A seca e o trânsito

Um exemplo de cidadania que pode chegar às ruas
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Geraldo Simões
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Desde que me conheço por gente nossa família trata a água como um bem valioso. Meu avô italiano dizia, 50 anos atrás, que "vai chegar o dia em que se pagará mais pela água do que pela gasolina". Era um visionário! Por isso ele educou os filhos (e filhas) a usar a água com critério. Essa educação foi transmitida por gerações e lembro da minha mãe recolhendo a água usada da máquina de lavar roupa para lavar o chão e ainda explicava "ela já vem com sabão!".

Desde 2012 São Paulo começou a enfrentar uma onda de calor e seca sem precedentes na história da cidade. Mas só nos últimos meses vejo os paulistanos agindo como ensinava meu avô meio século atrás. Vejo carros sujos circulando pelas ruas e finalmente desapareceram as "vassouras hidráulicas", aquela mania típica paulistana de varrer a calçada com água!

Para chegarmos nessa mudança de hábito foi preciso sentir o desespero da falta d'água. Com as reservas chegando - literalmente - no fundo do poço, a população percebeu que não dá mais pra agir como se tivéssemos um Amazonas em cada Estado.

É disso que precisamos para reduzir os números de vítimas de trânsito: uma mudança no COMPORTAMENTO. Já escrevi centenas de vezes que o trânsito não é feito de veículos, mas de PESSOAS que conduzem veículos. Enquanto o material humano não mudar não haverá qualquer tipo de campanha que trará resultados efetivos.

A partir de 1º de novembro os valores das multas serão novamente aumentados e numa proporção assustadora. Algumas passarão de R$ 190 para R$ 900. Sabe o que isso vai mudar? Nos primeiros meses o cidadão vai prestar mais atenção, mas depois vão aumentar a inadimplência (que já é alta) e a arrecadação. Calcula-se que 30% dos veículos que transitam em São Paulo estão com algum débito com a Prefeitura ou Estado. Esse número vai aumentar.

Também vai aumentar a arrecadação. Hoje o município de São Paulo arrecada um bilhão de reais com multas por ano. Embora a destinação desse dinheiro não seja devida e claramente explicado, parte dessa verba deveria ser destinada à educação e sinalização de trânsito. Não é o que vemos pelas ruas...

O que poderia ser a "falta d'água" no trânsito? Um enorme basta! O único jeito de vislumbrar alguma redução nos acidentes de trânsito é trabalhar nas novas gerações, como meu avô fez com filhos e netos. Os atuais motoristas e motociclistas dificilmente se sensibilizariam com campanhas, por mais emotivas e premiadas que fossem. Em outubro viajei para três capitais do Brasil ministrando palestras de conscientização do trânsito, com foco no motociclismo. Gostaria de dividir algumas constatações com você, leitor:

  • Existe um enorme, gigantesco, preconceito com relação aos motociclistas em qualquer lugar. Parte por influência negativa da mídia, que está sempre a reforçar o que tem de ruim e desprezar o que tem de bom. Mas também pelos cidadãos em geral. Os motociclistas, sobretudo os mais simples, ainda são vistos como marginais, trombadinhas motorizados, mesmo quando são trabalhadores. São muito poucas as empresas que investem na qualificação e treinamento desses profissionais porque ainda é visto como CUSTO e não investimento. Ouvi o seguinte depoimento de um executivo: "a gente dá treinamento para o motociclista e depois ele muda de emprego". Sim, mas o treinamento precisa vir acompanhado de uma valorização do profissional, dando equipamentos de qualidade, oferecendo motos sempre seguras e bem conservadas etc. E tentar criar critérios de pontuação que premiem os bons com benefícios como folga, adicional no salário, etc. Funcionário bem tratado se mantém na empresa.

  • As manias absurdas se espalham como catapora em jardim da infância. Basta aparecer um motociclista usando o guidão encurtado para que isso contamine todos os outros. O mesmo vale para a postura e técnicas malucas de pilotagem.

  • Falta de informação. Eu fico realmente desesperado quando vejo algumas teorias se difundindo sem que ninguém se questione a veracidade. Isso mostra como é fácil manipular o povo. A quantidade de motociclista que pneus riscados ou remoldados é assustadora. E NINGUÉM sabia que essas duas práticas são ilegais. Teve gente que até deu o nome da empresa que remolda pneu de moto! Pô, mas cadê a fiscalização?

  • Cadê a fiscalização? O Código Brasileiro de Trânsito é um dos mais completos do mundo. Pena que ninguém conhece e se conhece não respeita e se não respeita não é punido. A única punição aplicada pelo agente de trânsito é a multa, que nunca funcionou nem nunca funcionará como ferramenta disciplinadora. É preciso criar, ampliar e botar nas ruas o agente específico de trânsito capaz de fiscalizar, mas também educar. O Brasil tem um código de trânsito rigoroso, mas aos olhos de um marciano que desça em terras brasileiras somos uma terra sem lei. Todo mundo faz o que bem entende, anda onde e como quer, com veículo caindo aos pedaços. É um território livre. Pode mais quem grita mais.

  • Vai piorar. Nem a mais santa das freiras carmelitas acredita que o trânsito vai melhorar no Brasil. Não vai! Em 2020 vamos passar (mais um) vexame perante à comunidade mundial porque será o encerramento da década mundial da segurança no trânsito. E a cerimônia será no... Brasil! Eu quero estar lá para ver o rubor na face dos ministros da Cidade e da Saúde ao apresentarem os números da violência no trânsito. A menos que os dados sejam maquiados (e isso nossos políticos são mestres) a vergonha será acachapante. E todo mundo tem sua parcela de responsabilidade.

    Não sei qual será o paradigma que fará reduzir os acidentes e vítimas de trânsito, a exemplo da postura diante da crise de água. Mas uma coisa eu já sei: se por um milagre chover sem parar por meses em São Paulo e os níveis das represas voltarem ao normal nós veremos novamente as pessoas lavando o quintal, desperdiçando água porque se tem uma coisa que atinge todo mundo é a falta de memória para as coisas ruins.

     

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