Já tirou uma soneca dirigindo?

Distúrbio do sono é responsável por até 32% dos acidentes
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Cesvi Brasil
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- No final de fevereiro, foi a vez dos segmentos de transporte e carga se perguntarem a respeito das implicações de uma nova medida do Contran Conselho Nacional de Trânsito: a Resolução 267/2008. Ela dispõe sobre o exame de aptidão física e mental, a avaliação psicológica e o credenciamento das entidades públicas e privadas relacionados à autorização da carteira nacional de habilitação, sua renovação, adição ou mudança de categoria.

O ponto que mais chamou a atenção foi a exigência da avaliação de distúrbios do sono para quem tentar renovar ou fazer mudança para as categorias C, D e E motoristas profissionais. Logo surgiram os questionamentos:

• O que são exatamente distúrbios do sono?
• Todos os motoristas profissionais devem passar pela avaliação?
• E quem não for aprovado? Corre o risco de perder o emprego?
• O Brasil possui a estrutura necessária para avaliar tanta gente?

O Cesvi foi atrás das respostas.

Cochilo que sai caro

A inclusão do exame de distúrbios do sono está relacionada, primordialmente, à prevenção de acidentes. A avaliação foi inserida na Resolução com o objetivo de detectar os condutores que possam ter o referido distúrbio e orientá-los a buscar tratamento, para que estejam em condições físicas, mentais e psicológicas ideais para a condução veicular.

O porquê desta preocupação? Estudos internacionais apontam que 29 a 32% dos acidentes de trânsito envolvem um motorista que dormiu ao volante; 17 a 19% das mortes nas vias envolvem alguém que cochilou ou dormiu ao volante.

Levando em consideração o dado de que, em 2004, 34.674 pessoas morreram nas estradas brasileiras mortes no asfalto, excluindo as que vieram a morrer no hospital, se aplicarmos a porcentagem do estudo, chegaremos à constatação de que até 6.588 podem ter morrido nesse ano em conseqüência de motoristas adormecidos.

Além do drama social, a tragédia também custa caro. Ainda no universo dos números, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas aponta que o custo médio de um acidente com vítima fatal é de R$ 421 mil. Sendo assim, utilizando os dados de 2004 como base, o país pode estar gastando quase R$ 2,8 bilhões por ano com este tipo de acidente quando envolve óbito.

E o que leva o motorista a dormir enquanto dirige? Os dois principais problemas envolvendo sono e direção são:

• Grandes jornadas de trabalho de motoristas profissionais.
• Motoristas que sofrem de distúrbios do sono.

Quanto às jornadas de trabalho excessivas, o problema é dos mais complexos. Em primeiro lugar, envolve a conscientização de quem emprega o motorista:

• condutor bem disposto, trabalhando em condições adequadas, gera um risco menor de acidentes, de perda de carga, de acionamento do seguro. Envolve ainda a necessidade de ganho do motorista, que aceita jornadas excessivas para não perder a oportunidade de pagamento outros aceitarão.

Por outro lado, a questão dos distúrbios do sono pode ser controlada, o que explica a iniciativa do Contran.

O que são distúrbios do sono


Segundo o National Center on Sleep Disorders Research, 70 milhões de pessoas apresentam algum problema de sono, e temos dormido menos, progressivamente, com o passar dos anos.

A pessoa que dorme bem, de modo geral, passa por estágios distintos do sono. De estágios iniciais, em que o sono é superficial e se pode até ouvir o que se passa ao redor, passa-se para estágios de sono mais profundo, responsáveis por nossa recuperação física, de memória, atenção e cognição. “Quando você tem algum tipo de distúrbio do sono, você não passa por essa fase boa, só fica nas partes pobres de recuperação. E aí acorda no dia seguinte irritado, sonolento, cansado, pára no semáforo e começa a dormir...”, aponta o dr. Marco Túlio de Mello, professor do departamento de psicobiologia da Unifesp Universidade Fcaptional de São Paulo e coordenador do Cemsa Centro de Estudo Multidisciplinar em Sonolência e Acidentes.

Há quatro categorias principais de distúrbios do sono:

• Dissonias: distúrbios que produzem sonolência excessiva ou dificuldade de manter, ou mesmo iniciar, o sono insônia, apnéia obstrutiva do sono, dependência de estimulantes ou álcool, entre outros.

• Parassonias: distúrbios clínicos que interrompem o sono normal sonambulismo, câimbra noturna, pesadelos, congestão nasal, bruxismo, ronco, entre outros.

• Associados a distúrbios mentais, neurológicos e clínicos psicose, transtorno do pânico, alcoolismo, mal de Parkinson, epilepsia, asma, refluxo do esôfago, entre outros.

• Distúrbios propostos relacionados à menstruação, à gravidez, à síndrome do engasgo do sono, entre outros.

