Coluna do Tite: Más notícias

Como a inversão de valores muda a responsabilidade pelos acidentes com motos
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Geraldo Simões
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– Recentemente fiz uma rápida pesquisa por meio de uma ferramenta de busca da internet e o resultado foi surpreendente: acidente de trânsito é uma boa notícia! Menos paras a vítimas, claro, mas para o resto da população o acidente é algo tão espetacular e até admirado que os veículos de comunicação se abastecem de todo tipo de acidente para estampar grandes manchetes de primeira página. Se tiver vítima fatal, então, é destaque com direito a fotos de detalhes de membros amputados e corpos mutilados.

Não adianta tentar estudar os aspectos da característica humana que nos trouxeram, em pleno século 21, ao atual estágio de admiradores de cadáveres, mas não precisa ser muito esperto para perceber que sangue vende jornal. Juntamente com sexo e o resultado do futebol.

Pior ainda é quando as notícias tentam direcionar o foco do problema, mesmo que ingenuamente, para um grande culpado pelo elevado número de acidente. Claro, porque desde que o mundo é mundo alguém precisa ser culpado de alguma coisa.

Também não precisa ser muito observador para perceber que, de novo, a motocicleta é a bola da vez quando o tema é acidente de trânsito. A pressão da mídia generalizada é tão forte que ouvi de um concessionário de moto a inacreditável afirmação de que ele se sentia culpado pelas vítimas a ponto de ficar constrangido diante da sociedade. Sinal de que a inversão de valores provocada pela mídia está fazendo efeito.

Vamos deixar as motos de lado e pensar nos homicídios. Anualmente as secretarias de segurança pública exibem dados estatísticos sobre a violência urbana e nem precisamos ter acesso a estes números, porque eles chegam até nós nas mesmas páginas de jornais e telas de TV. Homicídio também é uma boa notícia.

Quando a mídia noticia o homicídio gera as inevitáveis teorias sobre as causas, que vão desde as mais elementares distorções sociais, até desemprego, tráfico de drogas, falta de policiamento, etc, etc. Mas raramente se lê algum comentário apontando os fabricantes de armas de fogo como os principais responsáveis. Ou seus vendedores credenciados. E, mesmo assim, depois da mobilização nacional pelo desarmamento, vejo estarrecido, uma campanha pelo armamento!

E se indagarmos o fabricante de armas e apontá-lo como responsável pelo aumento de homicídios ele responde, com boa dose de lógica, que suas armas são feitas para defesa. Se estão sendo usadas para o crime é uma distorção. Faz sentido!

Ao noticiar um homicídio não leio, entre outras coisas, a marca da arma de fogo utilizada. Ou qual foi o comerciante que vendeu. Em algumas ocasiões informam o calibre e o tipo de arma. Porque o foco da notícia não está na arma, em como ela foi obtida, se o usuário tinha licença ou se era fruto de contrabando. O foco da notícia é o crime e a falta de segurança.

Voltamos para as motos. Por coincidência tive acesso a duas notícias sobre acidentes fatais envolvendo motos. Nos dois casos os jornais fizeram questão de destacar a marca das motos. Em um deles um parente ainda declarou que a vítima “detestava motos”. Geralmente a notícia vem acompanhada de dados que mostram o aumento no número de acidentes com motociclistas e o foco da notícia passa a ser a moto! É a mídia fazendo seu papel de inverter os valores e transferir o ônus da responsabilidade a quem fabrica e vende as motos.

O Estado agradece!
Agradece porque ao desviar o foco para a moto, a mídia livra a barra de quem recebe – e muito – para educar, ensinar, fiscalizar e gerenciar o trânsito. Cada moto que circula no Brasil foi carregada de impostos de várias naturezas, inclusive os destinados à educação, fiscalização e gerenciamento do trânsito. Cada moto que chega às ruas também gerou taxas compulsórias para atender as vítimas de trânsito.

Percebe a inversão de valores? Quando há um homicídio é resultado da falta de segurança pública. Quando acontece um acidente com motociclista é culpa da moto. Tem algo de errado nesta ordem.

Ninguém fabrica ou vende moto para que as pessoas se acidentem. Elas são uma opção inteligente, simples, barata e ecológica de transporte. Inclusive para fugir do transporte público de baixa qualidade. Se o número de acidentes está alto é uma distorção. Que também faz sentido.

Só para continuar no exemplo dos dois acidentes, em um deles o condutor era menor de idade, de 16 anos, que levava uma garota de 13 anos na garupa. Em nenhum momento os jornais questionaram como um adolescente, sem habilitação, estava pilotando uma moto de madrugada? E o mais surpreendente: um dos jornalistas ainda comentou que menores de idade dirigindo era uma situação “comum na cidade”. Mas isso foi tratado de leve, porque a imagem que ficou foi de um corpo ao lado de uma moto, com especificação da marca, modelo e cilindrada.

A tragédia continuará sendo o principal fermento para crescer as vendas de jornais e a audiência da TV. Infelizmente é da natureza humana, desde os tempos das arenas romanas, ou dos enforcamentos em praça pública na Idade Média. Só que da mesma forma que os cristãos não culpavam os leões por serem devorados nas arenas romanas, é preciso parar de demonizar a moto e começar a cobrar políticas públicas que tragam resultados efetivos. Precisamos de boas notícias.

As opiniões expressas nesta matéria são de responsabilidade de seu autor e não refletem, necessariamente, a opinião do site WebMotors.
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Geraldo Tite Simões é jornalista, instrutor de pilotagem e ministra o Curso SpeedMaster de Pilotagem com apoio de Honda, Pirelli, Tutto e Shoei. www.speedmaster.com.br

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