Coluna do Tite: as lições da pista

Não é só em tecnologia que o motociclismo ajuda
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Geraldo Simões
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– Um velho professor de sociologia e antropologia costumava maldizer as corridas de Fórmula 1, sempre com a justificativa de que “não acrescenta nada em nossas vidas”. Pelo menos não no aspecto sociológico, mas certamente se este professor já se acidentou de carro pode estar vivo só por causa da Fórmula 1.

Muitos dos itens criados e testados na F-1 foram trazidos para os carro de rua e funcionam até hoje. Estruturas deformáveis, materiais mais levres, pneus mais aderentes são alguns dos itens que saíram das competições para as ruas.

Nas motos não é diferente. Muito dos desenvolvimentos que hoje estão nas motos, especialmente os pneus, foram desenvolvidos nas competições on e off-road. Os motores ficaram mais leves e resistentes, além de econômicos. Os quadros também ganharam em rigidez, baixo peso e materiais mais nobres. Todo aprendizado nas competições volta de alguma forma para as duas.

Com a pilotagem é exatamente a mesma coisa. Muitas das técnicas de competição podem e devem ser usadas largamente nas ruas e estradas. Normalmente os motociclistas que passaram pela experiência de competir em qualquer modalidade adquirem muita habilidade para pilotar também no cenário urbano.

Nas modalidades de asfalto, por exemplo, a lição mais transferida das pistas para as ruas é o equilíbrio na frenagem, aliada à capacidade de análise da situação. Em corridas é “fácil” frear porque a pista é sempre a mesma, mas nos momentos de ultrapassar – e evitar ultrapassagens – é preciso alterar a frenagem, modulando a potência para adiantar ou atrasar o ponto de frenagem. Essa sensibilidade ajuda muito a evitar frenagens desesperadas e até desnecessárias quando se pilota nas ruas e estradas.

Da mesma forma, aprende-se logo cedo a descobrir os limites de inclinação nas curvas, sentindo como os pneus reagem. A sensibilidade adquirida em competições nunca se desliga do motociclista. Quando pilotamos fora das pistas conseguimos traduzir todas as reações da moto como se fosse um diálogo constante. Um motociclista tradicional pode não ter o treinamento para “ouvir” o que a moto quer dizer.

De todas as lições das pistas a mais valiosa é dominar a moto com piso molhado. Não pensem que os pilotos adoram correr na chuva. É tão ruim e arriscado que ninguém torce para o domingo amanhecer nublado. Comigo não foi diferente: não gostava muito de pilotar no molhado até que fui obrigado a fazer uma prova de 24 horas debaixo de chuva com uma moto de quase 200 cavalos! Depois dessa jornada piso molhado nunca mais me intimidou!

Da mesma forma que os reflexos ficam mais rápidos e até condicionados, conforme a situação, com as escorregadas e derrapadas no limite da aderência, o piloto aprende a controlar as emoções, especialmente o medo. Depois de quase cair várias vezes em treinos e corridas, uma situação semelhante na rua não assusta mais e pode ser controlada sem ansiedade. E mesmo os tombos, tão frequentes nas corridas e treinos, deixam de meter medo nas ruas. Aliás, não é segredo que saber cair reduz muito a gravidade das lesões.

Para quem pratica fora-de-estrada as lições são muitas e aplicáveis no dia-a-dia de qualquer motociclista. As modalidades off-road, especialmente rali e enduro, oferecem a oportunidade de aprender a dominar a moto em qualquer condição de piso. A maior aula do fora-de-estrada é versatilidade, porque o piloto precisa correr em estradas de terra, mas com coeficientes de aderência variáveis a cada curva. Em uma prova de enduro, por exemplo, o piloto larga sem conhecer o terreno previamente e precisa ser o mais rápido possível em saber se na próxima curva o piso é de terra, areia, pedra ou lama! Muitas vezes só se descobre quando já está em cima.

Essa capacidade de se adaptar a qualquer situação em fração de segundo dá aos pilotos de fora-de-estrada uma sensibilidade e capacidade de improvisação muito grande. Depois de aprender a controlar as derrapagens, qualquer situação parecida no asfalto será muito mais fácil de corrigir. No asfalto o coeficiente de aderência é bem maior.

Sempre defendi que um bom motociclista precisa passar pela experiência fora-de-estrada, não necessariamente em competição. E a confirmação desta tese é que a maioria dos grandes pilotos de motovelocidade treinam em pistas de terra para se acostumar mais rapidamente às variáveis de aderência. Em piso asfaltado geralmente a aderência é uniforme, mas quando o piloto exagera na inclinação em curva a moto derrapa. Se não estiver condicionado, a reação pode ser até frear, algo totalmente contra-indicado. A correção é feita no contra-esterço, situação tão comum no fora-de-estrada que o piloto corrige automaticamente. É este adestramento que os pilotos buscam ao treinar no piso de terra.

Ninguém precisa começar a fazer trilhas amanhã, mas quem passou pela experiência sabe do que estou comentando. A sensação de perceber um buraco ou uma ponte em desnível a poucos metros, correndo a 90 km/h na terra faz o motociclista aprender rapidinho o significado da expressão “gerenciamento de risco”. Depois de passar por isso dificilmente uma fechada na rua causará pânico.

Velocidade de raciocínio, objetividade nas decisões e controle são as grandes lições que tiramos da experiência das competições. Não precisa se inscrever para um campeonato amador, mas acompanhar, assistir e se interessar pelas modalidades de competições motociclísticas já ajuda a aprender muita coisa!

As opiniões expressas nesta matéria são de responsabilidade de seu autor e não refletem, necessariamente, a opinião do site WebMotors.
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Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

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