A OPEP esconde o leite?

Preços sobem, mas a explicação é outra: reservas estão no fim
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Cezar Aguiar
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- Petróleo beirando os US$ 80 o barril e ameaçando subir em disparada! Conflitos e tensões no Oriente Médio e na Ásia Ocidental, muito fanatismo e a "guerra contra o terror" são apontados como causa, mas nada disso explica. A razão é outra.

Primeiro fato: Há quem ache petróleo caro. A US$ 80, um barril de 159 litros dá US$ 0,50 o litro. É mais barato por litro do que água mineral vendida em garrafinha. Descontada a inflação do dólar, petróleo vale US$ 7,25 o barril aos valores históricos de 1973. Acredite se puder. O número é da OPEP Organização dos Países Exportadores de Petróleo; OPEC, em inglês, nome do cartel de produtores!

Não é de hoje que analistas do mundo inteiro percebem que nem mesmo as tremendas turbulências no mundo árabe têm tido qualquer efeito notável nas cotações. Por ora, existe petróleo à venda para quem paga. Mas as preocupações sobre disponibilidade futura não param de aumentar, porque é indiscutível que não estão sendo feitas novas descobertas de vulto nas jazidas naturais, enquanto o consumo cresce exponencialmente. A Natureza detesta curvas exponenciais.

E para complicar ainda mais as coisas, é líquido e certo que o esgotamento das reservas está sendo mais rápido do que se supunha. China, Rússia, países do Leste da Europa, e até nações da América Latina e África estão se desenvolvendo a passos largos; e crescimento econômico - e populacional - são movidos a petróleo. Sinais de alarme soam a cada vez que a OPEP publica seus balanços anuais, porque tem "dente de coelho" nos números sobre as reservas. Há quase um ano, a Agência Internacional de Energia AIE publicou seu relatório bienal cobrindo o período 2004 a 2030. Lá está escrito que “os riscos para a segurança energética aumentarão muito, em curto espaço de tempo”.

Em 31 de janeiro deste ano, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, em seu discurso sobre o Estado da União, em meio aos habituais apelos sobre segurança nacional acrescentou um tempero novo, afirmando que "os EUA precisam reduzir sua dependência de hidrocarbonetos importados e que devem começar a pensar em ir além do petróleo". Citou a Brasil como um exemplo para a humanidade por ter avançado no uso da biomassa e hidroeletricidade.

Segundo fato: É óbvio que a situação mudou dramaticamente nos últimos cinco anos. A volta do Iraque ao balcão de negócios de petróleo foi breve e insustentável, porque o país mergulhou no caos, que causou uma baixa na produção de petróleo de 3 milhões para perto 1 milhão de barris/ dia. Parece pouco, mas não é, pois o Iraque era um dos principais exportadores do produto.

As instabilidades e a demanda exacerbada acabaram por elevar o valor do barril de quase US$ 25 em 2002, para US$ 52 em 2005, e a se estabilizar numa faixa entre US$ 70 e 75 no primeiro semestre de 2006.

Diferente das crises de 1973/74 e de 1979-80, essa alta nas cotações nada tem a ver com algum embargo ou iniciativa da OPEP de manipular preços. A produção mundial vem crescendo em torno de 1,5% ao ano, como média histórica desde 1992. Já a demanda mundial aumenta a mais de 4% ao ano. Em 2005 bateu o recorde de 82 milhões de barris por dia. Em apenas três anos, o mundo passou a consumir 5,5 milhões de barris diários adicionais que não estavam nas contas de ninguém. A China teve um crescimento espantoso em sua demanda por petróleo, com um salto de 7,6% em 2003 e 15,8% em 2004. E o crescimento continua bem alto e firme.

Aí começou a entrar areia nas explicações evasivas dos produtores de dentro e de fora da OPEP. Com tais preços, os produtores começaram a extrair até ao limite de suas capacidades, chegando a reabrir poços já fechados, como os do Texas. Todo mundo extraindo tudo o que pode...

