O tigre, o menino e o trânsito

Como um episódio pode explicar o comportamento humano
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Geraldo Simões
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O Brasil ficou chocado nos últimos dias de julho quando um garoto de 11 anos teve o braço direito dilacerado por um tigre. O "acidente" ocorreu em um zoológico de Cascavel, PR, quando o garoto, acompanhado do pai, pulou uma cerca de proteção, ignorou os avisos de manter-se afastado e provocou primeiro um leão e depois o tigre. O desfecho todo mundo viu: teve o braço amputado na altura do ombro e terá a vida inteira para refletir sobre esse ato. O que esse episódio tem a ver com o trânsito?

Em primeiro lugar é preciso retirar a qualificação de "acidente", porque seria caso tivesse acontecido com o tratador e não com um visitante eventual. Ou se o tigre tivesse pulado a cerca. Não foi um acidente, foi resultado da soma de negligência com prepotência. Neste aspecto o trânsito tem muita semelhança, porque praticamente 90% dos "acidentes" foram causados por fatores humanos, exatamente pela postura negligente e prepotente de algum dos envolvidos. O fator "imperícia" aparece bem abaixo nas estatísticas, normalmente usado para justificar a negligência ou imprudência.

Outra característica notada no episódio do zoológico é uma demonstração de coragem. Totalmente aceitável para um garoto de 11 anos que estaria querendo impressionar positivamente o pai ou as testemunhas. Mas inaceitável em um motociclista com mais de 30 anos que se lança na estrada a 300 km/h, ou nos corredores da cidade a 100 km/h, como forma de mostrar a coragem, quando na verdade só está exibindo uma enorme irresponsabilidade e desrespeito à vida. O conceito de coragem é muito amplo e facilmente confundido com irresponsabilidade. Normalmente os pilotos de competição são chamados de corajosos, mas são apenas especialistas que treinam muito para atingir aquele grau de inclinação nas curvas. Mas todo mundo passa medo, porque é uma defesa natural de qualquer ser vivo.

Não cabe aqui julgar nem quantificar o dolo eventual dos envolvidos, quem faz isso é a Justiça. Mas fica a reflexão do episódio para que as pessoas parem de tratar acidentes de trânsito como algo natural e inerente ao ato de se mover sobre rodas. Não é! Da mesma forma que o padrão de comportamento dos visitantes de um zoológico é manter-se afastado da jaula e não enfiar o braço, no trânsito o padrão deveria ser o da postura preventiva e não inconsequente, irresponsável ou exibicionista.

Estou cansado de ver fotos de velocímetros de motos a 299 km/h na estrada e quando acontece uma acidente fatal é tratado como se fosse o "mal necessário" ao suposto prazer em se arriscar. Não existe coragem a 299 km/h em uma pista reta, isso é irresponsabilidade. Coragem é dar 30 voltas em um autódromo, com mais 20 pilotos em volta tentando passar. Cada vez que um aluno meu decide começar a correr em autódromos eu parabenizo e explico: agora sim você mostrou que é sensato! 

Outro aspecto que o "acidente" do zoológico deixa visível também é presenciado no trânsito: a falta de educação social. Hoje em dia existe uma enorme confusão aqui com relação à educação. E é um tal de pais entregarem seus filhos às escolas na crença cega de que o pimpolho sairá de lá um lorde inglês e com conhecimento de filósofo alemão. Mas em casa o filho faz o que quer, passa o dia no videogame, desobedece os pais e eventualmente despreza a autoridade dos empregados, professores e cuidadores.

Educação é aquele conjunto de regras transmitidos de pais para filhos como uma carga genética. O que a escola transmite é conhecimento e informação. Portanto, escola não educa, quem educa é o convívio familiar. Já defendi mais de um milhão de vezes a mudança do nome de ministério da Educação para ministério do Ensino.

Muitos dos acidentes de trânsito são resultado da falta de cuidado na educação, não da escola, mas daquela da formação do caráter. Quem enfrenta um tigre é corajoso - como escreveram alguns - ou simplesmente desobediente? Quem corre na estrada é corajoso ou louco?

Nos fóruns sobre mobilidade urbana sempre aparece a proposta de ministrar curso de trânsito nas escolas do primeiro grau. Até eu mesmo já defendi essa proposição. Mas depois de conversar com especialistas de outros países e até de professores brasileiros cheguei a conclusão que hoje a escola não pode abraçar mais essa disciplina porque mal consegue dar conta o currículo formal. Quem tem o papel de preparar o futuro motorista é a família. Porque um bom cidadão tem mais chance de ser um bom motorista/motociclista.

Com relação ao zoológico, chamou atenção o comentário de algumas pessoas que reforçaram o fato de no momento do acidente não ter nenhum vigia, embora o zoológico tenha se defendido alegando que a área é monitorada por quatro fiscais. Mas será que o preço de uma cidadania é a eterna vigilância? Um dos princípios da educação é: eduque uma criança e não terá de punir um adulto.

É ISTO que quero chamar a atenção: educação não é um comportamento expresso diante de fiscalização, o nome disso é obediência. Educação é o comportamento do indivíduo quando NINGUÉM está olhando!

Agora a Prefeitura de São Paulo instalou mais uma centena de radares e câmeras de vigilância, porque o motorista só consegue se manter educado sob constante fiscalização. Já que não foi educado e precisa ser punido. Os motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres mal e porcamente foram instruídos, quando foram...

Por esta visão apocalíptica podemos perder a esperança em um trânsito solidário sem que haja uma fiscalização opressiva e constante, como no zoológico. Não basta uma placa de proibido estacionar, precisa ter um fiscal. Não basta investir em passarela ou ciclovia, tem de fiscalizar. Não basta avisar que o leão é bravo, precisa colocar o braço lá dentro.

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