Viva Melhor no Trânsito – Confira 3ª reportagem da série

Entrevista: Renato Janine Ribeiro discute ética no trânsito
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Adriana Bernardino
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- Professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo, Renato Janine Ribeiro fala com exclusividade à WebMotors sobre uma questão muito defendida, mas pouco compreendida e nem sempre aplicada: ética no trânsito.

Em vez de seguir um guia sobre o que é ser bom ou mau, Janine defende que redescobrir os próprios valores e se responsabilizar pelas escolhas que deles derivam são práticas essenciais ao exercício da ética não só trânsito, mas em qualquer outra situação da vida.


WebMotors - O que podemos entender por ética no trânsito?

Renato Janine Ribeiro - A ética não é diferente num campo ou noutro. Podemos dizer que um princípio básico dela é respeitar o outro como igual. Isso vale no trabalho, no trânsito, na amizade, no amor, no conflito. Não é fácil.


WebMotors - De que forma a ética pode nos ajudar a conviver melhor?

Renato Janine Ribeiro - Ensinando a respeitar o outro, a não fazer com ele o que não gostaríamos que fizessem conosco.


WebMotors - Você contesta uma ética do certo ou do errado, e defende a importância de as pessoas enunciarem seus próprios valores. Em sua opinião, o que dificulta essa enunciação no que se refere ao trânsito?

Renato Janine Ribeiro - Precisamos distinguir regras e ética. O trânsito tem regras, que objetivam fazer as pessoas conviverem com o mínimo de conflito, de danos, de mortes. Esta finalidade é altamente ética. Mas pode acontecer que você precise violar uma regra ou lei em nome de um bem maior. Por exemplo, se estiver transportando uma pessoa com uma emergência de saúde, ou se um sinal estiver fechado de madrugada num lugar perigoso, tem sentido desrespeitar a regra em nome de um valor mais alto. Mas, mesmo assim, você precisa olhar bem para ver se não vai bater em outro carro, atropelar alguém etc. A escolha pessoal entra nestes casos, que são exceção, mas que são importantes.


WebMotors - Visto que muitas pessoas nem imaginam que podem questionar o próprio modo de agir ou discordar do que aprenderam, que caminho, exercício de pensamento, podemos fazer para descobrir os próprios valores e assumirmos as responsabilidades de nossas escolhas?

Renato Janine Ribeiro - O grande exercício é o do dilema. Faça as pessoas verem uma situação em que dois valores morais importantes estão em conflito. Por exemplo, uma criança com fome o direito à vida e a mãe que furta um pão o direito de propriedade. Por incrível que pareça, embora nossa lei não penalize o “furto por necessidade”, há mulheres que passam mais de um ano presas porque furtaram sem uso de violência um biscoito para comer. Mas este é um caso de valores em conflito. Acho que somente pensa eticamente quem já viveu, real ou imaginariamente, a experiência de ter que escolher entre dois valores. A ética seria muito fácil se fosse só uma tabela de certo e errado.


WebMotors - Ninguém quer tomar uma fechada ou se surpreender com um veículo na contramão. Entretanto, pelo número de multas e acidentes de trânsito, sabemos que muitos autorizam a si mesmos a pequenas ou grandes infrações. Como pensar essa distância entre ter valores e princípios e ser coerentes com eles?

Renato Janine Ribeiro - Geralmente, queremos que os outros sigam a lei à risca enquanto nós só a respeitamos como um indicador distante, mas não ao pé da letra. O trânsito é o exemplo mais cabal de um desrespeito ao outro que está presente em toda a nossa sociedade. Mas é possível que, com a integração cada vez maior dos antigos excluídos na sociedade, isto é, o fato de que cada vez mais pobres passam a ter carro, celular etc., com a ampliação da classe média definida não pelo dinheiro, mas em termos simbólicos, esteja obrigando as pessoas a exigir mais respeito umas às outras. Isso pode ser muito positivo.


WebMotors - De que forma somos vítimas de nossas próprias atitudes antiéticas?

Renato Janine Ribeiro - Um exemplo típico, mas que se reduziu nos últimos anos, era fechar o cruzamento. Você coloca o carro no meio do cruzamento e, quando o sinal fecha para você, impede os carros na outra rua de trafegar. Não leva vantagem nenhuma com isso, mas causa um monte de desvantagens. Isso diminuiu, com forte campanha. Mas continua havendo a ultrapassagem pelo acostamento, o uso de vias proibidas e tudo o mais. Também acho que faltam campanhas educativas, policiamento sobretudo nas estradas e, além disso, bom senso. Nossa lei faz perder a carta quem completa 20 pontos, mas se fosse aplicada mesmo quase ninguém ficaria com a carta. Não seria melhor ter uma lei menos severa, mas aplicada para valer?


WebMotors - Você diz que “quando o conforto é negado a quem se vale do ônibus, ter um carro se torna distintivo do cidadão”. O que é um distintivo? Por que precisamos de um?

Renato Janine Ribeiro - Em quase toda sociedade, muitas pessoas procuram se distinguir. Pode ser que queiram sobressair, pode ser apenas que queiram ser diferentes. A tatuagem pode ser uma forma de me diferenciar sou jovem, não sou conservadora e pode ser um jeito de eu me destacar sou mais bonita que as outras. Numa sociedade competitiva como a nossa, os distintivos são modos para muitas pessoas se dizerem melhores que as outras, superiores. Há pessoas que querem o carro só pelo conforto, mas outras também o querem para exibição. É esse o caso.


WebMotors - Com as atuais facilidades para comprar um carro, como você imagina que a elite procurará se diferenciar no trânsito?

Renato Janine Ribeiro - O mercado oferece a cada dia carros mais caros. E é curioso que os carros bons do passado acabem indo para a periferia. O Galaxy foi um carro de muito luxo nos anos 70. Os que sobraram deles estão, hoje, nos bairros bem pobres. É a mesma coisa com a moda. Quando o povão adota um estilo, os mais ricos procuram se diferenciar dele, mudando a moda.


WebMotors - Recentemente, a Folha de S.Paulo publicou matéria sobre um advogado que tirou licença falsa de taxista para usar o corredor de ônibus e estacionar com facilidade em determinados pontos. O sujeito, que trafega com motorista particular, culpa o trânsito caótico por sua iniciativa. Como pensar, do ponto de vista ético, tal comportamento?

Renato Janine Ribeiro - É indecente. O trânsito caótico afeta a todos. "Quem ele pensa que é?", perguntaria um norte-americano, para se julgar melhor que os outros? É uma covardia resolver privadamente um problema que afeta a todos só porque tem dinheiro a mais e consciência a menos.

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