Quatro décadas de tradição

Desde 1961 Paulo Soldano coleciona belezas como este Ford 1929 na Lapa. Conheça um pouco de sua história
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Renato Bellote
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- O bairro da Lapa é um dos mais tradicionais da cidade de São Paulo. No século 19 houve uma grande onda de imigração e ele foi crescendo e ganhando novos contornos. Com o passar do tempo, se tornou um centro industrial, formado pelo proletariado crescente.

E foi justamente nessa região que eu fui buscar essa matéria. Tudo começou numa quarta-feira de tempo nublado. O amigo Silvério Ortiz Júnior havia me ligado na semana anterior. “Vamos fazer a reportagem com o Paulinho?”, perguntou. Concordei na hora e, nesse dia, partimos a bordo de seu clássico Maverick azul.

Saindo de Moema, seguimos pela Avenida 23 de maio, acompanhados por olhares curiosos e pelo ronronar do “veoitão”. Algumas nuvens pretas ameaçavam estragar o passeio, mas a promessa de chuva não se concretizou.

Finalmente, depois de atravessar o Elevado Costa e Silva – mais conhecido como “Minhocão” – e passar defronte a antiga indústria Matarazzo, chegamos à Paulinho Automóveis, uma bela loja localizada na Rua Clélia.

Paulo Soldano veio nos dar as boas-vindas, com a simpatia de quem recebe bem os amigos. O que chamou minha atenção estava pendurado na parede. Telas de cada um dos carros da coleção, pintadas com traços firmes, mas de grande sensibilidade. Certamente foram feitas por alguém que põe o coração no ofício.

Aliás, o Paulinho – vou chamá-lo como está acostumado – me contou toda a história da loja, na qual também trabalham a filha e o filho. Ele entrou no ramo em 1961, incentivado pelo pai, José Soldano. “Comecei com um único carro”, disse. O bairro também é parte importante de sua trajetória. “Sempre na Lapa. Sou nascido e criado aqui”, enfatizou.

Do outro lado do prédio, existe um espaço para quem gosta de miniaturas. Em frente, um grande quadro de avisos guarda algumas preciosidades: reportagens de jornal de várias épocas, que contam sua história. Placas comemorativas e diplomas de participação em diversos eventos também estão por ali.

Depois de um pouco de conversa, descemos a rampa até chegar ao subsolo. Ali, a primeira relíquia recebia os cuidados de seu funcionário de confiança. O Ford 1929 Cabriolet chama a atenção pela originalidade. O brilho da carroceria é algo fantástico.

“Veja os detalhes”, disse o Paulinho. O carro tem algumas particularidades bem interessantes como, por exemplo, o vidro traseiro de cristal bisotado. Um charme dos anos 20. O espelho retrovisor fica sobre o estepe e a dobradiça da capota segue o mesmo desenho das maçanetas. “Só foram feitos 1.627 como este”, comentou o orgulhoso proprietário. Excepcional!

Andando um pouco por ali, avistei um futuro clássico nacional: o Passat LS. O veículo foi comprado há quatro anos e está original em todos os aspectos. Rádio de fábrica e o estofamento azul revelam o cuidado do dono. Aliás, a placa também é do ano em que ele saiu da linha de montagem e que este que vos escreve nasceu: 1979.

Saindo do prédio, andamos uns cem metros para conhecer a maior parte da coleção. Nesse trajeto, pude reparar como a Lapa ainda é um bairro à moda antiga, que sente o tempo passar de forma mais lenta. Uma pequena oficina e também uma quitanda me fizeram voltar um pouco no tempo.

Chegando à garagem subterrânea, descemos ao primeiro piso. Lá estava um Dodge Magnum prata, debaixo da capa. Essa aquisição foi feita há seis anos, no encontro de Águas de Lindóia, já que o primeiro dono não tinha onde guardá-lo.

O carro tem duas características interessantes. A primeira é que ele possui transmissão automática, e a segunda, é o raríssimo teto solar de fábrica. Meu saudoso amigo Celso Lamas – que foi diretor de estilo da Chrysler – me falou muito desse opcional. Agora pude vê-lo com meus próprios olhos. O toque final fica por conta da plaqueta da concessionária Chambord.

Se a coisa já estava boa até agora, espere pra ler os parágrafos seguintes. Descemos para o segundo subsolo, este tomado por mais de uma dezena de raridades, todas devidamente protegidas da ação do tempo. Um Volkswagen TL 1972 quatro portas foi o primeiro “alvo” da minha curiosidade. Ao seu lado, um Del Rey 1986 com 2.200 quilômetros rodados. É isso mesmo. Não esqueci de colocar nenhum dígito.

“Cada carro daqui tem uma história curiosa”, disse o Ortiz, que já conhece bem o acervo. E pude comprovar isso. A Variant II 1979, por exemplo, parece recém-saída da loja. “O antigo proprietário levou-a para Portugal três vezes”, comentou o Paulinho.

Ainda neste espaço, um Dodge Polara 1981 com câmbio automático. O exemplar é raro, pois, há 26 anos, ninguém queria esse opcional. No cofre do motor, a plaqueta da Volkswagen indica que o modelo é um dos últimos que foram produzidos.

E por falar na marca alemã, no fundo da garagem, mais três modelos – igualmente impecáveis – descansam protegidos das intempéries. O Fuscão 1971 foi adquirido de uma senhora de mais de 80 anos, moradora do bairro de Higienópolis e rendeu um “causo” interessante. “Ela foi a única dona. Vendeu o carro para mim e me disse que os taxistas da rua não poderiam saber, pois cobiçavam o Fusquinha”, lembra com bom humor o comerciante.

O outro Volkswagen é um TL 1971, legítimo fastback da época. A cor azul-pavão está como nova e o odômetro marca pouco mais de 40.000 quilômetros rodados. Esse mesmo carro recebeu elogios do presidente Lula, por ocasião do feriado do Dia do Trabalho, em 2004. Ele até aparece ao lado da relíquia em uma foto.

Por fim, um Fusca 1961, com parte elétrica de seis volts e alguns acessórios daquele ano, como detalhes da porta e acabamento. O clássico foi adquirido para lembrar o ano em que o Paulinho começou a trabalhar na área.

Um fora-de-série de prestígio é o carro que marca o fim da visita. O MP Lafer 1979 dourado, de chassi número 2033, ainda tem o estepe sem uso e a nota fiscal. Pequenos detalhes de um segundo dono zeloso.

Cada vez que escrevo sobre uma coleção como essa ou um único automóvel antigo, percebo que passo adiante algo importante. Trago à tona histórias que merecem ser contadas. Conheço pessoas como Paulo Soldano, que começou com um único carro e fala de suas conquistas com um brilho intenso nos olhos, desses que a gente só vê nos verdadeiros apaixonados pelo que fazem.

Gosta de antigos?

Então veja abaixo as nossas ofertas dos modelos citados nessa reportagem:

Volkswagen TL

Ford Maverick

Ford Modelo A

Volkswagen Fusca

Dodge Magnum

VW Variant II

VW Passat

MP LaferDodge Polara

Ford Del Rey

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* Renato Bellote, 27 anos, é bacharel em Direito e assina seis colunas sobre antigomobilismo na internet. O autor tem textos publicados em doze países de língua espanhola e é correspondente do site português Lusomotores

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