O que falta?

Por que o mercado de motos não reage?
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Geraldo Simões
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O dados mais recentes divulgados pela Abraciclo reforçou a tendência de queda nas vendas, no mês de junho. Entre as explicações para a retração sobrou até para a Copa do Mundo de futebol, já que parte do dinheiro em circulação acabou destinado a eletrodomésticos, sobretudo as TVs de plasma.

Pelos números da associação, a média de emplacamentos de motos caiu 10,4% nos primeiros 15 dias de junho, em comparação com o mesmo período de maio. Foram 5.458 motos em junho contra 6.089 dos primeiros 15 dias de maio. Se comparado com a primeira quinzena de junho de 2013 a queda foi de 8,9%.

Mais do que números, o mercado busca respostas. O que estaria freando o crescimento do mercado de motos? Pelos dados oficiais, nunca antes na história desse país a Economia esteve tão bem, com tanto dinheiro em circulação. O potencial do mercado de motos é de pelo menos três milhões de unidades/ano, já chegou a dois milhões em 2011 e agora estacionou nos 1,5 milhão, com tendência de queda.

Esgotamento do mercado não é, pelo contrário, existe muito espaço para crescimento, sobretudo nas regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste. Falta de modelos também não, porque hoje o Brasil apresenta uma imensa linha de produtos, desde o nacionais, genuinamente fabricados aqui, até os nacionalizados e os importados.

Uma das justificativas sempre esbarra na dificuldade de crédito, já que de cada 10 fichas cadastrais enviadas às instituições financeiras apenas duas são aprovadas. Ou seja, tem oito pessoas que terão de escolher outra modalidade de compra, ou desistir da moto.

Mas, honestamente, arriscaria mais dois fatores que são tratados meio como tabus pela associação dos fabricantes: o elevado e inaceitável números de acidentes e sempre eterno preconceito. Em outras palavras, a moto está com a imagem muito desgastada e se não for feita uma campanha de limpeza dessa imagem o mercado continuará e ver seus números caindo como frutas maduras.

É nóis nas ruas!

Já escrevi dezenas de vezes que não existe uma comunidade que mais conspira contra si mesmo como os motociclistas. Rodando em qualquer cidade do Brasil tem-se a clara impressão de que o primeiro ato logo após alguém comprar uma moto é se esforçar ao máximo para parecer um ser rebelde e socialmente detestável.

Não consigo explicar a origem deste comportamento, que pode ser desde a já extensamente debatida queda na qualidade do ser humano em sociedade, mas passa também pelo baixo nível de formação dos neo-motociclistas. O CFC (moto-escola) pura e simplesmente como é feito hoje só funciona para habilitar um futuro motociclista, mas não tem caráter formador de um cidadão motorizado minimamente sociável. É mais ou menos como querer formar um engenheiro dando-lhe apenas a tabuada como material didático.

Os acidentes com motociclistas crescem em uma progressão bem acima do crescimento do mercado. E cada acidente traz com ele a reação de uma sociedade já saturada de violência. É comum ouvir que alguém deixou de comprar uma moto porque perdeu um amigo ou parente em acidente. Mas ninguém nunca ouviu falar de alguém que tenha deixado de comprar um carro, mesmo depois de perder amigos ou parentes em acidente automobilístico.

O veículo moto já carrega a pecha de "inseguro" e outros atributos menos nobres. Agora ainda virou a opção largamente usada por bandidos para cometer assaltos e fugir facilmente. A mídia geral bate forte em cima das motos, sempre reforçando a qualificação de "perigosa" e "assassina". Até comunidade médica aponta a artilharia para as motos, como uma criadora de "estropiados" na palavra deles, sem atentar para a estatística que mostra um maior número de mutilados e mortos em atropelamentos, no entanto nenhum médico aparece na mídia afirmando que "andar a pé é perigoso".

Mesmo assim tenho a sensação que isso não preocupa os fabricantes. Não vejo ações práticas que visem melhorar a imagem da moto como veículo. Aliás, mal se vê publicidade de motos na mídia geral, com exceção de Honda e Yamaha qual foi a marca que anunciou na TV em rede nacional no horário nobre? No entanto temos 16 marcas atuando regularmente no mercado, incluindo alguns modelos dos mais caros do mundo.

Quando os temas acidente e roubo entram em pauta nas reuniões com a associação de fabricantes parece que não faz parte do cardápio de preocupações e os motivos para queda nas vendas continuam sendo os metafísicos como Copa do Mundo, excesso de feriados, carnaval, dias santos etc.

Está na hora de as fábricas começarem a pensar nos novos clientes, porque quem tem ou já teve moto sabe quais vantagens de desvantagens do veículo; enquanto os novos esbarram em dados alarmantes de acidentes e roubos. Não é possível considerar "normal" que motociclistas sejam perseguidos, alvejados nas ruas por marginais que parecem nunca incomodados. E as fábricas não cobrem uma atuação mais firme das políticas de segurança pública.

Meu palpite é que tem muita gordura para queimar nesse mercado, mas se a moto não passar por uma cirurgia plástica na imagem essa gordura pode terminar em trombose!  

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