Nunca é tarde para aprender

Todo mundo concorda, menos os motoristas e motociclistas
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Geraldo Simões
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Todo mundo entende a importância de se aprimorar como profissional, mas e como motociclista?

Pergunte a qualquer profissional de recursos humanos e ele confirmará: nada dá mais valor a um profissional do que o investimento no conhecimento. Um profissional por ser muito experiente, mas se não continuar em constante aprendizado técnico e científico pode estacionar na carreira.

Médicos, advogados, engenheiros, arquitetos, veterinários e toda série de carreiras e profissões exigem o estudo inicial para levar à formação acadêmica. Mas o que vai fazer um profissional se sobressair é continuar sempre aprendendo.

Curioso que todo mundo concorda com essa teoria, menos os motoristas e motociclistas. Para estas pessoas – nas quais se incluem todos aquele profissionais acima – o curso fundamental de “adestramento” já é suficiente para o resto da vida. Os veículos mudam, a sociedade muda, os padrões de comportamento humano mudam, mas ninguém se preocupa em atualizar o aprendizado em duas ou quatro rodas depois de sair do auto ou moto escola.

Entre os motoristas novatos até se percebe algum interesse em uma espécie de pós-graduação. Isso explica a enorme quantidade de pessoas que prestam serviço de “desinibição ao volante”, o que aliás merecia uma fiscalização por parte dos órgãos de trânsito para avaliar a real competência desses “desinibidores”.

No entanto, entre os motociclistas a coisa é grave. O curso de adestramento para habilitar motociclistas é verdadeiramente ridículo e beira à imoralidade. Alicerçados na eterna cantilena de que “moto é perigoso”, toda aula prática é realizada em uma espécie de arena, fechada ao trânsito, na qual o candidato não roda mais de que algumas centenas de metros a uma média horária parelha a de uma pessoa a pé. Não engata nem a segunda marcha e se chover nem tem aula.

Imagine esta situação: uma pessoa de 17 anos e 364 dias não tem permissão para pilotar nem uma motoneta. No dia seguinte pode entrar em uma destas moto-escolas, fazer o adestramento para ser aprovado no exame e, em seguida, pode pilotar qualquer veículo motorizado com 10, 20 ou 200 cavalos! Se você contar isso a um estrangeiro é capaz de passar por mentiroso.

Só que esta é uma questão do Estado que não sabe, nem nunca se interessou de fato, ensinar e transfere essa batata quente para o cidadão. Tipo assim: “olha, meu filho, depois dos 18 anos a vida é tua e você que trate de cuidar dela, nós só te damos a permissão pra dirigir!”.

Volta às aulas

Que o Estado seja negligente não é novidade para nós, mas vejo com muito espanto motociclistas que batem no peito e afirmam sem pestanejar: “eu não preciso fazer curso, já sei pilotar”.

Em 1997 passei por uma experiência que mudou muito este ponto de vista. Até aquela data já tinha pilotado moto por longos 25 anos, inclusive em competições dentro e fora-de-estrada. Fui convidado para participar de um curso de pilotagem nos Estados Unidos. Ao voltar, os amigos perguntavam como tinha sido e a resposta surpreendia: “descobri que eu não sabia nada!”. Foi daí que nasceu a semente do curso de pilotagem.

Passados 13 anos, aprendi muito mais ainda, porque ensinar é uma eterna troca de conhecimento. Só que continuo ouvindo motociclistas aparentemente sensatos afirmando que não precisam de curso! Especialmente donos de motos custom, que se iludem com falsa impressão de mais segurança que este tipo de moto oferece. Mas aposto que entre essas pessoas tem vários profissionais que defendem o estudo contínuo como forma de crescimento na carreira.

Em suma, quando se trata de dirigir a maioria das pessoas acha que já aprenderam tudo que era possível. Nos automóveis até é compreensível, porque é um veículo muito presente na vida de todo mundo, mas entre motociclistas isso é assustador. Talvez isso explique tantos acidentes e a atitude equivocada das autoridades de trânsito em reduzir o limite de velocidade nas vias, inclusive as bem iluminadas, largas e seguras. Já que os motoristas e motociclistas não aprendem, então vamos reduzir o impacto das trombadas!

Tenho amigos que ministram cursos de direção preventiva para motoristas e estão sempre com muito trabalho porque até as empresas perceberam a necessidade dos cursos, mas entre motociclistas ainda é um tabu. Para completar, as motos estão cada vez mais acessíveis e um grande número de novos motociclistas estão entrando no trânsito. Atenção, no caso de pilotagem de moto, voltar à escola pode ser um primeiro passo para uma longa caminhada.


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Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

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