Governo atende as fabricantes, mas ignora o consumidor

Alteração nos impostos mais prejudica do que estimula a indústria nacional
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Rodrigo Ribeiro
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– O governo fcaptional publicou nesta sexta-feira 16 uma alteração na taxação dos carros importados. Segundo o decreto N°7.567, qualquer carro vendido no Brasil com até 1.000 cm³ de cilindrada que não tenha 65% de nacionalização pagará IPI Imposto sobre Produto Industrializado de até 37%. Os que têm entre 1.001 cm³ até 2.000 cm³ agora pagam entre 41% e 43% de imposto, contra 11% a 13% cobrados até ontem. Veículos importados com mais de 2.000 cm³ sobem de 18% a 25% de IPI para 48% a 55%. Carros feitos na Argentina e no México estão isentos da novidade, que durará até dezembro de 2012.

A medida foi feita, segundo o governo, para proteger a indústria nacional. Só que ninguém no planalto responde uma dúvida: se querem estimular as montadoras sediadas no Brasil, por que carros vindos de outros países não estão inclusos na mudança?

A resposta não oficial está nos números de venda: os carros importados estão vendendo cada vez mais, principalmente os modelos mais baratos. Com conteúdo e tecnologia equivalente ou superior ao de modelos nacionais, os estrangeiros vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado e nas garagens dos brasileiros.

Incomodada, a Anfavea iniciou um série de conversas com o governo pleiteando por vantagens fiscais. Os ministros acenaram com a possibilidade de mudanças, mas apenas se as fabricantes investissem em novas tecnologias made in Brazil. Oficialmente a associação afirmou ser favorável à contrapartida, mas a realidade mostrou-se bem diferente, chegando ao ápice da alteração fiscal publicada hoje no Diário Oficial da União.

Contrassenso
Se a Anfavea é a favor da inovação e desenvolvimento de novas tecnologias no Brasil, por que fábricas como Ford, Volkswagen, Fiat e Chevrolet importam modelos de alto valor agregado do México? Por que não investir na produção nacional do New Fiesta, Jetta, Freemont, 500 e Captiva? A resposta é a de sempre: custos.

Pois bem, se é caro fazer carro desenvolvido no Brasil, importemos de outros países, certo? Geram-se menos empregos no Brasil, mas a empresa continua com sua operação nacional rentável. Mas pelo visto só as associadas da Anfavea podem fazer isso. Trazer carro do México pode, da Coreia do Sul e da China, não.

O curioso é notar que essa medida veio logo após o início das vendas de modelos de alto volume da Chery, JAC e Kia. Só a JAC vendeu quase 15 mil carros nos oito primeiros meses deste ano. Um número louvável para a fabricante chinesa, mas insignificante perante as centenas de milhares de carros que chegam do México e da Argentina todos os anos pelas mãos da Anfavea. Isso sem contar que o número é inferior ao que as quatro maiores fábricas de carros do Brasil produzem por dia.

Nessa luta desleal, quem mais sai perdendo é o consumidor, que deixará de ter a venda carros completos com o mesmo preço dos similares nacionais. É interessante notar que dois prejudicados, JAC J3 e Kia Picanto, disputam mercado com o Fiat 500 – só que este último não será afetado pela alta nos impostos.

Outra dúvida: se a medida é para proteger nossa indústria e nossos empregos, o que fazer caso as importadoras comecem a ter prejuízos e demitam seus funcionários no Brasil? E se essa medida arrefecer um possível desejo de uma importadora de abrir uma fábrica no Brasil como as “vilãs” JAC e Chery vão fazer? Os funcionários da Kia podem ser demitidos caso haja prejuízo, mas os da Fiat, não?

Conceito defasado
O fato é que as fabricantes com produção nacional não estão gostando do rumo que o mercado está tomando. Optou-se por mudar as regras do jogo, uma tática que já se mostrou ineficaz nos mais de 15 anos em que a importação de carros ficou proibida no Brasil. Nesse período a indústria nacional ficou estacionada no tempo, onde as fabricantes às vezes tinham como maior novidade uma nova gama de cores no ano-modelo seguinte.

A dita “invasão” dos carros sul-coreanos e, principalmente, chineses, mesmo não sendo uma grande ameaça perante as fabricantes com plantas no Brasil, poderia ser uma oportunidade para que se investisse em produtos mais modernos e alinhados com o que há lá fora – como a Chevrolet acaba de fazer com o Cruze. Mas pelo visto a Anfavea optou por perder essa chance ao continuar reclusa nas ideologias do século passado.

E você, o que acha dessas medidas? Mande sua opinião para editorial@webmotors.com.br ou para nosso twitter @webmotors!

Rodrigo Ribeiro é repórter do site WebMotors

As opiniões expressas nesta matéria são de responsabilidade de seu autor e não refletem, necessariamente, a opinião do site WebMotors.
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