Série Coragem de Dirigir está de volta

Etapa teórica pode ser tão desafiante quanto encarar as ruas
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Andréia Jodorovi
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Depois de longa ausência, voltei ao meu diário de bordo, aqui na WebMotors, para a série Coragem de Dirigir. Meu desafio é aprender a guiar. Nada muito original, não fosse pelo fato de eu temer mais o volante do que as profecias do Apocalipse.

Em parte por auto-sabotagem – já prevista por minha terapeuta da Clínica Escola Cecília Bellina, especializada em pessoas que têm medo de dirigir –, em parte por problemas enfrentados no Centro de Formação de Condutores CFC que escolhi para fazer o curso teórico do Detran, fui empurrando minha meta com a barriga.

Quanto mais etapas eu passo em direção a minha CNH, mais respeito aqueles que tiraram sua habilitação honestamente. O caminho é cheio de obstáculos. Sua coragem e persistência devem começar antes mesmo de enfrentar as pistas.

Saga

Em setembro último, escolhi um CFC próximo ao meu local de trabalho, já para não correr o risco de perder a hora ou outras desculpas que pareceriam perfeitamente justificáveis. O curso é puxado. São 30 horas/aula em que são abordados os seguintes conteúdos: mecânica básica, meio ambiente e cidadania, primeiros-socorros, direção defensiva e Legislação.

Com ânimo de estátua, liguei para agendar meu horário. “Não tem sistema”, a atendente me disse. “Vai ter sistema quando?”, perguntei, sem fazer idéia do que isso significava. Eu precisava de uma previsão para dar à equipe do site WebMotors. Detalhe: o curso sairia por R$ 45.

Por telefone, a funcionária da auto-escola me deu a mesma resposta por quatro semanas: “estamos sem sistema”. Desisti de perguntar nos três meses seguintes. Pode parece muito para alguns. Para mim, no entanto, que achava ser uma desistência definitiva, passou bem rápido.

Na sexta-feira passada, o sistema estava funcionando. Aleluia! Eu poderia começar, segundo me informaram, já na segunda-feira pela manhã, às 7h30, sem pré-agendamento, já que o horário não é tão disputado. “Qual é mesmo o valor?”, perguntei só para confirmar. Pasmem: R$ 90.

Primeiro dia

Ao vivo, achei que a funcionária tinha algo de surreal, perfeita para um filme de David Linch com Luis Buñel. Você, leitor, vai entender por quê.

Na segunda-feira, como combinado, cheguei às 7h15. A recepcionista me perguntou se eu estava agendada.

“Não? Então não vai dar, a sala já esta lotada”.

Diante de minha perplexidade muda, a moça emendou falas cada vez mais estranhas, e com final surpreendente.

“Posso te colocar na semana que vem... pela manhã... cadê o xerox dos documentos? ... Não tem? Então tira ali na frente agora... Se dá tempo? Claro que dá, você começa só próxima segunda, porque tem de esperar formar uma turma nova... Quanto? São R$ 60 mais R$ 10 da apostila: R$ 70. Quando você vai pagar? Ué, agora. Seu curso começa daqui a pouco...”

Limitei-me a dizer “sim”. Há momentos na vida em que só precisamos estar de acordo. Esse era um deles. Olhei ao redor, todos os alunos, talvez por causa do horário, exibiam expressão de quem caminha para o matadouro.

Na sala, acima dos 30 anos, só eu. Fazia tempo que eu não via tantos rostos com espinha num mesmo lugar. Esse fato não me abateu tanto quanto algumas lâmpadas da sala que, sabe-se lá porque cargas d’água, não funcionavam. Além do mais, o local ainda não estava limpo. Ficamos mais alguns minutos aguardando o término da faxina. A aula começou apenas às 8 horas.

Segundo dia

Confiante na flexibilidade de horário da auto-escola, cheguei 15 minutos atrasada. Adivinha? Não pude entrar. “O importante” – a recepcionista me orientou – “é imprimir a digital no horário certo”. Pareceu-me que, depois de colocar a digital, é indiferente a hora que o aluno entra na sala. Precisei respirar fundo. Principalmente porque, para remarcar a aula, tive de desembolsar R$ 30.

Na sala, o professor passou bom tempo cutucando as lâmpadas com um pedaço de vassoura. Os alunos achavam graça. Esse é o lado bom de estudar com adolescentes. Eles acham graça de tudo, e o riso acaba contaminando. Quatro horas depois, fica automático: se alguém tosse, você ri.

Tanto os candidatos que estão começando quanto os que estão no último dia, ficam na mesma turma. Um simulado reservado aos alunos que estavam terminando o curso. Aos novatos, o professor aconselhou que lessem a apostila.

Por falar nela, prepare-se: a redação do Manual de Formação para Condutores é de difícil entendimento. O texto foi elaborado por uma psicopedagoga. Nada contra os psicopedagogos, mas, talvez, o texto ficasse mais claro e fácil se fosse editado por um jornalista. Há passagens tão ambíguas que só fazendo uso da intuição para decifrá-las. Isso, sem contar os erros gramaticais e do gabarito.

Mais surpreendente, entretanto, foi o vídeo de primeiros-socorros. Soube que é desatualizado porque na sala há duas enfermeiras e um biomédico. Eles protestaram contra alguns métodos. O professor concordou, explicou que o vídeo é antigo, mas nos conselhou decorar as instruções, ainda que equivocadas. “São essas as consideradas corretas na prova oficial”.

Ficamos chocados. Então os motoristas brasileiros estão aprendendo errado? Polemizamos, mas ficou claro que não há muito a ser feito será?, ao menos por nós.

Siga

A maioria dos jovens não tem medo de dirigir. Ao contrário, sentem-se invencíveis, imortais. Estão ansiosos para pegar o volante e aproveitar a liberdade, o status e outras conquistas atribuídas ao carro. Por isso, as falas de alerta do professor não me chocaram tanto. E espero que não choquem você também. “Dirigir mata”, “vocês podem morrer”. E exibe uma foto de um cérebro no chão, resultado de um acidente de carro. Ressalta: “esse cérebro poderá ser seu!”

Para os que, como eu, têm adiado o momento de tirar a permissão para dirigir, um alento: as dificuldades despertam uma agressividade positiva. Agora, ir até o fim desse processo virou questão de honra.

Espero ter a sua companhia! Até a próxima quarta-feira.


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