Vôo de galinha

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Fernando Calmon
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- As perspectivas de curto prazo são boas para o negócio automobilístico. O consumidor não está se atirando às compras, mas continua freqüentando as concessionárias com razoável ímpeto.

Os dados de licenciamento de novos veículos na primeira quinzena de setembro comprovam que o mercado continua crescendo mês a mês, sem ilusões quanto aos números entusiasmadores em relação ao ano passado, quando agosto e setembro foram bem fracos. Esta semana a Fiat também anunciou mais trabalhadores nas linhas de montagem de automóveis, seguindo a tendência já demonstrada por Volkswagen, GM e Ford.

A prova de fogo ocorrerá até o fim do mês pelo reflexo do aumento de juros básicos da economia. Tudo indica que, na loja, o consumidor deverá pagar as mesmas prestações de antes. As taxas dependem também da capacidade dele honrar os compromissos e o crescimento do emprego tem garantido a diminuição da inadimplência. A questão central é se o Brasil reúne condição de manter o desenvolvimento sustentado no período crítico 2005-2010, se poderá diminuir a capacidade ociosa atual das fábricas de veículos e, principalmente, se está preparado para enfrentar a concorrência crescente na área de exportações por parte de outros países.

Na semana passada, um seminário realizado em São Paulo, SP pela Editora Autodata discutiu o tema em profundidade. Na realidade o Brasil tem boas vantagens competitivas pelos investimentos já feitos, o parque diversificado de produtores de autopeças e, em especial, uma força própria em engenharia e estilo que concorrentes invejam, segundo admitiu Rogelio Golfarb, presidente da Anfavea. No momento, o favorito na disputa por investimentos é a China, seguida por países da Europa Oriental de mão-de-obra qualificada e barata, destacou David Wong, da consultoria Booz Allen Hamilton. Mas os chineses representam um ambiente meio caótico com 48 fábricas de automóveis e 169 de caminhões, além de fornecedores pulverizados e pouco organizados. Nesse caso, viva o Brasil, pois lá ainda se fazem pedidos por fax.

Existe preocupação quanto à continuidade de escassez pontual de certos componentes, os chamados gargalos de produção. Eles prejudicariam a meta de chegar aos 2 milhões de veículos no mercado interno em 2007, de fato apenas um retorno ao número alcançado exatos dez anos atrás. Resposta bem-humorada de Cledorvino Belini, superintendente da Fiat: “Tudo se resolve com mais gargalos, ou seja, que levem ao crescimento e ao aumento da confiança para investir.” Essas condições, no entanto, estão por ser garantidas, em especial por incertezas na infra-estrutura de transportes e até de energia.

Se a falta momentânea de peças e pneus acaba resolvida por acertos de preços entre as partes e deslocamento do superabastecido mercado de reposição, o que mais traz inquietação é a decisão das matrizes de quase nada investir na atualização de plataformas. Isso levaria a uma crescente desatualização dos carros brasileiros. Claro que a criatividade pode contornar em parte o problema, porém longe de solucioná-lo.

George Rugitsky, do Sindipeças, arrancou risos da platéia de 300 participantes. “Se a economia brasileira não se livrar do vôo de galinha dos últimos tempos, com espasmos de crescimento para logo voltar ao chão, nada se resolverá.” A entidade, no entanto, aposta que pelo menos em 2005 a produção crescerá no mínimo 8%. É um bom começo.

RODA VIVA

DESCONFIANÇA se transformou em certeza. GM e Fiat seguirão caminhos diferentes em relação à Europa na substituição dos atuais modelos compactos Corsa e Palio Punto, na Itália em 2007. No Brasil, além da menor necessidade de plataformas tão sofisticadas como as européias, o acirramento na disputa entre as duas marcas é bem mais profundo e visível.

MESMO na Europa Ocidental parece agora pouco desprezível o mercado de carros compactos baratos. Renault confirmou que o Dacia Logan, de sua subsidiária romena, será vendido em 2005 em uma versão incrementada. O carro de 5.000 euros R$ 18.000,00, considerado lá um feito tecnológico, custará 50% a mais nos países ricos do continente. Sinal dos tempos.

ESTIMULAR os jovens a pensar mais sobre riscos de beber e dirigir levou a seguradora Porto Seguro a reeditar, pelo segundo ano, o Dia de Alerta Sobre Uso Excessivo de Álcool nas Universidades. Iniciativa de grande mérito inclui adesão voluntária de estudantes da Universidade de São Paulo aos testes. Efeito progressivo do álcool é devastador.

OPERAÇÃO modesta do menor fabricante coreano, Ssangyong, firma-se no difícil mercado brasileiro pela escolha de produtos adequados. Três marcas japonesas, por exemplo, já desistiram. Importador apostou certo na pickup de cabine dupla Musso 4x4 com motor diesel Mercedes originado de antigo acordo técnico. Versão 2005 do SUV Rexton estará no Salão de São Paulo.

PARA driblar fiscalização, instaladores de películas escurecedoras vêm aplicando filmes com selo de conformidade e, em seguida, mais uma camada para tornar o conjunto menos transparente. Quanto à segurança clássica de ver e ser visto, importa mais o modismo irresponsável.
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E-mail: fernandocalmon@usa.net

Fernando Calmon, engenheiro e jornalista especializado desde 1967. Sua coluna semanal Alta Roda é publicada, desde 1999, em onze jornais brasileiros e no site WebMotors. Assina as colunas Direto da Fábrica na revista Carro e Roda Viva na revista Jornauto. Correspondente para América do Sul do site americano The Car Connection. Diretor editorial das oito revistas automobilísticas da On Line Editora. Consultor técnico, de mercado e de comunicação.

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