Segredos de um Ferrari

F430 GT3, idêntico aos usados na Europa, exige muito mais do que preparo dos mecânicos
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Dirigir um Ferrari F430 é para poucos, principalmente depois que o carro passa pelas habilidosas mãos de Loris Kessel, preparador oficial dos Ferrari que competem na GT3. Neste caso, o verbo muda para pilotar, e a brincadeira fica mais séria ainda. É com este espírito que os mecânicos da Equipe Greco trabalham diariamente na manutenção do sonho de consumo de muita gente que dirige, e de outros tantos que nem habilitação têm.

Na oficina localizada nos arredores do autódromo de Interlagos, em São Paulo, os profissionais se revezam para deixar a F430 pronta para entrar na pista, assim como os cinco Maserati que competem no Trofeo Maserati. Mas, quando se tem um Ferrari na garagem, quem quer saber de outra marca? Até mesmo os olhos do experiente chefe da equipe, Fábio Greco, filho do célebre Luiz Antonio Greco, pioneiro em competições automotivas no Brasil, brilham forte quando começa a falar sobre o carrinho vermelho do cavalinho empinado.

"É uma máquina fantástica, mas que tem um custo elevado de manutenção", afirma Greco. "Por isso é preciso que o mecânico seja extremamente profissional, cuidadoso, para não estragar uma simples porca ou parafuso, que são de alumínio e titânio, e que para serem substituídos teriam de vir da fábrica, na Itália", diz o chefe da equipe.

Para se ter idéia, a porca de fixação da roda, que é única como em um fórmula 1, é mais leve do que um único parafuso de roda de um carro comum. Greco conta que existem ocasiões em que é mais rápido ir até a Itália buscar a peça do que encomendar.

A escolha da Equipe Greco em correr a GT3 de Ferrari não foi por acaso. Os cinco Marserati que a equipe utiliza no Trofeo Maserati possuem mecânica muito parecida a das Ferrari. "Os cuidados são os mesmos, apesar de os custos serem menores", diz Greco. "O mais importante para trabalhar na manutenção de um carro de corrida como os que temos é ser cuidadoso na hora de desmontar e montar", afirma o chefe da equipe.

Pronta para uso

Pelo regulamento, os carros que competem a GT3 devem ser preparados por um único profissional, designado pela fábrica. Isso significa que o F430 Positron, pilotado por Renato Catallini e Antonio Jorge Neto é idêntico aos outros quatro Ferraris que participam do campeonato brasileiro e das que correm na Europa. "Não podemos mexer na regulagem do carro, e o CBA tem como monitorar isso, por meio do Mahtechs", afirma Greco.

Assim, a equipe tem como principal responsabilidade realizar as manutenções necessárias no veículo para que ele se mantenha competitivo, como verificação e troca de todos os fluidos e filtros, sistemas de freios, suspensão, alinhamento, revisão de buchas, trincas, vazamentos etc. "As partes que precisam de mais atenção são as da suspensão e rolamentos, que são expostas a alta temperatura e vibração", conta Greco.

Uma diferença em relação a outras categorias é a existência do Mahtechs, uma caixa-preta que informa todos os parâmetros de regulagem do veículo e que só pode ser acessada pelos fiscais de prova. Este recurso tecnológico denuncia alterações irregulares, principalmente nos ajustes de motor que melhoram a performance do carro. Por conta deste dispositivo, Greco conta que já tirou o motor e a transmissão da Ferrari para realizar pequenos reparos. "Abrimos o motor para verificar os cilindros, árvore de manivela, entre outros componentes internos que são bastante requisitados durante as provas", afirma.

A eletrônica embarcada nos carros da GT3 é um capítulo à parte. De dentro do carro, o piloto tem como saber todos os detalhes do funcionamento do veículo, desde itens básicos como velocímetro, conta-giros, pressão do óleo, marcha engatada, a outras mais específicas como o ângulo de esterçamento do volante, quantidade de combustível em litros etc.

As informações são fornecidas ao piloto por uma tela de cristal líquido localizada atrás do volante, e também para a equipe, que pode descarregar no computador todo o comportamento do carro durante o tempo de funcionamento do motor. "Com isso, identificamos onde podemos melhorar o carro, e também comparar o desempenho dos pilotos", diz Greco.