Terceiro fato: Não há como obter mais petróleo a curto prazo para um mundo, no dizer de Bush, "viciado" nessa matéria-prima fundamental. E nesse nível de demanda, começa a se sentir uma forte sobrecarga nas capacidades mundiais de refino e de transporte, sendo isso - e nada além disso - que está alimentando a espiral ascendente dos preços.

As estimativas disponíveis sobre a demanda de petróleo, notadamente do Departamento de Energia dos Estados Unidos DoE, publicada discretamente, e outra da AIE, coincidem num dado: haverá aumento de cerca de 50% no nível mundial de consumo durante os próximos 25 anos. O DoE aposta em 115,4 milhões de barris por dia, a AIE vai mais alto, 131,3 milhões. Há pouco a Chevron Texaco publicou um anúncio bem fundamentado, mas alarmante. Ele simplesmente diz que o mundo levou 125 anos para consumir o primeiro trilhão de barris de petróleo, mas que nos próximos 30, consumirá mais um trilhão. Por que alarmante?

Quarto fato: Dois trilhões de barris não são um número qualquer. Explico: é simplesmente o equivalente ao total das reservas "comprovadas" tal como conhecidas até hoje. Analistas de todas as nações começaram a ter urticária. Como e a que custo pode o mundo responder a essa brutal escalada na demanda? E obviamente começou uma enorme quantidade de indagações sobre a confiabilidade dos números existentes sobre as estimativas das reservas. Outra turma anda de olho nas reais e intransponíveis impossibilidades de aumentar nessa mesma escala a capacidade de produção e refino.

Tais suspeitas não são novas. Quem lida com o assunto sabe que as reservas estão sob vigilância obsequiosa desde os anos 1980. Foi quando os países do Golfo Pérsico realizaram, um após outro, reavaliações tão espetaculares quanto estranhas de suas reservas "oficiais", sem que houvesse qualquer respaldo em novas descobertas ou na tecnologia de extração. A tabela abaixo mostra algumas delas:


País/RegiãoÉpoca/AnoReservas em Bilhões de Barris De
Reservas em Bilhões de Barris Para
Emirados Árabes Unidos1985/8633,997,2
Arábia Saudita1988169,6254,9
Iraque198132,165,3
Iraque198365,3115,9
OPEP1983/88470,6764,4
OPEP2005764,4896,6


Algumas revisões podem ter motivos técnicos, como o início de operação de novas províncias e campos de produção. Podem também ser resultado de novos métodos e processos de sondagem sísmica, extração e recuperação de poços considerados marginais em termos econômicos. Mas algo tão espetacular encontra outra explicação mais simples: os países-membro da OPEP tinham suas cotas de produção estabelecidas em função das respectivas reservas. E na maioria dos casos tais reservas são controladas por companhias estatais, imunes a qualquer controle ou auditoria externa. As reservas "comprovadas" da OPEP são 400 bilhões de barris mais elevadas que as análises independentes.

Há um termo sarcástico que analistas usam para explicar essa súbita prosperidade petrolífera: "barris fictícios", e a diferença beira os 44% do total das estimativas oficiais da OPEP. Quem se der ao trabalho de ler os relatórios oficiais, notará que os números publicados permanecem inalterados durante longos períodos, como se cada barril extraído fosse imediatamente substituído por um novo, descoberto no exato instante. Exemplo: o Kuwait manteve intacta de 1991 a 2002 a cifra de 96,6 bilhões de barris, como reservas comprovadas, apesar de uma extração também comprovada de 8,4 bilhões de barris nesse período. Questionados sobre a mágica, altos funcionários disseram que as reservas deles "são uma mescla de reservas comprovadas, prováveis e possíveis", mas que, "se considerarmos somente as tecnicamente comprovadas, o volume é de 48,2 bilhões"...

Outro exemplo: o volume das reservas comprovadas da Fcaptionação Russa permanece vago. Há fortes dúvidas sobre os números e o método usado para avaliá-las. Analistas acham que 30% a 40% do total, de 72,3 bilhões, são dos tais barris fictícios.

