Compromisso X desejo

Como desenvolver um produto que agrade a todos?
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Geraldo Simões
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Já reparou que antes do noivado e do casamento alguns casais usam o que se convencionou chamar de "anel de compromisso"? Pouca gente se dá conta que o conceito de compromisso está diretamente ligado a uma escolha, uma opção e as suas devidas consequências. Assumir o compromisso com uma pessoa amada significa abrir mão de outros amores. Pelo menos deveria ser assim...

 

No caso de desenvolver um veículo, mais especificamente uma moto, os engenheiros e toda equipe de projeto precisa avaliar uma série de compromissos. Não existe nenhum veículo que seja 100% versátil e atenda a todas as necessidades do consumidor. Por isso existe o que se classifica como "categorias". Uma moto custom, por exemplo, deve atender quem gosta de viajar, mas não tem a menor pretensão esportiva. Já uma esportiva vai privilegiar a estabilidade e desempenho, mas sacrificar o conforto. E assim por diante...

 

Recentemente tive a oportunidade de avaliar a nova Honda CBR 500R em um autódromo particular. Quem olha aquelas linhas esportivas, com carenagem integral e semi-guidões imediatamente associa à esportividade. Mas aí entra em cena o tal compromisso! Para um motor de apenas 471 cm3 o grande desafio é encontrar uma equação que resulte em desempenho, mas sem comprometer a economia e as emissões de poluentes. O desafio foi lançado!

 

Outro dado que está sempre presente na mesa de projetos são as pesquisas de mercado com os clientes. São realizados laboratórios com pessoas de diferentes partes do Brasil para tentar entender o que o consumidor mais valoriza em uma moto. Claro que o desejo de todo motociclista é uma moto de 250cc com potência de 600cc e preço de 125cc. Mas engenheiro é apenas técnico e não mágico. Por isso é preciso descobrir como encontrar o melhor compromisso entre o desejo e a realidade!

 

Tive acesso a várias dessas pesquisas (confidenciais, claro) e posso garantir que nós, jornalistas, nem de longe imaginamos qual o real desejo dos motociclistas. Boa parte de nossa ignorância vem do fato de a maioria dos jornalistas especializados serem também motociclistas e com seus próprios desejos e ambições. É difícil julgar uma moto desprovido de nossas expectativas pessoais.

 

Só para exemplificar, quando eu era editor de uma grande revista, o piloto de teste voltou maravilhado com uma determinada moto. Publicou "esta é a melhor moto esportiva da atualidade". Quase surtei! Delicadamente chamei o repórter e perguntei "quantas motos esportivas você já testou em sua vida?" Diante do número baixo eu argumentei que o leitor poderia interpretar de duas formas: achar que aquela era realmente a melhor moto da categoria; ou que ele era jovem e inexperiente demais por ter avaliado poucas motos na vida.

 

Voltando à linha CB 500. Alguns consumidores mais antigos ainda que tem na cabeça a "velha" CB 500 que esteve no mercado nos anos 90, também com motor de dois cilindros. Ela tinha mais potência, porque naquela época o compromisso era com o desempenho. Mas gastava muito e emitia níveis elevados (para época) de poluentes. Em apenas uma década o mundo muda muito. Hoje a preocupação maior é com consumo, conforto e o produto precisa ser ambientalmente amigável. Na atual CB 500 o motor tem injeção eletrônica, comando de válvulas roletado e o consumo chega a impressionantes 26 km/litro contra 15 a 18 km/litro da CB do passado.

 

Quem quiser conhecer mais das 500 dos anos 90 pode ler o meu teste republicado no Motonline e que se tornou o teste mais comentado da Internet a ponto de estar até na Wikipedia. Só para ter uma ideia de como os tempos mudaram, eu escrevi que a Suzuki GS 500 era incrivelmente econômica porque fazia 17 km/litro... imagine isso hoje em dia!

 

Fazer um motor com a mesma capacidade volumétrica atingir a potência e desempenho de outro de 10 ou 20 anos atrás é impossível pela própria legislação vigente. Hoje os veículos estão lutando para manter a potência. Veja a Honda CG 125cc, por exemplo, mantém os mesmos 12,5 cv desde que foi lançada e nesse período recebeu uma série de melhorias mecânicas. Tudo para só manter a potência.

 

O caminho mais usado é aumentar a capacidade volumétrica. O motor 125 passa a ter 150cc; o motor 250 passa a ser 300cc e o 500cc aumenta para 600 ou 650cc para compensar as perdas geradas pela restrição de emissões. Para complicar o meio-de-campo, hoje a palavra mágica é downsizing, ou seja, a redução do "tamanho" dos motores e aí entram os motores de três cilindros para reduzir o consumo de um equivalente de quatro cilindros.

 

A Honda optou por manter o motor de 500cc por uma questão de estratégia de mercado e porque o nome CB 500 ficou (e ainda está) muito forte na memória dos brasileiros. E ao escolher manter este número reforçou o compromisso com e economia e eficiência energética. Se por um lado a nova 500 "perdeu" em velocidade e potência em relação à antiga, por outro lado ganhou estratosfericamente nos quesitos consumo e durabilidade do motor. 

 

Olhando o mercado brasileiro como um todo (e não apenas o Sudeste), o consumidor hoje visa alguns aspectos:

 

- Desenho - Normalmente os grandes especialistas em motos se esquecem da imensidão de consumidores que está comprando a primeira moto da sua vida e que não entram nos sites americanos para conhecer o mais recente lançamento da MV Agusta. Eles se baseiam naquilo que é mais visível e palpável: o estilo. Por isso alguns produtos chineses desembarcaram por aqui cheios de carenagens, pinturas metálicas, rodas chamativas e pneus largos. A qualidade era abaixo de péssima, mas chamava a atenção de quem não conhecia.

 

- Liquidez - Essa é difícil de acreditar e entender: o brasileiro compra moto já pensando em vender. Eu tive a chance de entrevistar motociclistas do Nordeste e descobri que a resistência à marca Yamaha se deve exclusivamente ao pós-venda. Nada contra o produto, pelo contrário, chegam a admitir que são mais bonitos, mas "perde preço". Isso pesa mais do que imaginamos.

 

- Consumo - Minha geração é do tempo que qualquer moto é mais econômica do que um carro e ponto final. Mas o consumidor mudou. A imensa maioria é de novos usuários e que vê a moto como o seu primeiro veículo motorizado. Pra ele o consumo pesa, porque a moto foi adquirida para ser a opção mais barata de transporte. Espera ele ter de escolher um carro...

 

- Desempenho - Viu? só depois de satisfazer os olhos e o bolso é que o consumidor vai querer agradar o cérebro. Por isso esse papo de "quanto dá de final" é coisa de quem não tem moto ou está mais preocupado com os dados da ficha técnica do que com o uso em si. Qual a porcentagem de tempo que uma moto chega à sua velocidade máxima durante toda a sua existência? Então por que este seria um item de relevância? Só para alimentar as discussões de fóruns de internet e acertar o quiz sobre motos.

 

Da mesma forma que o casamento representa a escolha pelo compromisso de um estilo de vida diferente de quando era solteiro, projetar uma moto envolve esse compromisso com aquilo que o consumidor mais deseja. Só que da mesma forma que nos casamentos acontecem os divórcios, no mundo das motos é mais fácil, porque se não ficou contente basta apenas anunciar e vender! 

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