Ajuda

Ao final de cada etapa, a equipe grava no computador todas as informações do carro durante a corrida, e repassa as informações para a fábrica analisar o desempenho da F-430. "Logo depois da etapa de Brasília, pedimos um novo radiador, pois percebemos que o carro esquentou além do normal. O Kessel, que prepara os carros para a Ferrari, já tem todas as informações que precisa para justificar uma troca de radiador junto a FIA", diz Greco, ao explicar que todas as alterações feitas no carro devem ser comunicadas e aprovadas pela FIA, sob risco de desclassificação.

Por este motivo, Greco conta que vai com freqüência para a Itália, trocar informações com Kessel a respeito da performance do F430. "Antes da etapa de São Paulo, em maio, estive lá e trouxe um novo mapeamento do motor e câmbio", revela o chefe de equipe. Apesar de toda a eletrônica, é no check list que alguns problemas são detectados.

No momento que a reportagem do Oficina Brasil chegou à oficina da Equipe Greco, o mecânico Alan finalizava a desmontagem da roda direita traseira. O F430 já estava com a parte da dianteira desmontada, sem suspensão. Na bancada, uma bandeja da suspensão. "Vê essa bucha? Está com folga", disse Alan, enquanto mexia na peça, que realmente demonstrava uma insignificante diferença de precisão. "Um milímetro aqui pode causar uma vibração de cinco naquela ponta e danificar o pino que desregula todo o alinhamento do carro", explica. Dessa forma, percebe-se o quanto as competições são importantes para a montadora aprimorar os veículos da marca.

Equipe Greco

Além do chefe de equipe e do mecânico Alan, fazem parte da Equipe Greco os profissionais Wander, Edson, Amaral, Fabiano, Luis, Tony, João Mariano e Fábio Greco Filho, responsável por coletar e analisar, junto com o pai, as informações fornecidas pela F430 ao final de cada prova.

Outra personagem importante na equipe é a esposa de Greco, Patrícia Grego, responsável pela administração financeira, além de cuidar do visual dos boxes e uniformes dos mecânicos e pilotos. "É ela que mantém a equipe em ordem", revela Greco.

A lenda viva chamada João Mariano

Conhecer a Equipe Greco é como dar um passeio pela história do automobilismo brasileiro. Fundada há 49 anos por Luiz Antonio Greco, o Trovão, a equipe revelou diversos talentos como os irmãos Fittipaldi, José Carlos Pace, entre outros. Nos bastidores, o mesmo. Um destes fenômenos ainda marca presença na oficina: o preparador de motores João Mariano, de 78 anos, 48 deles dedicados à Equipe Greco.

Natural de Santa Cruz do Rio Pardo, cidade do interior de São Paulo, localizada a 340 km da capital, João Mariano, conta que chegou a São Paulo aos 29 anos, em busca de melhores oportunidades. "Acabei indo trabalhar na Willys, em São Bernardo do Campo, e, pouco tempo depois, me mandaram para a Barão de Ladário, onde faziam os carros de corrida, e lá conheci a Equipe Greco", diz Mariano.

Fabio Greco, filho do Trovão e atual comandante da Equipe Greco, revela que Mariano era faxineiro na época e que, em certa ocasião, um novo câmbio de cinco marchas havia acabado de chegar da Europa. "Ninguém conseguia montar o câmbio, até que o Mariano chegou e disse: “pode deixar que eu monto!” Todos riram, mas, no desespero da hora, meu pai deixou que ele mexesse nas peças. Pouco tempo depois, o câmbio estava montado e eles venceram a corrida", diz Greco.

A partir de então, Mariano tornou-se um especialista em motores, tendo participado de toda a trajetória da Equipe Greco, nos bons e maus momentos. "Na época da Fórmula Uno, preparávamos cerca de 140 motores por mês", relembra. Atualmente, com a incorporação cada vez maior de componentes eletrônicos nos veículos, Mariano já não desempenha o mesmo papel de antigamente, mas ainda é uma referência na oficina quando o assunto é afinação de motor.

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