Rodamos de Mahindra na Índia

Da janela: deuses, incensos,  vacas sagradas e muita buzina
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Adriana Bernardino
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O trânsito poderia ser o de qualquer grande avenida brasileira. Tire, entretanto, os semáforos e as faixas de pedestre. Acrescente vacas, bois, búfalos, macacos, cachorros, camelos e, com um pouco de sorte ou azar um elefante. Eles devem ter a face serena de quem não corre risco de morte e, por vezes, deitar-se sem cerimônia em meio ao tráfego. Esqueça o medo de ser assaltado. Feche os vidros, porém, para que uma vaca não coma – e o macaco não pegue – alguma guloseima que você deixou em cima do painel. Acrescente ao trânsito rikishas, tuk-tuks tipo de triciclo coberto e famílias inteiras em cima de uma única moto. Retire os espelhos laterais dos carros, substitua-os pelo polegar na buzina. Mude o volante de lugar; ele deve ficar à direita. Transforme os arranha-céus espelhados em prédios baixos, sem afetação, espremidos por construções milenares – entre elas, templos e castelos. Em vez do busto de presidentes ou bandeirantes, coloque esculturas imensas de deuses com muitos braços ou de homens sagrados que atingiram a iluminação. Altere também o cheiro da cidade, que deve ser de sândalo. Cubra as pernas expostas por minissaias com sáris coloridos e cheios de brilho. Sem medo, substitua homens heterossexuais machões com as mãos no bolso por homens heterossexuais também machões de mãos dadas com outros homens. Troque o taxista carrancudo por um que canta em sânscrito, dança com as mãos e dirige com os cotovelos. Ficou ansioso com tanta coisa? Transforme isso também. Os motoristas devem ser calmos, tolerantes e nada agressivos. Enfim, substitua – isso será inevitável – o pensamento que pula de um lado a outro, fugindo da monotonia cotidiana, por uma repentina concentração e amor à vida.

Agora, sim, você está no clima para ler o que vivemos em muitas cidades da Índia. No último mês de março, fomos até lá para, entre outras coisas, conferir o mercado automobilístico que tirou do Brasil o quarto lugar entre os maiores do mundo. Parte de nossa aventura se deu a bordo de um Mahindra Scorpio, gentilmente cedido pela fabricante indiana.

O grande Indra

O nome Mahindra pronuncia-se Marrindra significa “grande Indra”, deus da guerra, dos céus e da tempestade. O modelo 4x2 LX 2WD, um quatro-cilindros de 2,6-litros, 120 cv e 29,6 de torque, usado para esta reportagem, custa 855 mil rúpias, cerca de R$ 33 mil; no Brasil, o SUV da marca, com opções de tração 4x2, 4x4 e 4x4 reduzida, custa a partir de R$ 86 mil.

Embora ainda não tenham alçado voos por aqui foram 600 unidades vendias em 2010, os modelos da Mahindra fazem sucesso em casa 35.488 veículos vendidos apenas no último mês. Depois rodar por 337 quilômetros, a maior parte deles dirigidos por Hanumathan, motorista emprestado pela fabricante não fomos loucos a ponto de encarar o volante sozinhos, fica fácil entender por que o carro é tão querido.

No trânsito indiano, que deixa qualquer não-indiano com o coração aos saltos, o desempenho do Scorpio é honesto ao que se propõe, isto é, responde bem às necessidades dos mais diferentes tipos de terreno – asfalto, terra, deserto, montanha às vezes, todos ao mesmo tempo, e cai como uma luva às famílias numerosas. Na Índia, ocorre o fenômeno da multiplicação dos bancos; um carro para sete passageiros chega a levar mais de 20 pessoas vide foto. Por isso, quanto mais espaço, melhor.

No caminho

Com o Scorpio, partimos de Nova Delhi rumo a Vrindavan, Mathura e Govardhana, três cidades sagradas e palco de muitas aventuras de Krishna, divindade que os hindus acreditam ser o oitavo avatar e uma das encarnações do deus Vishnu. No Brasil, o Bhagavad Gita do sânscrito, “Canção de Deus” – texto épico que relata o diálogo entre Krishna e seu discípulo Arjuna em um campo de batalha – não é de todo desconhecido. Ele foi fonte de inspiração a um dos maiores sucessos do cantor Raul Seixas, a música “Gita”, e livro sagrado dos seguidores do movimento Hare Krishna você já deve ter comprado incenso de um deles.

