A vez das potentes

O Brasil entra de vez no mercado das grandes cilindradas
  1. Home
  2. Motos
  3. A vez das potentes
Geraldo Simões
Compartilhar
    • whats icon
    • bookmark icon

Algo de muito especial aconteceu com o Brasil. Até o final dos anos “enta” o perfil da nossa economia apontava para um eterno país em desenvolvimento, mas que faltava um empurrão significativo para superar este estágio e entrar na categoria dos “desenvolvidos”. Crise no Japão, quebra do mercado imobiliário nos Estados Unidos, guerras no Oriente Médio, seja lá o que for que aconteceu no mundo, mas algo mudou no mercado de motos do Brasil.

Se antes caminhávamos para um perfil indiano ou chinês de mercado, com presença quase exclusiva de motos até 125cc, já percebemos nas ruas e nos números de mercado que a categoria acima de 400cc começa a se tornar representativa.

Em 2003, o segmento acima de 400cc representava 0,6% do mercado, com pouco mais de 5.000 unidades vendidas. Em 2010 chegou a 2% do mercado, com quase 30.000 unidades vendidas, segundo dados da Abraciclo, associação dos fabricantes do setor. Mas estes números não refletem a realidade, porque muitas das motos desta categoria são de marcas que não fazem parte da Abraciclo e outro tanto são trazidas por importadores independentes. Em termos percentuais podem ser números discretos, mas em vendas absolutas já superamos alguns dos mais tradicionais mercados europeus na categoria acima de 400cc e mais ainda acima de 600cc.

A tal da nova classe C está com poder de compra de tudo. E não faz a menor questão de esconder isso de ninguém, basta ver Facebook, Orkut ou Twitter: um festival de exposição do novo status quo. Se até o fim dos anos “enta” chegava a ser quase vergonhoso ser rico e ter sucesso na vida, agora isso é tão natural e moralmente aceito que o Brasil bate seguidamente recordes de consumo nos chamados mercados “de luxo”. Ser rico deixou de ser uma doença social.

Isso está refletindo diretamente no mercado de carros e motos e as grandes marcas estão com as artilharias todas voltadas pra este canto do planeta. Motos que antes demoravam meses para aparecer por aqui já estão em exposição quase simultaneamente com o louvado hemisfério norte.

Produtos de nicho como Bimota, MV Agusta, Ducati e Harley-Davidson podem ser adquiridas nas versões mais caras e sofisticadas como um simples pão francês em qualquer padaria. Motos que serão usadas uma ou duas vezes por mês e que passam dos R$ 100.000 estão aí, nas ruas, nos encontros, nas estradas. É um luxo? Para quem compra um iate de R$ 5 milhões e usa menos de uma vez por mês, estes 100 mil reais são o que os americanos chamam de peanuts, ou um “trocadinho”.

Mesmo que ainda sejam restritas a poucos motociclistas, o benefício do crescimento deste nicho de mercado é o interesse de as fábricas se instalarem no Brasil e aproveitar os benefícios da Zona Franca de Manaus AM. BMW já está montando lá e pretende aumentar a linha “brasileira”. A Harley-Davidson está cada vez mais perto de ter sua primeira fábrica fora dos Estados Unidos, também na zona livre manauara. E certamente chegarão mais.

Ao mesmo tempo, as marcas tradicionais japonesas aqui instaladas abrem o olho sem trocadilho e investem nesta categoria de lixo, como pudemos ver com a chegada da sofisticada Honda VFR 1200 e Yamaha Superténéré 1200, dois produtos de nicho, mas que chegaram com preços até razoáveis, para os nossos padrões de taxação de impostos.

Na garupa deste fenômeno, cresce também o mercado de usadas, mas aqui com um pequeno desvio de rota. Como algumas destas motos importadas foram compradas com o dólar a mais de R$ 2,50, agora, na hora de vender perderam muito valor de mercado. Que o digam os donos de BMW! Teve gente que pagou mais de R$ 100 mil em motos que hoje, na tabela, custam R$ 85 mil. Mas quem poderia prever que o Real seria tão valorizado frente ao dólar, depois de décadas de moeda podre no Brasil? Sorte de quem esperou para comprar uma usada!

Grandes motos deixaram de ser um sonho intangível e já estão aí, em muitas garagens. O comportamento dos motociclistas também está crescendo e se tornando mais maduro. Já é mais comum ver motociclista desta categoria devidamente vestido com equipamentos caros e de boa qualidade. O segmento de acessórios está em uma irreversível parábola crescente, com a concorrência tão acirrada que os preços, hoje, são melhores do que há 10 anos, mais uma conseqüência da queda do dólar.

Que venham os fabricantes de motos, equipamentos e acessórios, estamos aqui esperando e sem medo de aparecer!

As opiniões expressas nesta matéria são de responsabilidade de seu autor e não refletem, necessariamente, a opinião do site WebMotors.

________________________

Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

Comentários

Ofertas Relacionadas

logo Webmotors