A Chery quer crescer — e crescer muito — no mercado brasileiro. Durante a apresentação que marcou a chegada da iCaur ao país, no início de agosto, o grupo automotivo apresentou uma ambiciosa estratégia de expansão para os próximos anos.
A meta é chegar a mais de 500 mil veículos vendidos por ano no Brasil e mais de mil lojas até 2031, com um portfólio completo de marcas e diferentes tipos de motorização.
O objetivo declarado é caminhar rumo à liderança do mercado brasileiro entre 2025 e 2031.
Colocada em perspectiva, a ambição mostra o tamanho do desafio. Atualmente, quem ocupa a liderança é a Stellantis, grupo que reúne marcas como Fiat, Jeep, Ram, Peugeot, Citroën e Leapmotor.
Segundo os dados divulgados pela própria Stellantis, entre janeiro e julho de 2026 foram quase 440 mil veículos emplacados no Brasil, volume que corresponde a 27% de participação de mercado.
Ou seja, a Chery quer chegar a um volume anual superior ao que a Stellantis já acumulou em apenas sete meses no mercado brasileiro.
Mas há uma diferença importante: enquanto a Stellantis já possui uma operação consolidada e marcas com forte presença no país, a Chery está construindo essa escala por meio de uma rápida expansão de seu portfólio.
A estratégia da Chery não está baseada em uma única fabricante. O grupo já atua no Brasil com a Caoa Chery, em parceria com a Caoa, e ampliou sua presença no país com a chegada da Omoda e da Jaecoo, além da Jetour, isso em 2025.
De lá para cá, o grupo chegou a mais de 100 lojas. Para 2026, a meta apresentada é inaugurar mais 150 concessionárias no país.
A empresa também trabalha com uma meta de crescimento acelerado nas vendas. Até julho de 2026, o grupo falava em mais de 5 mil veículos vendidos por mês. Para dezembro, o objetivo é chegar a aproximadamente 10 mil unidades mensais. A partir de 2027, novas marcas entram no projeto.
A iCaur foi apresentada oficialmente no Brasil no início de agosto e terá o V27 como seu primeiro modelo no país. Mais informações sobre o SUV serão divulgadas nos próximos dias durante o Festival Interlagos.
A marca faz parte da estratégia de diversificação da Chery e amplia a atuação do grupo no universo dos veículos eletrificados.
Em 2027, também está prevista a chegada da Lepas, outra marca do grupo. Nesse caso, a proposta é que cada uma dessas empresas tenha uma identidade própria e atenda a diferentes perfis de consumidores, aumentando a capacidade do grupo de ocupar espaços distintos dentro do mercado brasileiro.
O próximo passo será subir de categoria. Para 2028, a Chery prevê uma ofensiva no segmento premium, com a chegada da Exeed ao mercado brasileiro.
A intenção é trabalhar com veículos de maior valor agregado, com foco em luxo, diferenciação e tecnologia.
Dessa forma, o grupo pretende não ficar restrito às categorias de maior volume. A ideia é construir um portfólio capaz de atender desde consumidores de modelos mais acessíveis até o público interessado em veículos premium.
Em 2029, o plano apresentado pela empresa é ter um portfólio amplo, com presença em praticamente todos os principais tipos de motorização.
A estratégia inclui veículos a combustão, híbridos HEV, híbridos plug-in PHEV e modelos 100% elétricos, os chamados BEVs.
A empresa também prevê uma expansão contínua da cobertura da rede no mercado nacional.
Assim, a Chery pretende construir uma operação que não dependa de uma única tecnologia ou de um único segmento.
É aqui que a comparação com a Stellantis se torna interessante. O grupo liderado pela Fiat, Jeep, Ram, Peugeot, Citroën e Leapmotor já tem uma escala gigantesca no Brasil. Entre janeiro e julho de 2026, foram quase 440 mil veículos emplacados, com 27% de participação de mercado.
A Fiat, sozinha, respondeu por 319.980 unidades no período e alcançou 19,6% de participação. Isso significa que praticamente um em cada cinco veículos emplacados no Brasil em 2026 é da Fiat. A marca também lidera segmentos estratégicos, como hatches, picapes e vans.
A força da Fiat aparece de forma ainda mais clara quando se olha para a Strada. A picape acumulou 97.948 emplacamentos entre janeiro e julho de 2026, sendo o veículo mais vendido do país e com 52% mais unidades que o segundo colocado.
Tanto a Fiat quanto a Strada caminham para o sexto ano consecutivo na liderança de seus respectivos rankings.
A força do grupo, porém, não está somente na Fiat. A Jeep encerrou julho com mais de 9.100 veículos vendidos e permanece entre as maiores marcas da indústria. O Compass segue líder absoluto entre os SUVs médios no acumulado de 2026, enquanto a chegada do novo Avenger amplia o portfólio da marca.
A Ram também registrou seu melhor mês do ano em julho, com mais de 3.353 veículos emplacados, crescimento de 16% em relação a junho. A marca ampliou sua gama com as novas Dakota Big Horn e 1500 Big Horn.
A Citroën fechou julho com 2.567 unidades e apresentou crescimento no segmento de hatches. O C3, por exemplo, avançou 9% em julho na comparação com junho.
A Peugeot cresceu 16% na mesma comparação, com destaque para a Expert, que teve aumento de 40% no volume de vendas em julho ante junho.
E a Leapmotor, mais nova integrante desse ecossistema, acumulou quase 5 mil veículos vendidos no Brasil em 2026 e, em julho, ultrapassou pela primeira vez a marca de mil unidades comercializadas em um único mês.
É justamente essa estrutura de múltiplas marcas que torna a estratégia da Chery interessante.
A empresa não está tentando crescer apenas com a Caoa Chery ou com uma única linha de produtos. O plano é criar uma operação com diferentes marcas, propostas e tecnologias.
Nesse sentido, existe uma semelhança estratégica com a Stellantis.
A Stellantis consegue atender diferentes públicos combinando Fiat, Jeep, Ram, Peugeot, Citroën e Leapmotor. A Chery quer fazer algo semelhante com suas diferentes marcas, ampliando progressivamente o alcance do grupo.
A diferença é que a Stellantis já tem essa escala, enquanto a Chery ainda está construindo a sua.
A expansão da rede será fundamental para que o plano funcione. O objetivo para os próximos cinco anos é muito mais agressivo: ultrapassar mil lojas no Brasil até 2031.
Isso significa que o crescimento não ficará concentrado apenas nos grandes centros. Para atingir 500 mil veículos por ano, será necessário ampliar significativamente a presença das marcas em diferentes regiões do país.
O plano da Chery mostra que a disputa pelo mercado brasileiro pode ganhar um novo capítulo nos próximos anos.
A empresa não quer apenas ampliar as vendas de seus modelos atuais. Quer construir uma operação capaz de cobrir diferentes faixas de preço, segmentos e tecnologias.
É uma ambição que coloca a Chery em rota de colisão com grupos que já possuem uma presença muito mais consolidada. Tanto que, a Fiat, acaba de fazer belos 50 anos de história no mercado brasileiro.
Se o plano for executado como apresentado, o país poderá ter, até 2031, uma disputa bem diferente da atual: de um lado, a Stellantis tentando preservar a liderança com um portfólio já consolidado; do outro, um grupo que pretende chegar ao mesmo patamar usando como principal arma uma estratégia de multiplicação de marcas, expansão de rede e diversidade de tecnologias.
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