Farus Quadro, o fora-de-série mineiro

Conheça um pouco da história deste veículo, nascido em Belo Horizonte
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Gustavo Ruffo
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- No ano passado, o gerente de suprimentos José Antônio Franco, 51, foi ao Anhembi, em São Paulo, tentar vender o automóvel de sua filha. Como todos os vendedores, Franco foi dar uma espiadinha nos outros veículos e viu um chamativo carro vermelho à venda. Aquele dia provou ser uma boa ocasião para vendas. Não no caso de Franco, que não conseguiu vender o carro da filha, mas no do vendedor do tal carro vermelho, um raríssimo Farus Quadro.

Segundo Franco, seu carro é um dos seis últimos a serem fabricados pela empresa de Belo Horizonte, que funcionou de 1978 até 1990, não por acaso o ano da liberação de importação de carros. Esse evento matou praticamente todos os fabricantes de veículos fora-de-série, o que, aliás, foi uma conseqüência natural daquela medida.

Os carros esportivos de produção artesanal nasceram porque não era possível importar automóveis sofisticados. Quem queria exclusividade tinha de recorrer a um deles, que geralmente vinham com tudo o que os veículos estrangeiros ofereciam. Com algumas adaptações, é verdade.

No caso do Quadro, ele vinha com faróis escamoteáveis, direção hidráulica, vidros elétricos, travas elétricas, volante com coluna de direção eletricamente regulável e ar-condicionado. Em 1990, isso era muito mais do que os carros mais sofisticados feitos no país tinham o costume de oferecer.

É aqui que entra a questão das adaptações. Muitos carros com vidros elétricos na verdade adotavam o motor do limpador de pára-brisas para mover os vidros. Esse era o caso, por exemplo, do Gurgel XEF. No caso do Farus, não deveria ser muito diferente, o que se nota nos comandos dos faróis escamoteáveis e da coluna de direção. A adaptação é bem feita, mas é patente que não foi desenvolvido um motor especificamente para esse sistema.

Os difusores de ar são de outros carros, assim como os botões de velocidade do ventilador, do acionamento dos vidros elétricos, as chaves de seta e diversos outros elementos. Os faróis, apesar de escamoteáveis, são do Fiat 147, que tem muito a ver com a origem da Farus.

Por dentro, o carro de chassi tubular, carroceria de plástico reforçado com fibra de vidro e mecânica Volkswagen a álcool um motor AP-1800, com câmbio de cinco marchas era dos mais sofisticados que se poderia ter. O painel, todo revestido em couro vermelho, acompanha a cor do exterior. Essa deve ter sido uma alteração posterior à venda do Quadro, já que o carro de Franco era originalmente preto. Ele ainda sofrerá algumas reformas até voltar ao melhor de sua forma, mas a cor é algo que o dono não pensa em alterar. “Dá muito trabalho mudar a documentação”, justifica-se Franco.

No painel, o que se nota é uma variedade enorme de mostradores, todos redondos, o que deixa muita gente com saudade do tempo em que podia conversar melhor com o carro. E todos levam a marca da empresa. Essas são, possivelmente, algumas das únicas peças feitas sob medida para o carro.

No canto esquerdo, fica o marcador de nível de combustível, Logo a seguir, o hodômetro, que marcava pouco mais de 80 mil km originais e ia até 200 km/h uma prova da honestidade daqueles tempos, um relógio central que indica o uso das setas, do farol alto e do freio de mão, o conta-giros, marcador de temperatura do motor, de nível do óleo, da temperatura do óleo e do nível de carga que o alternador está entregando. Os retrovisores externos são elétricos e o interno é fotocrômico.

Além dos faróis escamoteáveis, o Farus Quadro apresenta mais uma peculiaridade: a ausência de maçanetas. Esse tipo de carroceria, conhecida hoje nos círculos de personalização como “shaved” barbeada, lisa, conta com o alarme por controle remoto para funcionar. Como a questão do aterramento em veículos com carroceria de plástico sempre foi delicada, não era raro o alarme sofrer algum tipo de pane e o acesso ao veículo ficar prejudicado.

Breve história da marca

O primeiro Farus, o ML 929, era todo uma referência à família do fundador da marca, Alfio Russo. Farus vem de “Famiglia Russo”, e o emblema da marca, estampada nas rodas, traz um escudo, possivelmente o da família do empresário. ML são as iniciais do nome da esposa de Alfio, Maria Luisa, e o 929 faz referência à data de seu nascimento setembro de 1929.

A mecânica e muitas das peças do interior do ML 929 eram do Fiat 147. Ao contrário do Quadro, ele tinha lugar para apenas duas pessoas o Quadro é um 2+2, tração traseira e sua carroceria era montada sobre um monobloco. Muitas modificações foram necessárias para fazer a mecânica de um dos primeiros carros nacionais com tração dianteira e motor transversal servir a um carro com tração traseira. A manutenção, com isso, era relativamente delicada, com reclamações sobre a precisão do câmbio.

Depois da mecânica do 147, o modelo TS 1.6, lançado em 1982, passou a adotar o motor do VW Passat. Contrariando as expectativas dos fãs da marca alemã, as reclamações sobre a precisão do câmbio continuaram. Em seguida vieram o Beta com mecânica do Chevrolet Monza e a mesma configuração de motor e tração, com uma versão conversível, e o Quadro, o 2+2 com motor e tração dianteiros que esta reportagem apresenta.

Ao mesmo tempo em que mostra o que os fora-de-série tinham de mais sofisticado, o Quadro também denuncia as razões para que os fabricantes desses veículos tenham desaparecido. Quando surgiram, os carros especiais seguiam receitas simples em busca de desempenho e exclusividade: um bom desenho, tração traseira e baixo peso. Com exceção do Santa Matilde, que já nasceu como carro luxuoso, os restantes tinham um compromisso com essa fórmula.

No Quadro já se nota a rendição a soluções técnicas mais simples, como a tração dianteira, com motor também dianteiro. Os primeiros modelos da Farus tinham motor central-traseiro, o que melhorava o equilíbrio dinâmico, e tração traseira, bem ao gosto de quem aprecia a condução esportiva.

O desenho também não era mais tão harmônico quanto o do ML 929 e do Beta, dois dos primeiros modelos da marca mineira, que nasceu de uma fábrica de equipamentos para indústrias alimentícias. A traseira do Quadro, com as lanternas do Gol modelo 1987, lembra muito a do esportivo Corrado, da VW, mas as linhas laterais e dianteiras têm um quê de pesadas.

De qualquer forma, é pena que essas empresas não tenham tido tempo de se adaptar à nova realidade do mercado e de se voltar ao que faziam melhor: esportivos pequenos, leves e acessíveis, receita que vem mantendo a Chamonix e a Lobini em plena produção, atualmente. Uma delas poderia ter sido o embrião de uma legítima indústria nacional de automóveis. Quem sabe um dia?

Gosta dos fora-de-série brasileiros?

Então veja abaixo as nossas ofertas destes belos veículos nacionais:

Americar

Bianco S Tarpan

Chamonix

Dacon Pag Nick

Dardo

Envemo

Lobini

MiuraMP Lafer

Puma

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