De carona com Aldenice de Cezare

Motorista de coleta de lixo pilota Trucado de 25 toneladas
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Adriana Bernardino
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- São 10 horas da manhã. Estamos na Loga, concessionária responsável pelos serviços de coleta, transporte, tratamento e destinação final do lixo domiciliar e hospitalar da região noroeste da cidade de São Paulo.

Já deveríamos ter subido no caminhão de coleta para vivenciar as sensações de recolher o lixo pelos bairros. Mas Aldenice de Cezare, a Nice, é a motorista. Sim, uma mulher! E isso muda quase tudo.

Ela se demora no vestiário. Passa um batom rosa, que combina com o verde do uniforme; pergunta se o cabelo fica mais bonito com ou sem a tiara. Tira, põe. Prefere sem. Põe brincos de folha, maquia os olhos. “Agora sim”, ela se decide, e nos convida a embarcar no bruto de 25 toneladas. O Trucado, modelo 2005 da Volkswagen, tem 220 cv de potência e três eixos.

Subir no caminhão é quase uma escalada. Deve-se tomar o cuidado de entrar e sair sempre com o corpo voltado para dentro do veículo, “para evitar acidentes”, ela avisa. A sensação é a de andar numa Kombi gigante, o corpo sacoleja o tempo todo. “É bom ver o trânsito daqui de cima, a gente, motorista profissional, consegue se deslocar com mais habilidade”, conta Nice, que não pode passar dos 70 km/h.

Lá do alto, toda a cidade se revela, as diferenças, as desigualdades, as barbeiragens. “Gosto de ler frases de caminhão”. Há uma em nossa frente: “Jesus te ama. Mundo ‘mim’ ensina a viver, e a vida a perdoar”. Surge um Fusca florido. Do outro lado da rua, um senhor, vendedor ambulante talvez, espera uma chance. Será louco de atravessar a avenida sem faixa? Há sempre uma novidade atrás da fumaça branca e cinza da paisagem, um signo ou mensagens que surpreendem o olhar.

“Eu já tenho o vício da roda”, ela revela, referindo-se a uma gíria usada por motoristas profissionais que se sentem incapazes de fazer qualquer outra coisa na vida que não seja encarar a liberdade solitária do volante.

Guiar, para Nice, é familiar. O marido é motorista de ônibus, o tio também. Mas antes de se decidir pela profissão, nem percebia que tinha nascido para coisa. A descoberta começou em meio a uma grande crise de pânico.

Depois de uma lua-de-mel de quase três anos, em que se dedicou inteiramente ao marido, Nice entrou em depressão. “Adorava deixar tudo limpinho, lindo, e esperá-lo com um bolo delicioso. Com o tempo, porém, o que a gente faz por amor, o outro entende como obrigação, nem vê”.

A rua se estreita. Nice tira uma fina de um carro estacionado. Ela aponta: “veja que fina! Mas sei exatamente o que estou fazendo. Adoro esses desafios.” Manobras complicadas são um dos aspectos do trabalho que ela mais gosta: as subidas íngremes, os espaços escassos, as rés impossíveis. Quanto mais difícil, melhor.

A motorista retoma o papo. “Queria voltar a trabalhar, me sentir útil, mas não sabia o que fazer. Meu último emprego tinha sido como telefonista, cargo em extinção. Uma amiga, então, me perguntou o que eu fazia melhor na vida. Eu sei dirigir”, lembra Nice, com naturalidade.

Mesmo com habilitação categoria “B” encarou um teste na empresa de ônibus em que o marido trabalhava. Foi muito bem. “Tirei habilitação ‘E’ e lá fui eu para a rua. Nos primeiros dias, eu ficava com dó dos passageiros, pensava: coitado desses pobres inocentes! Mas nunca bati ou tive qualquer acidente”, relata Nice, que pilotou um microônibus por quatro anos.

“Prefiro trabalhar na coleta. No ônibus, o risco de assalto era freqüente, e sempre ocorriam tensões entre os passageiros. Aqui não tem isso. É maravilhoso. Quem vai querer assaltar um caminhão de lixo?”.

A motorista sai para o trabalho com mais dois coletores de lixo, “que eu gosto como se fossem meus filhos”. E eles a tem como confidente, contam problemas, escutam seus conselhos sobre como se relacionar melhor com as esposas.

Dos quatros retrovisores de diferentes formatos, ela analisa a quantidade de sacos, se são grandes ou pequenos, e calcula a velocidade ideal para o caminhão.

Os coletores chegam a correr 13 quilômetros por dia. “Tem gente que tem preconceito com a nossa profissão. Mas é um trabalho muito digno e importante. Além do quê, tem muito rapaz aqui que já tem seu carrinho e sua casa”, ela emenda.

As pessoas reagem das formas mais distintas ao ver Nice ao volante. “Certa vez, uma moça fez gesto com a mão, querendo dizer ‘que fedor’. Eu respondi: ainda bem que o lixo fede, se fosse cheiroso, o povo não iria querer jogar fora”.

Ela ri, é muito bem-humorada e declaradamente feliz. “A maioria das mulheres gosta de me ver ao volante. Algumas dizem que eu realizo o sonho delas, que admiram minha coragem. Os homens também se surpreendem, elogiam”.

Nice é muito respeitada pelos companheiros de trabalho. Entretanto, nem sempre foi assim. “Logo quando entrei, eles não botavam muita fé, mas não quero falar disso. Agora, está tudo ótimo”.

Futuro é outro assunto que Nice evita. À moda dos orientais, ela vive o agora. “Perdi duas pessoas muito importantes para mim, o que me ensinou a respeitar o presente. Nunca saio de casa sem dizer ao meu marido que eu o amo. Nunca me despeço de alguém sem antes dizer o quanto ele é importante para mim. Eu sei que pode ser a última vez com aquela pessoa”.

Chegamos ao local onde todo o lixo é depositado. De lá, carretas irão levá-lo para tratamento. Nice volta com o caminhão vazio para nova jornada. Durante todo percurso, ninguém nos viu, nenhum olhar surpreso. Na maior parte das vezes, aqueles que limpam a cidade são invisíveis àqueles que a sujam. Nice nos lembra, da forma mais doce, mais feminina, que o fundamental é mesmo invisível aos olhos.

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