Psicotécnico: dá para piorar?

Dá. Profissionais despreparados podem intensificar ansiedade e medo
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Andréia Jodorovi
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Depois de aceitar o convite do site WebMotors para vencer o medo de guiar – realizado em parceria com a Clínica Escola Cecília Bellina – e passar por entrevista com a própria Bellina, o terceiro desafio da série Coragem de Dirigir foi realizar o exame psicotécnico.

Comigo, a saga durou duas semanas. Liguei e marquei meu teste para o mesmo dia. O entusiasmo inicial, entretanto, foi substituído por um esquecimento voluntário. Não fui. Importante dizer que, quando se trata de fazer algo do qual fugimos a vida toda, mesmo o movimento mais simples exige um esforço sobrenatural.

Obstáculos de dentro e de fora

No dia seguinte, enfrentei meus demônios e fui. Depois de andar sob sol escaldante por 30 minutos e me achar uma heroína por isso, vi minha jornada épica acabar em tragédia. A moçinha do atendimento não me avisou que era preciso levar o CPF. Aliás, ela não me deu, antes, nenhuma recomendação sobre que documentos seriam necessários. “Quer marcar para amanhã?”, ela perguntou.

A raiva foi proporcional a todo esforço físico e emocional que despendi para estar ali. Que vontande de desistir. Disse “não, obrigada, vou tentar um local mais próximo para mim.”

Se você também tem a mania de se sabotar, uma solução paliativa pode ser envolver outras pessoas no seu processo, se comprometer de alguma forma com elas. Não fosse por este de escrever a série de reportagens, por exemplo, eu já teria desistido.

Exame off-road

Liguei para 10 auto-escolas solicitando uma recomendação de onde fazer o exame psicotécnico. Apenas uma me deu o telefone e o endereço, sem fazer questionamentos. As outras nove queriam, antes, vender o pacote promocional da escola, e se recusaram a dar qualquer informação.

Com algumas clínicas médicas – cujo telefone consegui na internet – não foi diferente. Para agendar um horário era preciso a indicação de uma auto-escola.

Enfim, superei o orgulho e voltei à clínica que havia me recusado por causa do CPF. Para minha indignação, a mesma atendente, ao preencher minha ficha, não pediu o CPF, apenas o número, que eu sabia de cabeça.

O local, apesar de decorado com quadros de flores e filhotes, não tinha clima muito amistoso. Observei que, como eu, os clientes eram tratados como na maioria das repartições públicas. Cordialidade compromete o processo?

O banheiro, muito necessário àqueles que passam por testes, além de ser o mesmo para homens, mulheres e portadores de necessidades especiais, ficava no corredor do prédio, fora da clínica.

Nas salas, chamou-me atenção também a presença de objetos popularmente conhecidos como sendo de proteção: alho, cristais e sal grosso. Nós, clientes, devemos ser muito “pesados” mesmo, pensei. Uma hora depois, porém, minha conclusão foi outra: atender pessoas tensas o dia todo não deve ser fácil, mas se o atendimento fosse um pouco mais humano tanta tensão talvez não fosse despejada ali.

Psicóloga sem psicologia

A primeira etapa é passar pelo exame médico. Para quem enxerga bem, é tranqüilo e rápido. Foi na segunda parte, entretanto, que minha confiança começou a desaparecer.

Em uma sala pequena, cheia de cadeiras com canetas presas, acomodei-me com outras pessoas que já realizavam o teste. Impossível não espiar o que elas estavam fazendo. Fiquei imaginando qual seria a regra do jogo, o que faria quando chegasse minha vez.

A psicóloga, que não se identificou, despejou sobre o braço de minha cadeira uma série de papéis que deveriam ser preenchidos de maneiras diferentes. Quando ela deu a última explicação, já não me lembrava bem da primeira. Fiz na intuição. Entre papéis para assinar, havia uma folha de teste. Não havia entendido se era para preenchê-lo ou não. Na dúvida, tentei chamar a profissional, que trocava confidências com outro funcionário.

Comecei a me desesperar. E se fosse para dar início ao teste? E se aquele tempo contasse para minha avaliação? Só não comecei porque não havia orientações na folha. Depois de cinco minutos, mais ou menos, ela voltou e me levou para outra sala. Lá como total desconhecidas que éramos – e sem a menor possibilidade um “olá, tudo bem?” – demos início à bateria de testes.

Ali, tive certeza de que iria reprovar. As pessoas têm formas diferentes de reagir à mesma situação. Não sei se aquela mulher me lembrou alguma professora rabugenta, mas senti tanto medo dela que, a qualquer momento, poderia simplesmente largar os lápis e desistir daquilo tudo.

Voltei à salinha para nova seqüência de testes. Novamente, dividi o espaço com outros candidatos, cada um em etapas diferentes e esticando os olhos para a mesa do outro. Uma mulher estava totalmente perdida. Pediu informação em voz alta. Nenhum de nós respondeu. Como eu, ela teve de esperar a psicóloga terminar nova etapa de confissões com o amigo.

No último teste, tive de me basear numa encadernação plastificada. As folhas estavam com várias anotações em caneta, apontando para possíveis respostas. Aquilo me deixou totalmente confusa e influenciada.

Fim do tempo. A psicóloga me levou para salinha, corrigiu meus testes na minha frente e informou que eu fora aprovada. Talvez fosse a Síndrome de Estocolmo afeto que a vítima sente pelo seqüestrador, mas, diante da notícia, cheguei a gostar dela. Passado o susto, entretanto, achei lamentável que uma etapa tão importante na vida de um futuro motorista seja tratada com tamanho descaso.

O teste em si é simples, como disse no início. As pessoas que o aplicam, nem tanto. Antes de fazer o seu, peça recomendação. Boa parte da angústia é desnecessária.

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