Desafio: reduzir 50% de acidentes em 10 anos

Por dia, 3,5 mil pessoas morrem no trânsito em todo o mundo
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Geraldo Simões
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A ordem veio de cima. Bem de cima. Lá na ONU – Organização das Nações Unidas – por meio da OMS – Organização Mundial da Saúde. Em março de 2011 foi lançada a campanha em caráter mundial pela redução em 50% nas vítimas fatais de trânsito em todo o mundo na década que se encerra em 2020. Contra essa estatística pesa uma outra ainda maior: o crescimento das economias emergentes colocarão mais veículos motorizados nas ruas. Como colocar esse plano em prática?

Os números são assustadores: hoje 3.500 pessoas morrem por dia no trânsito em todo o mundo. Não precisa ser muito genial para saber que quanto menos desenvolvido o país, maior o número de acidentes. Então já se tem aí um dado para começar: instrução reduz o número de vítimas. Ou, se preferir uma visão mais otimista, quanto mais educada é uma sociedade, melhores são os motoristas e entenda-se por “motorista” todo condutor de veículo motorizado, incluindo motociclistas.

Com base nessa aparente óbvia constatação veio a mais elementar das conclusões: para reduzir o número de acidentes é vital melhorar a qualidade dos motoristas, seja por meio de melhores instrutores, seja na educação de base. Em suma, toda a sociedade terá de se empenhar para melhorar os motoristas não apenas na formação técnica, mas como cidadão!

E aí a OMS bateu na velha e conhecida tecla da EDUCAÇÃO. Não apenas na educação formal, mas na educação cidadã. A ONU está de olho não mais neste motorista que já está nas ruas, mas naqueles que serão formados nos próximos 10 anos. O motorista que completar 18 anos em 2020, hoje está com oito anos. É neste pequeno ser que estão projetadas as esperanças pela redução nas vítimas de trânsito.

E no Brasil?

Aqui o desafio não é educar futuros motoristas, ciclistas e pedestres. O grande desafio da administração pública brasileira é simplesmente educar! Quando se fala em investimento na educação é sempre a mesma cantilena de falta de verba, de salários humilhantes aos professores e a dimensão geográfica. Mas se a idéia é organizar um evento mundial de futebol ou atletismo milagrosamente este dinheiro que não existia cai do céu.

Em palavras mais simples e menos educada, o que falta mesmo é INTERESSE!

Se não há interesse em pura e simplesmente dar educação básica, quem dirá educação social? No meu tempo de escola havia uma disciplina chamada Educação Moral e Cívica. Apesar de o título flertar com o regime militar da época, era uma forma de mostrar aos pequenos alunos um pouco de noção de cidadania. A matéria desapareceu do currículo. Talvez fosse o momento de voltar.

Os principais especialistas em segurança são unânimes na relação acidente x economia. Cerca de 80% das vítimas de trânsito estão nos países em desenvolvimento e revelam uma face cruel, porque são justamente os países que recebem menos investimentos em saúde. Mais do que isso, os números revelam que crescem os óbitos em três categorias de agentes do trânsito: pedestre, ciclista e motociclista.

Aqui no Brasil, tanto nas cidades grandes quanto nas pequenas, os acidentes envolvendo motociclistas estão causando um caos na saúde. Parte pela ocupação de leitos nos hospitais, tirando a vaga dos atendimentos médicos de outras naturezas, parte pela dificuldade em reabilitar os pacientes com sequelas, muitas vezes permanentes. A ponto de a produção de próteses não dar conta da demanda.

Em São Paulo, o número de acidentes é alto, mas proporcionalmente, em relação à quantidade de motos, é muito menor do que nas cidades do centro-oeste e nordeste. O problema em São Paulo está na evidente dificuldade em deslocar equipes de resgate em meio ao trânsito caótico. Já nas pequenas cidades o problema reside na absoluta falta de informação e formação. Aliado a questões regionais, como algumas pequenas cidades nas quais é simplesmente proibido usar capacete. Isso mesmo! Tem cidade no Brasil onde é proibido usar capacete por causa do uso de motos por pistoleiros de aluguel.

A campanha da ONU e OMS é louvável porque conclama todas as áreas da administração pública. Das secretarias de Saúde, aos ministérios de Transporte, de Prefeituras às secretarias de Educação. E para incentivar a participação destas entidades, existe uma premiação de caráter mais política do que social. Uma vaga permanente no conselho mundial da saúde da ONU, cargo de grande potencial de exposição política. Graças a esse “prêmio”, muitas prefeituras e secretarias que hoje se mostram omissas terão de mostrar serviço, pois a cobrança, mais do que nunca, será fcaptional.

Como especialista arrisco a dizer que será uma missão tão difícil que precisará da adesão de cada pessoa, do pedestre ao motorista; do policial aos professores. E aqui vejo o pequeno trabalho de cada um que fará a diferença. Não dá mais para admitir o motorista que pára em fila dupla “só por um minutinho”; motoristas que levam crianças soltas dentro dos carros; pedestre que atravessa por baixo de uma passarela construída para salvar a vida dele; motociclista que insiste em rodar em alta velocidade nos corredores e até atos de simples educação formal como um motorista de ônibus escolar que buzina na porta das casas para chamar as crianças. Ele é o exemplo que balizará a educação dos seus passageirinhos.

No campo da administração meu maior medo são as resoluções na base da “canetada”. A forma mais simples de resolver problemas de trânsito é por meio de todo o tipo de proibição, seguida de multas pesadas. Nenhuma forma de educação na base da punição produz o efeito desejado. Não se educa por castigo, mas por informação. No lugar da multa, educação. Mas como convencer as autoridades a mudar de estratégia? É melhor não esperar nada em caráter “oficial”, mas pensar no individual.

Cada agente do trânsito tem seu papel nessa verdadeira guerra que está dizimando jovens em todo o mundo. Se você tem filho, evite beber e dirigir em seguida, pois pode não saber, mas nenhum discurso é mais tocante para uma criança do que a imagem dos pais. Um pai pode gastar horas educando um filho e colocar tudo a perder em apenas uma ação. Se você usa moto não precisa correr, porque nos locais congestionados as motos são três vezes mais rápidas que um carro sem passar de 60 km/h. Seja você um exemplo a ser seguido e admirado.

Para quem quiser conhecer um pouco mais dessa campanha mundial pela redução de vítimas, recomendo ver esses dois filmes no Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=jx_CtZb9lwI

http://www.youtube.com/watch?v=Yt8ILl7c9zo


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Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

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