Nas grandes multinacionais de capital aberto a situação não é diferente. Só que a transparência exige malabarismos sofisticados, pois elas são controladas pelas bolsas, pelas comissões de valores mobiliários e mais ainda pelos grandes acionistas. Vejamos o caso da Shell. Com fortes quedas verificadas nas jazidas, em Omã, e outras perdas comprovadas pelo mundo afora, a companhia teve de declarar, em janeiro de 2004, que suas reservas "estavam superestimadas em um terço". Logo em seguida, a americana El Paso anunciou um revisão para baixo de 11,3% em suas reservas. E agora, em janeiro, a espanhola Repsol-YPF reduziu suas supostas "reservas" em 25% do que alardeava antes. E como já havia acontecido com a Shell, a companhia enfrenta uma avalanche de ações judiciais para ressarcimento por parte de seus acionistas.Quinto fato: As reservas mundiais podem ser e muito provavelmente são de fato menores do que as anunciadas.

Quem está de olho nos números sabe que há 20 anos o mundo extrai mais petróleo do que descobre. Isso envolvendo uma matéria-prima totalmente vigiada. O que andam fazendo as multinacionais já em dificuldades práticas para manter seus níveis de produção? Compram ativos de outras empresas. A Chevron Texaco, que haviam se fundido por esse motivo, comprou a Unocal, também americana. Sem isso, a Chevron Texaco teria de reavaliar seus ativos para baixo entre 55% e 60%.

Sexto fato: A produção de alguns países anda caindo, porque a extração se torna mais difícil e - sim - as reservas se esgotam. Petróleo não é cana-de-açúcar cuja plantação dá uma safra nova por ano. Petróleo dá uma safra apenas, e só. Aberto um novo poço, o esgotamento da reserva começa e não pára mais. Países que eram exportadores líquidos de petróleo já mudaram de lado no balcão e agora andam importando. Quais? Indonésia, Egito, Tunísia e Estados Unidos, fora aqueles na iminência de fazê-lo como Gabão, Omã e Síria.

No México, um estudo da Pemex, de 2005, alertava para o risco de declínio na extração muito mais cedo do que se imaginava, principalmente na província de Cantarelli, que com 2 bilhões de barris, representa 60% do total de exportação do país. No Mar do Norte, um estudo da AIE prevê o declínio das reservas de 6,6 bilhões 2002 para 4,8 bilhões 2010 e apenas 2,2 bilhões em 2030. No Kuwait, as antigas jazidas de Burgan e Raudhatain, que beiram os 67% da produção do país, começam a dar sinais de esgotamento. Um plano destinado a resolver esse enrosco patina há 10 anos envolto em mistério.

Não é à toa, portanto, que líderes mundiais andam falando em insegurança de abastecimento. E tomando posição para controlar por bem ou por mal os lugares onde se produz petróleo. E também rotas marítimas e terrestres que ligam os centros de produção e os de consumo. Já faz tempo que ninguém do Oriente Médio fala em embargo. O que vai perturbar o abastecimento do petróleo no futuro será um conflito econômico, porque os preços vão causar gravíssimos problemas nos países importadores/consumidores, o que pode terminar em guerras como vemos hoje na televisão.

Com tudo isso, cenas como Hugo Chaves fazendo bravatas e comprando armas na Rússia; Evo Morales confiscando propriedades das petroleiras; e Lula com a Petrobrás anunciando uma tão discutível quanto efêmera "auto-suficiência" são somente um prenúncio caricato.

Sétimo fato: Antigamente havia possibilidade de diversificar fontes. Mudava-se de fornecedor e pronto. Agora não. Com o petróleo cada dia mais caro e raro, sem que existam previsões confiáveis sobre reservas comprovadas, e sem poder pressionar os produtores para manter a segurança do abastecimento, a instabilidade é um fato inexorável.

Em 5 de abril último, o presidente francês Jacques Chirac expressou: "Sejamos todos bem-vindos ao fim da era do petróleo”. Pena que ele não disse o que vem depois. Todos gostaríamos de saber!
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Cezar de Aguiar, físico, foi presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, por quatro mandatos não-consecutivos, e vice-presidente mundial da Fisita - Fédèration Internationale des Ingénieurs des Techniques de l´Automobile. É presidente da Tecknowledge International, transnacional especializada em tecnologia automotiva, ambiental e energética.
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