Motoristas com quaisquer desses distúrbios tendem a não obter a recuperação necessária durante o período de sono, e continuam com sonolência enquanto trabalham. No caso dos portadores de carteiras C, D e E, enquanto dirigem caminhões, ônibus e outros veículos, em alta velocidade, em nossas vias.

Quem precisa passar pelo exame

Assim que a Resolução foi divulgada, houve ansiedade nos setores de transporte e carga quanto a uma necessidade de todos os motoristas serem obrigados a passar pela avaliação de distúrbios do sono, e também quanto às conseqüências para os que tiverem os distúrbios diagnosticados. Perderiam seus empregos? Teriam que se aposentar?

Na realidade, somente serão encaminhados para a avaliação polissonográfica os candidatos a renovar a carteira ou mudar para as categorias C, D e E que, no exame médico com perito de trânsito que integra o processo de renovação ou alteração de carteira, apresentarem indícios de distúrbios do sono. Ou seja, não é todo mundo.

“O médico de trânsito vai aplicar um questionário, ver a conferência do pescoço, observar a abertura da boca, e essa rápida avaliação vai dizer se o motorista tem indício de distúrbio do sono”, esclarece o dr. Marco Túlio de Mello, da Unifesp. “Entendemos que, no máximo, 15 a 20% dos condutores profissionais do País vão precisar passar pela polissonografia”.

Ainda assim, a indicação para a polissonografia, que identifica distúrbios de sono, ficará a critério médico. Por quê? Para situações, por exemplo, em que a cidade do motorista não tiver estrutura adequada para a realização do exame.

O Contran entende que seria injusto ou inadequado obrigar o motorista a passar por uma avaliação inacessível. Uma alternativa possível é o médico conccaption uma licença temporária de um ano, e dentro desse período o motorista buscar uma forma de passar pela avaliação. “A intenção não é desempregar ninguém”, destaca Marco Túlio, que participou da câmara temática que chegou à Resolução. “Pensamos em todos os aspectos para dar condições ao médico de realizar o exame e ao motorista de passar por ele sem grandes transtornos”.


Tem tratamento?

Segundo o dr. Marco Túlio de Mello, da Unifesp, quem tiver um distúrbio do sono diagnosticado não precisa ficar sem dormir por causa disso. O tratamento médico consegue reduzir em mais de 80% a sonolência durante o dia, permitindo que o motorista volte a apresentar as condições ideais para sua atividade profissional com a segurança devida. Um estudo da universidade com motoristas de ônibus interestaduais revelou que, do universo pesquisado, 38% apresentavam distúrbios do sono. Uma das empresas de ônibus envolvidas na pesquisa tinha 3,6 mortes em acidentes, a cada 100 mil quilômetros, em uma de suas rotas mais críticas. Depois de um ano, com tratamento dos distúrbios do sono e reorganização das jornadas dos motoristas, o número caiu para 0,6.

E o custo?

Dinheiro também não deve ser uma alegação de quem não se submete à avaliação de distúrbios do sono. Uma portaria do Sistema Único de Saúde SUS dá opção para todos os hospitais universitários realizarem a avaliação, que também está incluída nos planos de saúde.

“Hoje, temos no País mais de 150 laboratórios de sono, o que nos dá uma média de uns 1.200 leitos para essas avaliações, por dia”, aponta Marco Túlio. “O Sudeste brasileiro, principalmente, está muito bem organizado para atender à demanda que será criada. Além disso, com a Resolução, muitos médicos devem se interessar em fazer, e a tendência é a estrutura crescer”.

Tecnologia anti-sonolência

Já há sistemas sendo desenvolvidos para minimizar os riscos de acidentes provocados pela sonolência do motorista. Conheça as tecnologias mais modernas, que um dia poderão ser aplicadas em nossos ônibus e caminhões.

LDW e LKS

Este “Lane Departure Warning System” emite um sinal de alerta sempre que o motorista está prestes a sair da pista. Com o uso de uma câmera especial e um algoritmo processador de imagens, o sistema registra o curso da pista em relação ao veículo. Os sinais de alerta podem ser tanto um sinal sonoro ou uma vibração no volante, ou ainda no assento do motorista.

Um passo adiante é o LKS, “Lane Keeping System”, que tem uma atuação mais ativa, corrigindo a trajetória do veículo e mantendo-o na pista. Entretanto, o comando do motorista sempre prevalece.

Detector de sonolência

Este sistema identifica sinais de sonolência do motorista com monitoramento dos olhos feito por um dispositivo de vídeo. Os alertas para o motorista começam assim que ele passa a piscar demais e se intensificam conforme aumentam os sintomas de sonolência.

Especialistas no estudo do sono

O departamento de psicobiologia da Unifesp desenvolve pesquisas na área de sonolência e sua relação com acidentes de trânsito desde 1994, e foi convidado pelo Contran a participar de sua câmara temática de saúde e meio ambiente, quando teve a oportunidade de sugerir a inclusão da avaliação de distúrbios do sono nos exames de motoristas profissionais.Confira outros estudos do Cesvi Brasil

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