Dois flagras de motos e um futuro

Imagens de modelos Royal Enfield e Harley-Davidson que vazaram geraram debate, mas só uma deverá chegar ao Brasil

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Roberto Dutra
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Os principais assuntos motociclísticos dos últimos dias foram as imagens que vazaram na internet com flagras de motos: de uma inédita custom da Royal Enfield e da já bastante falada motocicleta de baixa cilindrada da Harley-Davidson, a 338R. A primeira foi vista em testes de rua na Índia e a segunda, em uma única foto, certamente feita sem autorização, que só mostra uma parte do modelo.

Muito além do óbvio - seriam duas motos com potencial de sucesso no mercado brasileiro -, ambas merecem uma boa análise por mostrarem os caminhos que as duas marcas vão (ou não) seguir no futuro próximo e sua aplicabilidade no mercado brasileiro.

A Royal Enfield Cruiser foi flagrada em testes. E rapidamente o esperto site indianautosblog.com tratou de produzir uma interessante projeção de computador - obra do artista digital Shoeb Kalania.

Royal Enfield Cruiser 650 Foto Principal
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Legenda: Projeção baseada em flagras de motos mostra como será a Royal Enfield Cruiser 650
Crédito: Projeção Indianautosblog.com

Nasceu uma moto com design simples e harmonioso, que tem características típicas de uma custom - tanque em gota, banco em dois "andares" e rabeta baixa com lanterna redondinha pronunciada. Só o motor não segue a receita clássica, já que não é um V2.

A Cruiser é o terceiro projeto bicilíndrico moderno da Royal Enfield. Em 2019, nasceram a Continental GT e a Interceptor, ambas bem-sucedidas em todos os mercados em que foram lançadas. É de se perguntar porque a marca não lançou a Cruiser ao mesmo tempo - isso talvez a fizesse alcançar três segmentos simultaneamente e melhorasse sua escala industrial. Mas eles entendem disso mais do que nós e há questões logísticas, então sigamos em frente.

A Cruiser vai usar o mesmo motor da Continental GT e da Interceptor, um dois-em-linha com 648 cm³, comando de válvulas simples, refrigeração a ar e óleo, potência de 47 cv a 7.250 rpm e torque de 5,3 kgf.m a 5.250 rpm e câmbio de seis marchas. Esse conjunto se provou eficiente e divertido nos modelos que já existem. Então, por que não ter uma custom/cruiser com a mesma base? A Royal Enfield foi esperta...

No Brasil, essa Cruiser 650 provavelmente custaria algo em torno dos R$ 25 mil, valor das irmãs e suposição compatível com a estratégia agressiva de preços da marca. Pois é, a custom média zero km mais barata do país atualmente é a Kawasaki Vulcan 650 S, que também é bicilíndrica e custa R$ 36 mil!

Haojue Chopper Road 150
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Legenda: Haojue Chopper Road 150 é uma custom de baixa cilindrada boa de venda no mercado brasileiro
Crédito: Divulgação

Além disso, há um vácuo no mercado das custom/cruiser novas: no andar de baixo, temos a Haojue Chopper Road 150, que reina solitária (e vende bem), e a Dafra Horizon 150 - que sobrevive -, ambas na faixa dos R$ 10 mil. Depois, vem esse salto imenso para a Vulcan S.

Dafra Horizon 150
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Legenda: Horizon 150, da Dafra, é outra opção mais em conta que deixa um vácuo de preço no segmento das custom
Crédito: Divulgação

Ou seja, a Cruiser 650 ajudaria a diminuir esse degrau - mais pelo preço do que pelo tamanho -, já que há anos nenhuma marca tem se interessado em vender por aqui modelos custom com 250 cm³ ou 300 cm³, como as falecidas Yamaha XV 250 Virago ou Dafra Kansas 250, entre outras. Algo até compreensível, se levarmos em conta que o segmento é pequeno e o "custo Brasil", alto, mas que gerou uma demanda reprimida considerável.

E a Harley?

Nesse momento o caro leitor pode se perguntar onde entra a Harley-Davidson nessa história. Em lugar nenhum: a moto mais barata da marca, a Iron 883, custa R$ 49.600 (e deixará de ser vendida no Brasil em 2021). Ou seja, a menor e mais barata das H-Ds está muitos andares acima.

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Legenda: Flagras de motos: imagem que vazou na internet mostra só uma parte da Harley Davidson 338R
Crédito: Reprodução

E infelizmente a marca não tem planos de vender por aqui os modelos Street 500 e/ou 750, que são voltados apenas para os mercados asiáticos - a comercialização no Brasil chegou a ser estudada anos atrás, mas logo foi descartada. Uma pena, pois com preços justos (e obviamente montadas em Manaus), elas poderiam preencher parte dessa lacuna - uma Harley de 500 cm³ por uns R$ 25 mil certamente teria fila de espera.

Enquanto isso, a marca norte-americana foca seus negócios no outro lado do mundo e é daí que veio o flagra da 338R, a motoquinha da foto. Bem menos glamourosa que a Royal Enfield Cruiser 650, a 338R é uma espécie de "X-Tudo": é prima da 302S, naked urbana feita pela Benelli, que por sua vez é baseada na QJ350-13, modelo da gigante chinesa Qianjiang - que é a atual dona da Benelli.

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Legenda: Street 750 não está nos planos da Harley-Davidson para o mercado brasileiro
Crédito: Divulgação

A estratégia da Harley é estampar sua marca em um produto feito localmente para aumentar sua visibilidade e participação nos mercados asiáticos e, ao mesmo tempo, não gastar fortunas com fábricas próprias ou mesmo com o envio de peças para montagem em CKD.

Aí vemos uma Harley-Davidson bem diferente: pequena, naked, urbana, com quadro parcialmente treliçado e suspensão traseira monochoque lateral. Até lembra vagamente a antiga XR 1.200X - uma H-D grandinha feita entre 2008 e 2013 que teve lá seus fãs, mas que nunca foi uma best-seller. O motor da Harley chinesa será um bicilíndrico de 353 cm³ e uns 36 cv de potência máxima.

No momento, a probabilidade da 338R ser vendida no Brasil é abaixo de zero: apesar de eventualmente ter potencial de vendas no país, aqui a marca faz questão de manter seu posicionamento premium. Ainda mais nessa fase de reestruturação interna, com enxugamento de linha, cancelamento de projetos e foco nos modelos mais clássicos para seus mercados mais tradicionais.

 

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