Talvez pelo excesso de estímulo fora do carro, dirigir do lado direito – herança da dominação inglesa – não foi o maior dos obstáculos. Assumi o volante nos momentos em que o trecho estava aparentemente vazio. Como isso é praticamente impossível na Índia, eu logo estaria suando frio com a repentina aparição das vacas, caminhões na contramão, jipes abarrotados de gente fazendo manobras perigosas, além de imensos objetos não identificados em movimento na estrada. Diante de meu visível pavor, o motorista gentilmente me pedia calma e repetia o mantra que está estampado em 90% dos veículos por lá: “horn, please” do inglês, “buzine, por favor”.

Tanto para dirigir quanto para qualquer outra atividade na Índia, entretanto, as dificuldades de um ocidental tendem a diminuir ao passo em que ele aprende uma lição básica: os pronomes “eu” e “meu” praticamente não existem por lá, ou existem de maneira bem diferente da que estamos acostumados. Aos poucos, é preciso aprender a substituí-los por “nós” e "nosso”; a se esquecer do interesse individual em favor do coletivo.

Na prática, isso implica não tecer julgamentos sobre o comportamento de outro motorista ou tomar as coisas como uma ofensa pessoal, ou seja, ninguém dirige com raiva ou tem atitudes agressivas. A qualquer momento, coisas podem entrar na frente do carro sem que provoque qualquer estresse aos outros motoristas ou passageiros. É cultural do indiano achar a presença do outro tão natural e necessária quanto a dele. Significa também não se irritar com a buzina incessante maneira que os motoristas avisam que estão passando e respeitar toda forma de vida pelo caminho. Isso é, talvez, um dos aspectos mais espirituais da Índia. Quem vai até lá achando que encontrará o silêncio de um mosteiro, decepciona-se. A paz do indiano, raramente perturbável, é interior.

Com isso em mente, partimos para Vrindavan, cidade de ruas muito estreitas e belos templos históricos. Lá é possível ouvir, a qualquer hora do dia ou da noite – às vezes muito alto, às vezes apenas sussurrado – o mantra que George Harisson tornou conhecido em todo o mundo: Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare. A devoção não acontece apenas dentro do templo, mas também nas casas, nas lojas, nos restaurantes e em tudo que se locomove. Enfim, praticamente tudo que existe na Índia está povoado de deuses e da aura misteriosa que envolve cada um deles.

Misterioso mesmo, entretanto, é entender como os carros conseguem transitar ali. A todo o momento, estávamos frente a frente com outro veículo, sem espaço nas laterais laterais, diga-se, com pessoas, vacas e todos os personagens que já descrevi no primeiro parágrafo. Quando aparentemente nada pode ser feito, o motorista indiano desfaz com sorriso búdico um nó que, a nós, seria motivo de horas de muitas manobras e ocorrência policial. Não dá para negar que eles são excelentes motoristas, especialmente o nosso, que manobrava não um Tata Nano, mas um modelo de mais de 4 metros de comprimento.

Penetrar em uma cultura oriental, especialmente a indiana, pode ser uma experiência chocante, ainda que de SUV. Para nós, que temos 500 aninhos, fica difícil julgar ou se aproximar de uma possibilidade de real entendimento. Interessante, entretanto, é soltar os cintos de segurança lá ninguém usa mesmo de um mundo conhecido e se render à explosão de cores, sons, sabores, cheiros e diferenças. Resta-nos manter o coração aberto, o olhar de descoberta e tomar o tchai, típico chá indiano à base de leite e especiarias, no nascer e no pôr-do-sol.

Talvez os deuses, talvez o tchai, talvez o pôr-do-sol. Certo é que, em determinado momento, com alguma sorte, podemos chegar à doce conclusão de que talvez demos importância demais às coisas desimportantes, como uma buzinada, uma barbeiragem ou o desejo escravizante de impor o que somos. Passado o desconforto inicial, o que resta é uma paz profunda de sair de cena e ser um com o todo. Na Índia, seja com seus pés ou sobre rodas, essa dissolução é possível.

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