em Brasília, por exemplo, que tem 5.475 metros. Mas mesmo assim o equilíbrio chama a atenção. Em uma comparação bem simplista, vejamos a F-1, categoria preferida pela maior parte dos fãs. Em Mônaco, apenas quatro pilotos ficaram dentro do mesmo segundo no grid. E isso mesmo se tratando de uma pista de rua de tamanho semelhante ao de Londrina, 3.340 metros, e até mais travada.

A competitividade da Stock em 2006 tem seus efeitos sobre equipes e pilotos. O ambiente nos boxes antes das tomadas de tempo, especialmente, chega a apresentar um certo nervosismo. “Aqui não há mais espaço para pilotos ou equipes sem um compromisso total com seu desempenho. Ou você está 100% focado e dedica sua vida à Stock, ou não passará de mero figurante”, avisa Carlos Alves, o Carlão, um dos nomes mais tradicionais da categoria.

Alvez, que tem 41 anos e compete com um Stock vestido com a carenagem de um Volkswagen Bora, estreou na Stock em 1989. “Depois de tantos anos na categoria, eu nunca estive tão competitivo. Este ambiente, que te pressiona o tempo todo a se aprimorar, acabou me ajudando a me tornar um profissional mais completo. Hoje, sou mais dedicado, trabalho muito mais, estou na minha melhor forma física. No geral, nunca pilotei tão bem. Mas ainda assim nunca estive tão longe dos bons resultados – e isso se deve exclusivamente ao atual nível da categoria. Mas tenho patrocinadores – Calminex Ice e Coppertone – e preciso retribuir com resultados o investimento que têm feito em nossa equipe”.

Nos treinos de sexta-feira, Alves cravou uma marca míseros 0s6 pior que o mais rápido do dia – e ficou em um distante 23º lugar. “Na Stock há pressão sobre todos, inclusive sobre os pilotos. É uma exigência por resultados e desempenho o tempo todo”, conta Carlão. “Não há como relaxar e isso tem seus efeitos. Você precisa estar apto tecnicamente, mas também deve ser afiado no aspecto físico e mental. Eu mesmo tenho um acompanhamento especial do doutor Leonardo Verea, um psicólogo que há quatro anos ajuda a melhorar minha concentração e me tornou mais forte para agüentar esta pressão. Este trabalho foi importante inclusive em 2005, quando estive afastado da pista e tive que viver uma situação terrível para qualquer piloto – não poder competir. Mas eu superei tudo e agora me sinto melhor do que nunca, exatamente como a Stock Car de 2006”.

Segundo colocado no grid de Londrina, Mateus Greipel é um legítimo representante da nova geração da Stock, e alguém de quem se espera muito no futuro. Greipel, de 26 anos, estreou na Stock V8 em 2003, quando a categoria já iniciava a decolagem que a levaria ao pico de popularidade que ostenta atualmente – e também quando os grids começaram a ficar apertados. Catarinense, ele tem outro método para ficar imune à exigência por resultados da atual Stock.

“Eu procuro não me preocupar com o treino de sexta-feira, embora, claro, tento fazer o melhor”, diz Mateus, que compete pela equipe RC3 Bassani, time que tem entre seus sócios o lateral da seleção brasileira de futebol, Roberto Carlos. “Então, aproveito o restante da sexta-feira para conversar com a equipe, para analisar cada detalhe na procura de algo que possa fazer a diferença na pista. Assim, quando volto ao autódromo no dia seguinte, para a disputa das tomadas de tempo, já tenho um retrato mais perfeito da situação na minha cabeça. Isso tudo me ajuda a controlar a pressão, a estar imune a ela”.

“Mas nem sempre é possível ter estar no controle”, admite Greipel. “Nos treinos de sexta-feira, por exemplo, só pude entrar na pista para tentar minha melhor volta quando faltavam poucos minutos para o encerramento. Eu só tinha duas voltas para dar e o traçado estava congestionado, com muitos carros. Nessas horas, você sente a pressão. Na Stock de hoje, há tanto dinheiro e trabalho envolvidos que o piloto precisa ter a cabeça muito fria, pois em momentos como estes é ele quem, no braço, decide se a equipe terá ou não sucesso na pista. É muita responsabilidade”.

Este também é o ponto de vista do carioca Duda Pamplona, 28 anos, outro nome que pode tornar-se uma estrela no futuro da categoria. “Hoje, os pilotos buscam a volta perfeita. É mais do que uma volta sem erros, tem de ser impecável”, conta ele. “E se você não ficar entre os dez melhores no grid, sua corrida está comprometida, pois na Stock ultrapassar não é fácil. Em outras categorias, um piloto fica irritado por largar em quinto, pois acha que é uma posição ruim. Aqui, de tão competitivo que está o grid, se ficar entre os dez melhores será motivo de festa. Ser o pole, então, é uma honra. Afinal, a tomada de tempos é o momento no qual o piloto mostra do que é capaz, pois sempre anda no limite”.

A igualdade no desempenho dos carros levou as equipes a ir fundo na busca de aperfeiçoamentos que melhorem seus carros na pista. “Os Stock estão muito desenvolvidos e atualmente você só consegue ganhar tempo nos detalhes”, conta Pamplona. “Um exemplo é a aerodinâmica. As equipes procuram eliminar cada frestinha da carenagem, cada detalhe, por menor que seja, que possa perturbar o fluxo de ar ao redor do carro. É uma busca quase paranóica pois todos sabem que se a nossa equipe não fizer esses aperfeiçoamentos, mesmo que sejam mínimos, vai perder na pista, já que a concorrência com certeza está trabalhando para nos deixar para trás”.

Mas dentro da realidade competitiva da Stock Car, há quem veja o atual equilíbrio de uma forma menos dramática. “Para mim, ter tantos carros no mesmo segundo não faz diferença. No fim das contas, você tem que entrar na pista e acelerar, fazer o seu melhor. Se fiquei atrás de dois ou de dez pilotos, não importa”, opina Chico Serra, um dos pilotos mais experientes do automobilismo brasileiro, com passagem inclusive pela Fórmula 1. “A verdade é que a pressão por desempenho sempre existirá e você tem que ir para a pista disposto a ser o mais eficiente que puder. A Stock está tão profissional hoje em dia que não permite pilotos que pensem de outra forma. Queiramos ou não, a pressão por resultados existe. E nunca vai acabar”.

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